A porta de vidro do salão se abriu devagar quando Alice saiu primeiro.
O ar da rua parecia diferente depois de tudo o que tinham passado nas últimas horas. A cidade já estava viva: carros passando, gente caminhando apressada nas calçadas, o sol subindo no céu de forma preguiçosa.
Alice parou um segundo na calçada.
Ajeitou o vestido.
Era um vestido elegante, escuro, justo na medida certa, com um corte que valorizava o corpo dela sem parecer exagerado. O cabelo estava arrumado, maquiagem discreta e profissional, e os saltos davam a ela uma postura ainda mais segura.
Ela respirou fundo.
Então olhou para trás.
— Pode sair.
Valente apareceu logo depois.
Dioguinho, que vinha atrás, simplesmente congelou na porta.
— Não é possível…
Valente parou na frente deles.
O terno azul escuro tinha caimento perfeito no corpo dele. A camisa branca impecável, gravata bem alinhada. O relógio caro brilhava no pulso. O perfume forte e sofisticado se espalhava no ar.
O cabelo estava penteado para trás.
Os óculos sem grau completavam tudo.
Ele parecia… outra pessoa.
Dioguinho levou as duas mãos na cabeça.
— Caralh0… tu virou gerente de banco agora?
Valente fez uma careta.
— Vai tomar no teu cu.
Alice deu um pequeno sorriso.
Ela caminhou até ele e ajeitou a gravata.
— Não fala assim.
— Por quê?
— Porque empresário não fala assim.
Dioguinho quase engasgou de rir.
— Empresário do morro talvez.
Alice ignorou.
Ela observou Valente da cabeça aos pés.
O resultado tinha ficado melhor do que ela esperava.
Muito melhor.
Se alguém visse ele ali, naquele momento, não imaginaria de onde ele vinha.
Valente respirou fundo.
— Eu tô parecendo um palhaço.
— Não — disse Alice. — Você tá parecendo um homem que tem dinheiro.
Ele ajustou os óculos no rosto.
— E eu continuo sem saber falar igual eles.
Alice cruzou os braços.
— A gente ensaiou.
— Ensaiou meia hora.
— Já ajuda.
Dioguinho se aproximou deles.
— Mano, na moral… se alguém do morro te vê assim, não reconhece.
Valente bufou.
— Ainda bem.
Alice puxou o celular da bolsa.
— O dono do lugar confirmou a reunião.
— Que horas?
— Daqui a quarenta minutos.
Valente ficou em silêncio por alguns segundos.
Quarenta minutos.
Era pouco tempo.
Pouquíssimo.
Ele sentiu aquele peso familiar voltando para o peito.
O prazo.
O Tubarão.
O milhão.
Tudo aquilo correndo como um cronômetro invisível na cabeça dele.
Alice percebeu.
— Ei.
Ele olhou para ela.
— Relaxa.
— Fácil falar.
— A conversa quem vai conduzir sou eu, vou estar com você.
— E eu?
— Você fala pouco.
Dioguinho riu.
— Melhor conselho que ela já deu.
Valente olhou feio para ele.
— Tu nem vai falar.
— Eu sei — disse Dioguinho. — Eu sou o motorista.
Alice apontou para o carro estacionado.
— Vamos.
Eles caminharam até o veículo.
Era um carro bom. Não chamava atenção demais, mas também não parecia simples.
Alice entrou no banco do passageiro.
Valente no banco de trás.
Dioguinho assumiu o volante.
Quando o carro começou a andar, o silêncio tomou conta por alguns segundos.
A cidade passava pelas janelas.
Prédios.
Semáforos.
Pessoas.
Um mundo completamente diferente do morro.
Valente apoiou o braço na porta.
— E se ele perguntar de onde vem nosso dinheiro?
Alice respondeu sem olhar para trás.
— Investimentos.
— Que investimentos?
— Tecnologia.
— Eu não entendo nada de tecnologia.
— Nem ele.
Dioguinho começou a rir de novo.
— Mano, isso tá muito bom.
Valente chutou o banco da frente.
— Dirige e fica quieto.
Alice continuou:
— Empresários não sabem tudo. Eles têm equipes.
— Equipes?
— Sim.
— E cadê a nossa?
Alice deu de ombros.
— Hoje somos só nós três.
O carro entrou em uma avenida maior.
O movimento era intenso.
Valente observava tudo.
Cada detalhe.
Cada rosto.
A sensação de estar fora do território dele era estranha.
Ali ele não era ninguém.
Só mais um cara de terno.
Alice virou levemente no banco.
— Escuta.
— Fala.
— Se ele perguntar algo técnico…
— Eu travo.
— Não.
— Travaria.
— Não vai.
— Por quê?
— Porque eu vou responder.
Valente respirou fundo.
— Tá.
Ela continuou:
— Você só precisa parecer confiante.
— Fácil.
— Olha no olho.
— Certo.
— Fala pouco.
— Melhor ainda.
Dioguinho comentou:
— Primeira vez na vida que o Valente vai ganhar dinheiro falando pouco.
Valente pegou uma garrafinha de água e jogou nele.
O carro chegou ao centro comercial da cidade.
Prédios mais modernos.
Empresas.
Restaurantes.
Alice olhou o celular.
— É ali.
Dioguinho estacionou em frente a um prédio comercial.
Vidro espelhado.
Recepção elegante.
Valente ficou olhando alguns segundos.
— Esse lugar é chique demais.
— Melhor — disse Alice. — Ninguém suspeita de gente rica.
Eles saíram do carro.
Valente ajustou o terno.
Alice ajeitou o cabelo.
Dioguinho fechou o carro e sussurrou:
— Lembra… eu sou o motorista.
— Não precisa repetir — disse Alice.
Eles entraram no prédio.
O ar condicionado frio bateu no rosto deles.
A recepção tinha piso de mármore e um balcão enorme.
Uma recepcionista levantou os olhos.
— Bom dia.
Alice sorriu de forma educada.
— Bom dia. Temos uma reunião marcada.
A mulher digitou algo no computador.
— Nome?
Alice respondeu sem hesitar.
— Alice Ribeiro.
Valente observou.
Era impressionante como ela se transformava quando precisava. Até inventou um nome.
Postura.
Tom de voz.
Confiança.
A recepcionista olhou novamente.
— Ah, sim. O senhor Carlos está esperando.
Ela apontou para os elevadores.
— Décimo andar.
Alice agradeceu.
Eles caminharam até o elevador.
Assim que a porta fechou, Dioguinho soltou:
— Caralh0…
Valente riu nervoso.
— Agora já era.
Alice apertou o botão do décimo andar.
— Agora é só manter a calma.
O elevador subiu em silêncio.
Cada andar parecia demorar uma eternidade.
Valente sentia o coração batendo mais forte.
Ele ajeitou os óculos.
— Eu não devia ter vindo.
— Devia sim.
— Eu vou falar alguma merd4.
— Não vai.
— Eu sempre falo.
Alice olhou diretamente para ele.
— Confia em mim.
O elevador fez um “ding”.
Décimo andar.
As portas se abriram.
Um corredor elegante se estendia à frente deles.
No final, uma porta de madeira escura.
Uma placa de metal.
Alice respirou fundo.
— Vamos.
Eles caminharam.
Cada passo ecoava no piso polido.
Valente sentia o peso do momento.
Não era uma briga.
Não era uma fuga.
Não era um confronto.
Era pior.
Era um teatro.
Alice bateu na porta.
Uma voz veio de dentro:
— Pode entrar.
Ela abriu.
O escritório era grande.
Janela enorme com vista para a cidade.
E atrás de uma mesa elegante, um homem de terno cinza os observava.
Olhar atento.
Experiente.
Aquele tipo de olhar que parecia medir as pessoas.
Ele levantou.
— Bom dia.
Alice estendeu a mão.
— Bom dia.
Valente fez o mesmo.
— Prazer.
O homem apertou a mão dele com firmeza.
— Carlos.
Ele olhou para os três.
Depois para Valente novamente.
— Então… vocês estão interessados no imóvel.
O silêncio durou um segundo.
Valente sentiu o olhar de Alice sobre ele.
Era o momento.
Ele respirou fundo.
E respondeu:
— Estamos avaliando algumas oportunidades.
A frase saiu melhor do que ele esperava.
Carlos sorriu levemente.
— Ótimo.
Ele apontou para as cadeiras.
— Sentem-se.
E naquele instante, Valente percebeu uma coisa.
O verdadeiro jogo…
Estava só começando.