Montados

1242 Words
A porta de vidro do salão se abriu devagar quando Alice saiu primeiro. O ar da rua parecia diferente depois de tudo o que tinham passado nas últimas horas. A cidade já estava viva: carros passando, gente caminhando apressada nas calçadas, o sol subindo no céu de forma preguiçosa. Alice parou um segundo na calçada. Ajeitou o vestido. Era um vestido elegante, escuro, justo na medida certa, com um corte que valorizava o corpo dela sem parecer exagerado. O cabelo estava arrumado, maquiagem discreta e profissional, e os saltos davam a ela uma postura ainda mais segura. Ela respirou fundo. Então olhou para trás. — Pode sair. Valente apareceu logo depois. Dioguinho, que vinha atrás, simplesmente congelou na porta. — Não é possível… Valente parou na frente deles. O terno azul escuro tinha caimento perfeito no corpo dele. A camisa branca impecável, gravata bem alinhada. O relógio caro brilhava no pulso. O perfume forte e sofisticado se espalhava no ar. O cabelo estava penteado para trás. Os óculos sem grau completavam tudo. Ele parecia… outra pessoa. Dioguinho levou as duas mãos na cabeça. — Caralh0… tu virou gerente de banco agora? Valente fez uma careta. — Vai tomar no teu cu. Alice deu um pequeno sorriso. Ela caminhou até ele e ajeitou a gravata. — Não fala assim. — Por quê? — Porque empresário não fala assim. Dioguinho quase engasgou de rir. — Empresário do morro talvez. Alice ignorou. Ela observou Valente da cabeça aos pés. O resultado tinha ficado melhor do que ela esperava. Muito melhor. Se alguém visse ele ali, naquele momento, não imaginaria de onde ele vinha. Valente respirou fundo. — Eu tô parecendo um palhaço. — Não — disse Alice. — Você tá parecendo um homem que tem dinheiro. Ele ajustou os óculos no rosto. — E eu continuo sem saber falar igual eles. Alice cruzou os braços. — A gente ensaiou. — Ensaiou meia hora. — Já ajuda. Dioguinho se aproximou deles. — Mano, na moral… se alguém do morro te vê assim, não reconhece. Valente bufou. — Ainda bem. Alice puxou o celular da bolsa. — O dono do lugar confirmou a reunião. — Que horas? — Daqui a quarenta minutos. Valente ficou em silêncio por alguns segundos. Quarenta minutos. Era pouco tempo. Pouquíssimo. Ele sentiu aquele peso familiar voltando para o peito. O prazo. O Tubarão. O milhão. Tudo aquilo correndo como um cronômetro invisível na cabeça dele. Alice percebeu. — Ei. Ele olhou para ela. — Relaxa. — Fácil falar. — A conversa quem vai conduzir sou eu, vou estar com você. — E eu? — Você fala pouco. Dioguinho riu. — Melhor conselho que ela já deu. Valente olhou feio para ele. — Tu nem vai falar. — Eu sei — disse Dioguinho. — Eu sou o motorista. Alice apontou para o carro estacionado. — Vamos. Eles caminharam até o veículo. Era um carro bom. Não chamava atenção demais, mas também não parecia simples. Alice entrou no banco do passageiro. Valente no banco de trás. Dioguinho assumiu o volante. Quando o carro começou a andar, o silêncio tomou conta por alguns segundos. A cidade passava pelas janelas. Prédios. Semáforos. Pessoas. Um mundo completamente diferente do morro. Valente apoiou o braço na porta. — E se ele perguntar de onde vem nosso dinheiro? Alice respondeu sem olhar para trás. — Investimentos. — Que investimentos? — Tecnologia. — Eu não entendo nada de tecnologia. — Nem ele. Dioguinho começou a rir de novo. — Mano, isso tá muito bom. Valente chutou o banco da frente. — Dirige e fica quieto. Alice continuou: — Empresários não sabem tudo. Eles têm equipes. — Equipes? — Sim. — E cadê a nossa? Alice deu de ombros. — Hoje somos só nós três. O carro entrou em uma avenida maior. O movimento era intenso. Valente observava tudo. Cada detalhe. Cada rosto. A sensação de estar fora do território dele era estranha. Ali ele não era ninguém. Só mais um cara de terno. Alice virou levemente no banco. — Escuta. — Fala. — Se ele perguntar algo técnico… — Eu travo. — Não. — Travaria. — Não vai. — Por quê? — Porque eu vou responder. Valente respirou fundo. — Tá. Ela continuou: — Você só precisa parecer confiante. — Fácil. — Olha no olho. — Certo. — Fala pouco. — Melhor ainda. Dioguinho comentou: — Primeira vez na vida que o Valente vai ganhar dinheiro falando pouco. Valente pegou uma garrafinha de água e jogou nele. O carro chegou ao centro comercial da cidade. Prédios mais modernos. Empresas. Restaurantes. Alice olhou o celular. — É ali. Dioguinho estacionou em frente a um prédio comercial. Vidro espelhado. Recepção elegante. Valente ficou olhando alguns segundos. — Esse lugar é chique demais. — Melhor — disse Alice. — Ninguém suspeita de gente rica. Eles saíram do carro. Valente ajustou o terno. Alice ajeitou o cabelo. Dioguinho fechou o carro e sussurrou: — Lembra… eu sou o motorista. — Não precisa repetir — disse Alice. Eles entraram no prédio. O ar condicionado frio bateu no rosto deles. A recepção tinha piso de mármore e um balcão enorme. Uma recepcionista levantou os olhos. — Bom dia. Alice sorriu de forma educada. — Bom dia. Temos uma reunião marcada. A mulher digitou algo no computador. — Nome? Alice respondeu sem hesitar. — Alice Ribeiro. Valente observou. Era impressionante como ela se transformava quando precisava. Até inventou um nome. Postura. Tom de voz. Confiança. A recepcionista olhou novamente. — Ah, sim. O senhor Carlos está esperando. Ela apontou para os elevadores. — Décimo andar. Alice agradeceu. Eles caminharam até o elevador. Assim que a porta fechou, Dioguinho soltou: — Caralh0… Valente riu nervoso. — Agora já era. Alice apertou o botão do décimo andar. — Agora é só manter a calma. O elevador subiu em silêncio. Cada andar parecia demorar uma eternidade. Valente sentia o coração batendo mais forte. Ele ajeitou os óculos. — Eu não devia ter vindo. — Devia sim. — Eu vou falar alguma merd4. — Não vai. — Eu sempre falo. Alice olhou diretamente para ele. — Confia em mim. O elevador fez um “ding”. Décimo andar. As portas se abriram. Um corredor elegante se estendia à frente deles. No final, uma porta de madeira escura. Uma placa de metal. Alice respirou fundo. — Vamos. Eles caminharam. Cada passo ecoava no piso polido. Valente sentia o peso do momento. Não era uma briga. Não era uma fuga. Não era um confronto. Era pior. Era um teatro. Alice bateu na porta. Uma voz veio de dentro: — Pode entrar. Ela abriu. O escritório era grande. Janela enorme com vista para a cidade. E atrás de uma mesa elegante, um homem de terno cinza os observava. Olhar atento. Experiente. Aquele tipo de olhar que parecia medir as pessoas. Ele levantou. — Bom dia. Alice estendeu a mão. — Bom dia. Valente fez o mesmo. — Prazer. O homem apertou a mão dele com firmeza. — Carlos. Ele olhou para os três. Depois para Valente novamente. — Então… vocês estão interessados no imóvel. O silêncio durou um segundo. Valente sentiu o olhar de Alice sobre ele. Era o momento. Ele respirou fundo. E respondeu: — Estamos avaliando algumas oportunidades. A frase saiu melhor do que ele esperava. Carlos sorriu levemente. — Ótimo. Ele apontou para as cadeiras. — Sentem-se. E naquele instante, Valente percebeu uma coisa. O verdadeiro jogo… Estava só começando.
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