Camila ainda parecia meio perdida enquanto caminhava até a porta.
Era como se a mente dela ainda estivesse tentando processar tudo que tinha acabado de acontecer.
Ela tinha entrado na casa de Bruno Valente.
Tinha visto a Alice ali.
Viva.
Conversando com o homem mais temido daquele morro como se fosse… normal.
Nada daquilo fazia sentido.
Ela parou na porta e olhou para Alice mais uma vez.
— Você tem certeza que está tudo bem?
Alice assentiu.
— Tenho.
Camila estreitou os olhos.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Porque você sumir por dois dias e aparecer aqui… não é exatamente normal.
Alice sorriu levemente.
— Eu sei.
Camila suspirou.
— Eu nem quero saber o que está acontecendo.
Ela levantou as mãos.
— Sério.
— Quanto menos eu souber, melhor.
Alice riu.
— Talvez seja mesmo.
Camila olhou para Valente rapidamente.
Ele estava encostado na parede da sala, observando as duas em silêncio.
A presença dele ali parecia encher o espaço inteiro.
Camila voltou a olhar para Alice.
— Mas fala com seu pai.
— Hoje.
— Porque ele está ficando desesperado.
Alice assentiu novamente.
— Eu vou falar.
— Prometo.
Camila abraçou ela mais uma vez.
— Você é maluca.
— Eu sei.
— Muito maluca.
Alice sorriu.
— Também sei.
Camila soltou ela e abriu a porta.
Antes de sair, virou para Alice mais uma vez.
— Me manda mensagem quando resolver isso.
— Eu mando.
— E não some mais assim.
— Vou tentar.
Camila fez uma careta.
— Tenta mesmo.
Então saiu.
A porta se fechou.
E o silêncio voltou para a casa.
Mas agora o clima estava completamente diferente.
Mais pesado.
Alice suspirou lentamente.
E então falou:
— Eu vou ter que sair da comunidade.
Valente não respondeu.
Ela continuou:
— Eu preciso ir na empresa do meu pai.
— Falar com ele.
Foi como se alguém tivesse apertado um botão invisível dentro de Valente.
Ele se afastou da parede imediatamente.
— Não.
Alice franziu a testa.
— Como assim não?
Ele caminhou até a mesa da cozinha.
Os passos pesados ecoando no chão.
— Você não vai sair daqui.
Alice cruzou os braços.
— Eu vou sim.
Valente bateu a mão na mesa.
O som ecoou pelo lugar.
Forte.
Bruto.
— VOCÊ NÃO VAI SAIR DAQUI!
Alice não recuou.
Nem um centímetro.
Ele apontou o dedo para ela.
— Você tem trabalho a fazer aqui.
— Você prometeu recuperar aquele dinheiro.
— E até agora só falou.
A voz dele estava mais grave.
Mais dura.
— Então escuta bem.
O dedo dele ainda apontava para ela.
— Se você não me trazer o dinheiro que prometeu…
Ele estreitou os olhos.
— Eu acabo com você.
Silêncio.
O ar na sala parecia pesado.
Mas Alice não parecia intimidada.
Muito pelo contrário.
Ela deu um passo à frente.
E empurrou o dedo dele para o lado.
Com firmeza.
— Homem nenhum vai apontar o dedo na minha cara assim.
A voz dela era baixa.
Mas extremamente firme.
Os dois estavam agora frente a frente.
Perto demais.
— E homem nenhum vai falar comigo desse jeito.
Valente ficou olhando para ela.
Surpreso com a reação.
Alice continuou:
— Eu vou sair daqui.
— Custe o que custar.
Ela cruzou os braços novamente.
— A menos que você queira que a polícia invada esse morro atrás de mim.
Valente estreitou os olhos.
— O que você disse?
— Você ouviu.
— Meu pai sabe que eu estive aqui.
— Se eu não aparecer…
Ela deu de ombros.
— Ele vai continuar procurando.
— E ele tem dinheiro.
— Influência.
— Contatos.
Silêncio.
Ela inclinou a cabeça.
— Você quer mesmo esse tipo de atenção aqui?
Valente passou a mão no rosto.
Irritado.
Muito irritado.
Mas ele sabia que ela estava certa.
Polícia rondando aquele morro não era algo que ele queria.
De jeito nenhum.
Ele respirou fundo.
E então falou:
— Tá.
Alice ergueu uma sobrancelha.
— Tá?
— Você vai.
Ela piscou.
— Eu vou?
— Vai.
Alice relaxou um pouco.
Mas então ele completou:
— Mas eu vou junto.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Processando.
— O quê?
— Eu vou com você.
— Tá maluco?
— Não.
— Tá sim!
Ela começou a andar pela casa.
Agitada.
— Se meu pai me vê com alguém…
Ela parou e apontou para ele.
— Do seu tipo…
Valente franziu a testa.
— Que tipo?
Alice abriu a boca.
Mas hesitou por um segundo.
Então falou mesmo assim:
— Bom…
Ela apontou para ele de cima a baixo.
— Um cara tatuado.
— De boné pra trás.
— Cara fechada.
Ela fez uma careta leve.
— Desculpa…
— Mas você realmente tem cara de bandido. Ele não vai gostar nada disso.
Silêncio.
Pesado.
Muito pesado.
As palavras ficaram pairando no ar entre eles.
Valente não respondeu imediatamente.
Pela primeira vez desde que ela tinha chegado ali…
Algo no rosto dele mudou.
Não era raiva.
Não era irritação.
Era outra coisa.
Algo mais silencioso.
Mais profundo.
As palavras dela tinham acertado um lugar específico.
Um lugar que ele mesmo tentava ignorar.
Porque ele sabia.
Sabia como as pessoas viam ele.
Sabia o que representava.
Sabia que para o mundo lá fora…
Ele era exatamente aquilo.
Um bandido.
Alice percebeu que ele tinha ficado quieto.
Mas não entendeu exatamente o porquê.
Valente desviou o olhar por um segundo.
Respirou fundo.
Quando falou novamente, a voz estava diferente.
Mais baixa.
— Tudo bem.
Alice piscou.
— O quê?
Ele deu de ombros.
— Eu não ia entrar com você.
Ela ficou olhando para ele.
— Não?
— Não.
Ele caminhou até a porta da sala.
— Só ia te esperar no carro.
Silêncio.
Alice observou ele por alguns segundos.
Tentando entender aquela mudança repentina.
Mas então assentiu.
— Tá.
— Isso funciona.
Ela virou em direção ao corredor.
— Vou me arrumar.
Valente apenas assentiu.
Ela começou a subir as escadas.
Mas antes de desaparecer no corredor do andar de cima…
Ela olhou para trás.
Ele ainda estava parado na sala.
Quieto.
Pensativo.
Ela franziu levemente a testa.
Mas acabou subindo mesmo assim.
O som dos passos dela desapareceu no andar de cima.
E a casa ficou silenciosa novamente.
Valente ficou parado na sala por alguns segundos.
Imóvel.
As palavras dela ainda ecoando na mente.
“Você realmente tem cara de bandido.”
Ele soltou um pequeno suspiro.
E caminhou até o corredor.
No meio dele havia um espelho grande na parede.
Ele parou na frente dele.
E ficou olhando para o próprio reflexo.
Boné para trás.
Barba por fazer.
Olhos duros.
Cicatrizes leves perto da sobrancelha.
Tatuagens subindo pelo braço.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Observando a própria imagem.
“Cara de bandido.”
Ele soltou uma risada baixa.
Sem humor.
— É…
Passou a mão pelo rosto.
Observando os próprios olhos no espelho.
Ele sabia que aquela era a imagem que o mundo via.
A imagem que ele tinha construído.
Que ele precisava manter.
Para sobreviver naquele lugar.
Mas ouvir aquilo dela…
Foi diferente.
Porque de alguma forma…
Ele sabia o que aquilo significava.
Se ela via ele assim…
Ela nunca olharia para ele de outra forma.
Nunca veria mais do que aquilo.
E aquilo fez algo estranho apertar dentro do peito dele.
Algo que ele não estava acostumado a sentir.
Ele passou a mão na nuca.
Desviou o olhar do espelho por um segundo.
Mas depois voltou a olhar.
Observando cada detalhe.
Como se estivesse vendo o próprio reflexo pela primeira vez.
Tatuagens.
Olhar duro.
Postura de quem vive pronto para brigar.
Sim.
Ela estava certa.
Ele realmente tinha cara de bandido.
E talvez…
Talvez fosse só isso mesmo que ele fosse.
Lá em cima, o som de gavetas abrindo ecoava pelo corredor.
Alice se arrumando.
Se preparando para sair.
E ele ainda estava ali.
Parado.
Olhando para o próprio reflexo.
Como se estivesse tentando entender…
Quem ele realmente era.