Café no Morro

1519 Words
O primeiro som que Barbie ouviu foi de música. Baixa. Distante. Algum funk vindo de uma casa no morro. Ela abriu os olhos devagar, ainda meio perdida. Por alguns segundos, não lembrou onde estava. O quarto era grande. Paredes claras. Uma janela enorme de onde entrava a luz da manhã. Depois a memória voltou. A reunião. Os homens armados. O escritório de Valente. A decisão de ficar ali. Ela soltou um suspiro longo e passou a mão no rosto. — Bom… que loucura. Sentou na cama e olhou ao redor. O quarto era simples, mas confortável. Nada exagerado. Nada luxuoso. Mas claramente bem cuidado. Barbie se levantou e caminhou até a janela. A vista do morro era diferente de qualquer coisa que ela já tinha visto. Casas empilhadas nas ladeiras. Fios cruzando o céu. Motos subindo e descendo ruas estreitas. Gente conversando nas portas. Crianças correndo. Parecia uma cidade viva. Ela ficou observando por alguns segundos. Pensativa. Nunca tinha imaginado acordar em um lugar assim. Muito menos na casa do homem que mandava ali. Ela saiu do quarto e caminhou pelo corredor. A casa estava silenciosa. Provavelmente todos já estavam acordados lá fora. Mas ali dentro… parecia quase tranquila. Ela seguiu o cheiro de café. Quando chegou à cozinha… Parou. Completamente parada. — O quê…? A mesa estava cheia. Mas cheia mesmo. Pães. Frutas. Bolos. Queijos. Café. Suco. Tudo organizado com cuidado. Como um café da manhã de hotel. Mas não era só isso. No centro da mesa… Havia flores. Flores de verdade. Num vaso simples. Mas bonitas. Barbie franziu a testa. — Isso não faz sentido. Ela entrou na cozinha devagar. Ainda olhando tudo. Como se aquilo fosse desaparecer a qualquer momento. Mas então viu outra coisa. Sacolas. Várias. Sobre uma das cadeiras. Sacolas de loja. Ela se aproximou. Abriu uma. Dentro havia roupas. Novas. Com etiqueta. Ela abriu outra. Mais roupas. Outra. Sapatos. Ela ficou alguns segundos olhando aquilo. Confusa. — Que…? Foi quando ouviu a voz atrás dela. — Bom dia, Barbie. Ela se virou. Valente estava encostado na porta da cozinha. Braços cruzados. Camiseta preta. Calça escura. Cara de quem já estava acordado há horas. Ele observava a reação dela com uma expressão quase divertida. Barbie olhou novamente para a mesa. Depois para as sacolas. Depois para ele. — O que é isso? Valente deu de ombros. — Café da manhã. — Não me diga. Ele entrou na cozinha e caminhou até a mesa. — Achei que você ia gostar. Ela ainda parecia confusa. — Você fez isso? — Pedi pra fazer. — E isso? Ela apontou para as sacolas. Valente puxou uma cadeira e sentou. — Roupas. — Eu sei que são roupas. — Mas por quê? Ele pegou uma xícara de café. — Porque você está aqui. Silêncio. Ela cruzou os braços. — E? Ele tomou um gole do café. — E você não tem nada aqui. — Nem roupas. — Nem coisas suas. Ele apontou para as sacolas. — Então resolvi isso. Barbie ficou olhando para ele. Por dentro… Algo estranho estava acontecendo. Ela não estava acostumada com aquilo. Ninguém nunca tinha feito algo assim por ela. Muito menos daquele jeito. Sem pedir nada. Sem esperar nada. Só… fazendo. Ela tentou esconder isso atrás de uma expressão neutra. — Então você saiu comprando coisas pra mim? Valente respondeu simplesmente: — Sim. — Por quê? Ele apoiou o braço na mesa. — Porque você vai ficar aqui. — E eu queria que você se sentisse confortável. Afinal, você me deve. Silêncio. Barbie desviou o olhar por um segundo. Aquilo bateu nela de um jeito inesperado. Mas claro que ela não ia demonstrar isso. Ela pegou uma das sacolas e olhou as roupas. — Você escolheu isso? — Algumas coisas. — E as outras? — Pedi ajuda. Ela levantou uma sobrancelha. — De quem? — De alguém que entende mais de roupa de mulher do que eu. Ela quase sorriu. Mas se controlou. — Então você acha que pode me comprar com isso? Valente franziu a testa. — Como? Ela largou a sacola na cadeira. — Roupas. — Café da manhã. — Flores. Ela apontou para a mesa. — Isso tudo. Ele a encarou. — Eu não estou tentando comprar você. — Parece. — Não parece. — Parece sim. Silêncio. O olhar de Valente mudou. Ele não gostou daquilo. — Você sempre transforma tudo em provocação? Ela deu de ombros. — Só quando vale a pena. Ele colocou a xícara na mesa com força. — Escuta aqui. A voz dele ficou mais firme. — Eu fiz isso porque você está na minha casa. — E eu não trato ninguém que está aqui como lixo. Você vai ficar e recuperar o dinheiro que prometeu, por bem ou por m*l. Ela respondeu imediatamente: — Não pedi nada disso. — Eu sei. — Então não precisava. — Eu sei. — Então por que fez? Ele levantou da cadeira. Agora claramente irritado. — Porque eu quis. Silêncio. Eles ficaram se encarando. A tensão no ar era quase palpável. Barbie cruzou os braços novamente. — Não vai funcionar. Valente apertou os olhos. — O quê não vai funcionar? — Isso. — Essas tentativas de me agradar. Ele deu um passo em direção a ela. — Eu não estou tentando te agradar. — Está sim. — Não estou. — Está. — Não estou! Ela inclinou a cabeça. — Está ficando irritado. — Porque você está sendo irritante. — Eu? — Sim, você. Silêncio. Por um segundo os dois ficaram se encarando de perto. Muito perto. Mais perto do que deveriam. Barbie sentiu algo estranho no peito. E percebeu que ele também estava percebendo aquilo. Valente respirou fundo e deu um passo para trás. — Come alguma coisa. Ela respondeu imediatamente: — Não. Ele abriu as mãos. — Por quê? — Porque você mandou. Ele ficou olhando para ela. — Você é impossível garota. — Já me disseram isso. — Muitas vezes? — Algumas. Valente passou a mão no rosto. — Você não consegue simplesmente aceitar algo bom? Ela respondeu com calma: — Eu consigo. — Então aceita, porque isso não é comum vindo de mim. — Mas eu não gosto de dívida. Ele franziu a testa. — Dívida? — Sim. Ela apontou para a mesa. — Isso tudo parece dívida. Ele respondeu firme: — Não é. — Parece. — Não é. — Parece. Ele suspirou. — Você faz isso de propósito. Ela sorriu levemente. — Talvez. Valente balançou a cabeça. — Um dia eu vou perder a paciência com você. Ela respondeu: — Já perdeu algumas vezes e olha que a gente m*l se conhece. — Ainda não perdi de verdade. — Estou curiosa pra ver. Silêncio. Valente soltou uma risada curta. Incrédulo. — Você provoca até alguém explodir. — Funciona. — Pra quê? — Pra ver quem você é de verdade. Ele estreitou os olhos. — E o que você acha que eu sou? Ela deu um passo mais perto. — Alguém acostumado a mandar. — Acostumado a que as pessoas façam o que você diz. — Acostumado a ser temido. Ele respondeu: — E? — E você não sabe lidar quando alguém não tem medo. Silêncio. Valente ficou olhando para ela. Depois sorriu de lado. — Você tem coragem. — Eu tenho confiança. — Em você? — Nos meus planos. Ele inclinou a cabeça. — Espero que funcione. — Vai funcionar. — Porque se não funcionar… Ele deu um passo mais perto. — Você lembra do que acontece. Ela respondeu imediatamente: — Eu fico frita. — Exatamente. Ela sorriu. — Então é melhor eu comer. Valente ficou olhando para ela por um segundo. Depois começou a rir. — Você é inacreditável. Ela puxou uma cadeira e sentou. Pegou um pedaço de pão. — O quê? — Nada. — Nada? — Só estou tentando entender como alguém consegue me irritar tanto em tão pouco tempo. Ela deu uma mordida no pão. — Talvez você goste. Ele levantou uma sobrancelha. — De ser irritado? — De mim. Silêncio. Valente não respondeu. Mas o olhar dele mudou. Barbie percebeu. E também desviou o olhar por um segundo. Porque a verdade… Era que ela também estava começando a sentir algo estranho. Algo que não fazia parte do plano. Algo que não tinha nada a ver com dinheiro. Ela pegou a xícara de café. — O café está bom. Valente encostou na mesa novamente. — Pelo menos isso. Ela olhou para ele. — Obrigada. Ele respondeu com naturalidade: — De nada. Silêncio. A provocação ainda estava ali. Mas havia algo novo também. Algo mais calmo. Mais humano. Barbie olhou novamente para as sacolas de roupa. — Posso ver isso depois? — São suas. — Mesmo? — Mesmo. Ela deu um pequeno sorriso. — Então talvez eu fique confortável mesmo. Valente respondeu: — Era a ideia. Ela tomou mais um gole de café. E pela primeira vez desde que chegou ali… Sentiu algo diferente. Não era medo. Não era tensão. Era uma sensação estranha de estar… Segura. Mesmo em um lugar que deveria ser tudo, menos seguro. E ela sabia exatamente o motivo. Valente.
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