Visita

1386 Words
O café da manhã já estava quase no fim. A mesa que antes parecia exageradamente cheia agora tinha pratos vazios, xícaras usadas e algumas migalhas espalhadas. Barbie — ou melhor, Alice — ainda estava sentada, terminando o café lentamente, enquanto Valente encostava na bancada da cozinha. Os dois tinham entrado em um daqueles silêncios estranhos. Não era desconfortável. Mas também não era tranquilo. Era o tipo de silêncio carregado de coisas que nenhum dos dois queria dizer em voz alta. Alice mexia distraidamente na xícara. Valente observava ela sem parecer que estava observando. Foi então que o som da campainha cortou o silêncio. Um som seco. Curto. Alice levantou os olhos. Valente reagiu antes mesmo de pensar. O corpo dele ficou imediatamente tenso. Por reflexo, a mão foi direto para a cintura. Para a arma. Era automático. Anos vivendo naquele mundo faziam o corpo reagir antes da mente. Alice percebeu o movimento. — Calma… Valente não respondeu. Ele já estava caminhando pelo corredor em direção à porta da frente. Passos firmes. Silenciosos. Ele parou ao lado da porta e olhou pelo olho mágico. O rosto dele mudou levemente. A tensão diminuiu um pouco. Ele soltou um pequeno suspiro. Alice apareceu atrás dele no corredor. — Quem é? Ele respondeu sem tirar o olho da porta. — Alguém da comunidade. Ele abriu a porta. Do lado de fora estava Camila. Ela parecia completamente deslocada ali. Pequena na frente daquele portão pesado, parada em frente à porta, olhando em volta. Os braços estavam cruzados na frente do corpo, como se estivesse tentando se proteger. Os olhos nervosos olhando para tudo. Assim que a porta abriu e ela viu quem estava ali… O rosto dela ficou ainda mais pálido. Bruno Valente. O homem que praticamente todo mundo no morro respeitava… ou temia. Ela engoliu seco. — B… bom dia. Valente encostou no batente da porta. Observando ela. Ele lembrava daquele rosto. Demorou um segundo. Mas então a memória veio. Aquela menina estava com Alice no dia que ele viu a loira pela primeira vez no morro. Com outras garotas. Rindo. Conversando. Ele cruzou os braços. — Bom dia. Camila parecia estar tremendo levemente. — Eu… eu… eu posso perguntar uma coisa? Valente inclinou a cabeça. — Depende. Ela respirou fundo. — É… sobre a Alice. O olhar de Valente mudou um pouco. Alice estava atrás dele no corredor, ouvindo. — O que tem ela? Camila falou rápido, atropelando as palavras. — Faz uns dois dias que ela sumiu. — A gente não sabe onde ela tá. — Ela saiu falando que vinha aqui… falar com você. — E depois ninguém mais viu ela. Silêncio. Valente ficou olhando para Camila por alguns segundos. Depois… Ele começou a rir. Não uma risada alta. Mas uma risada baixa. Divertida. Camila arregalou os olhos. — O… o que foi? Valente cruzou os braços. — Então foi isso que ela disse? Camila assentiu rapidamente. — Foi. — Ela falou que vinha aqui. — A gente achou estranho, mas… Valente interrompeu. — Mas você veio confirmar. — É. Silêncio. Valente deu de ombros. E falou com uma naturalidade assustadora: — A Alice já era. Eu falei pra ela não se meter comigo. Camila congelou. Literalmente. Os olhos dela ficaram enormes. A boca abriu. — C… como assim? O coração dela parecia estar tentando sair pela boca. — Já… já era? Valente manteve a expressão séria por alguns segundos. Camila parecia à beira de um ataque. Então ele começou a rir. De verdade. — Relaxa. Camila piscou. Confusa. — O… o quê? Ele abriu mais a porta. — Entra aí. — O quê? — Entra. — Eu… posso? — Pode. Camila olhou para dentro da casa. Depois para ele. Depois de novo para dentro. Claramente dividida entre curiosidade e medo. Mas acabou entrando. Com passos pequenos. Cuidadosos. Como se estivesse invadindo um território proibido. O interior da casa parecia ainda mais impressionante visto de perto. A sala era grande. Organizada. Com móveis pesados. Tudo muito bem cuidado. Camila olhava para tudo com uma mistura de curiosidade e nervosismo. — Caramba… Ela falou baixinho. Valente fechou a porta atrás dela. — Fica tranquila. — Eu… eu tô tranquila. Mas claramente não estava. Ela parecia prestes a pedir desculpa por respirar. Foi então que ouviram passos vindo da cozinha. Alice apareceu no corredor. Assim que Camila levantou os olhos e viu ela… — ALICE?! Ela praticamente gritou. Alice parou. — Camila?! As duas correram uma para a outra. E se abraçaram forte. Camila começou a falar sem parar. — VOCÊ É MALUCA?! — DOIS DIAS SUMIDA! — SEM DAR NOTÍCIA! — EU ACHEI QUE VOCÊ TINHA MORRIDO! Alice riu. — Calma! — CALMA NADA! Camila segurou os ombros dela. — Você desaparece! — Seu celular desligado! — Ninguém sabe onde você está! — Eu quase tive um treco! Alice tentou acalmar ela. — Eu sei… — Eu sei… — Foi complicado. Camila ainda estava meio desesperada. — Complicado como?! — Você não podia mandar uma mensagem?! Alice deu uma olhada rápida para Valente. Que estava encostado na parede do corredor. Observando tudo em silêncio. Ela voltou o olhar para Camila. — Eu… não consegui. Camila cruzou os braços. — Como assim não conseguiu? Alice respondeu com calma: — As coisas ficaram… intensas. — Eu tive que resolver algumas coisas. Ela deu outra olhada rápida para Valente. — Com ele. Camila seguiu o olhar dela. E só então pareceu perceber novamente onde estava. Na casa de Bruno Valente. Com Bruno Valente ali. O rosto dela ficou vermelho. — Ah… — Entendi… — Eu acho. Silêncio estranho. Camila coçou o braço nervosamente. — Enfim… — O importante é que você está viva. Alice riu. — Estou. — Mas você é doida. — Eu sei. — Muito doida. Valente continuava observando a cena. Até que Camila falou algo que mudou o clima. — Seu pai está te procurando. Alice ficou séria imediatamente. — O quê? — Ele está desesperado. — Ligando pra todo mundo. — Mandando mensagem. — Perguntando onde você está. Silêncio. Alice passou a mão no rosto. — Droga… Camila continuou: — Ele acha que aconteceu alguma coisa. — Falou até que se ninguém souber de você hoje… — Ele vai na polícia. A reação de Valente foi instantânea. Ele saiu da parede e deu dois passos para frente. — QUE NEGÓCIO É ESSE DE POLÍCIA? A voz dele cortou a sala como uma lâmina. Camila quase pulou de susto. — Eu… eu… Ela olhou para Alice, nervosa. Alice respondeu rápido. — Calma. Mas Valente não parecia calmo. — Seu pai vai na polícia por quê? Alice cruzou os braços. — Ele está preocupado. — Claro que está. — Eu desapareci. Valente passou a mão no rosto. Claramente irritado. — Isso não pode acontecer. Não traz problema pra cá, senão vai sobrar pra todo mundo que estiver envolvido, inclusive sua amiguinha aqui. Camila olhava de um para o outro. Completamente perdida. — Eu falei alguma coisa errada? Alice suspirou. — Não. — Você fez certo em avisar. Valente continuava andando pela sala. Pensando rápido. — Polícia é problema. — Muito problema. Alice respondeu: — Então eu resolvo. — Como? — Eu falo com ele. — Hoje. Valente parou. — Agora. Alice assentiu. — Agora. Camila olhava para os dois. Ainda tentando entender tudo. — Espera… — O que está acontecendo? Alice respondeu calmamente: — Eu estou resolvendo algumas coisas aqui. — Coisas importantes. Camila apontou para Valente. — Com ele? — Sim. — Que tipo de coisa? Alice deu um pequeno sorriso. — Coisas complicadas. Camila olhou para os dois. Depois balançou a cabeça. — Eu não quero nem saber. — Sério. — Quanto menos eu souber, melhor. Valente soltou uma pequena risada. — Sábia decisão. Camila respirou fundo. — Então… você vai falar com seu pai? Alice respondeu: — Vou. — Prometo. Camila assentiu. — Porque ele está ficando maluco. — E eu também. Alice apertou a mão dela. — Obrigada por vir me procurar. Camila sorriu. — Claro. — Você é minha amiga. Silêncio. Valente observava as duas. Mas a cabeça dele estava em outro lugar. Polícia. Essa palavra ecoava na mente dele. Aquilo não podia virar problema. Alice percebeu o olhar dele. E entendeu. Ela precisava resolver aquilo rápido. Antes que aquela história saísse do controle.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD