Os faróis cresceram na curva como duas luas brancas rasgando a escuridão da estrada.
Valente estava com as mãos no volante do carro, o motor ligado, mas parado no acostamento. O corpo inteiro dele estava tenso, pronto para agir. Ao lado, o motorista que ficaria com o carro depois da interceptação respirava curto, olhando fixamente para frente.
No banco de trás, Dioguinho segurava a arma com as duas mãos.
Os dedos firmes.
O olhar duro.
A adrenalina tinha voltado com força.
No rádio preso ao peito de Valente, a voz de Alice continuava calma.
— Distância?
Valente respondeu sem tirar os olhos da curva.
— Uns duzentos metros.
No bunker, Alice acompanhava o ponto piscando no mapa.
O relógio digital marcava 01:31.
Ela anotou o horário.
— Repete o plano.
Valente respondeu seco:
— Dois carros atravessam.
— Quatro homens descem.
— Motoristas rendidos.
— Caminhões assumidos.
— Conferência rápida da carga.
— Seguimos para ponto de transferência.
Alice assentiu sozinha na cadeira.
— Correto.
Dioguinho murmurou:
— Agora sim.
Os caminhões estavam perto o suficiente para revelar suas silhuetas pesadas.
Altos.
Grandes.
Lentos.
Muito provavelmente carregados até o limite.
Valente respirou fundo.
— Agora.
Os dois carros arrancaram ao mesmo tempo.
Saíram do acostamento e entraram na pista.
Aceleraram.
Os faróis dos caminhões iluminaram os carros de frente.
O primeiro carro atravessou a frente do caminhão líder.
O segundo fez o mesmo com o que vinha atrás.
Freios gritaram novamente na madrugada.
Os caminhões pararam com um solavanco.
Antes mesmo que os motoristas entendessem o que estava acontecendo, as portas dos carros abriram.
Quatro homens saltaram para fora.
Armas erguidas.
Máscaras pretas cobrindo os rostos.
— PARADO! — gritou Valente.
O motorista do primeiro caminhão congelou atrás do volante.
— O que—?
Valente abriu a porta da cabine com um puxão brutal.
— Desce.
O homem ergueu as mãos imediatamente.
— Calma, calma!
Do outro lado da estrada, Dioguinho já estava abrindo a cabine do segundo caminhão.
— Sai do caminhão!
O motorista desceu tropeçando.
— Não atira!
Os dois foram colocados de joelhos na beira da estrada, exatamente como tinha acontecido antes.
A cena parecia uma repetição perfeita.
Mesmo cenário.
Mesma posição.
Mesmo silêncio na estrada.
Mas agora o coração de Valente batia diferente.
Porque agora ele acreditava.
A carga real estava ali.
Ele virou para Dioguinho.
— Confere.
Dioguinho já estava correndo para a traseira do primeiro caminhão.
O metal da trava fez um estalo alto quando ele puxou.
As portas abriram lentamente.
Valente subiu logo atrás dele.
Lá dentro, novamente havia caixas.
Muitas caixas.
Empilhadas até o teto.
Por um segundo, o coração dele caiu.
Caixas brancas.
Com símbolos farmacêuticos.
Exatamente como nos caminhões anteriores.
Dioguinho abriu uma.
Remédios.
Ele abriu outra.
Luvas médicas.
Ele soltou um palavrão.
— Não é possível.
Valente sentiu a mesma frustração voltando como um soco no estômago.
— Porr4…
Ele abriu outra caixa.
Mais remédios.
Dioguinho chutou uma das caixas.
— De novo essa merd4?!
Valente respirou fundo.
Tentando não perder a cabeça.
— Espera.
Ele pegou uma caixa do fundo.
Mais pesada.
Abriu.
Remédios também.
Ele estava prestes a jogar a caixa de lado quando percebeu algo.
O fundo parecia… estranho.
Mais grosso.
Ele virou a caixa.
Passou a mão por dentro.
O dedo encontrou uma pequena borda.
— Diogo.
Dioguinho olhou irritado.
— O quê?
Valente puxou a borda com força.
Um painel falso se soltou.
Revelando um compartimento escondido.
Dentro dele…
Pacotes.
Plásticos.
Selados.
Matéria-prima.
Folhas de coca. Muitas.
Dioguinho arregalou os olhos.
— CARALH0!
Valente puxou um dos pacotes.
Pesado.
Denso.
Exatamente o que eles estavam procurando.
— Fundo falso.
Dioguinho abriu outra caixa.
E outra.
E outra.
Todas com o mesmo truque.
Remédios em cima.
Carga real escondida embaixo.
Ele começou a rir.
— A gente conseguiu!
Valente sentiu um sorriso crescer por baixo da máscara.
A tensão acumulada da noite inteira explodindo em alívio.
— Eu sabia.
Dioguinho deu um soco leve no ombro dele.
— A gente quase desistiu!
Valente desceu do caminhão.
Os dois motoristas ainda estavam ajoelhados na beira da estrada.
Tremendo.
— Pelo amor de Deus… — disse um deles.
— A gente não sabe de nada…
Valente caminhou até eles.
A arma ainda na mão.
Mas agora o humor dele estava completamente diferente.
Ele abaixou um pouco a arma.
— Vocês deram sorte.
Os dois homens olharam para ele sem entender.
— Sorte?
Valente apontou para os caminhões.
— Se essa carga não fosse o que eu precisava…
Ele fez um gesto simples com a mão.
— Vocês não iam sair vivos daqui.
O motorista começou a chorar novamente.
— Obrigado… obrigado…
Dioguinho apareceu carregando cordas.
— Amarra eles.
Os dois foram amarrados rapidamente.
Mãos atrás das costas.
Pernas presas.
Sem chance de reagir.
Depois foram levantados à força.
— Anda.
— Levanta.
— Vamos.
Eles foram levados até a traseira de um dos caminhões.
Mas não o que eles tinham aberto.
Valente abriu o baú do caminhão anterior — aquele que já tinha os dois motoristas presos.
Os homens lá dentro começaram a gritar quando viram a porta abrir.
— Não!
— Por favor!
Valente empurrou os dois novos motoristas para dentro.
— Companhia pra vocês.
Dioguinho deu uma risada curta.
— Fica quietinho aí.
Ele fechou o baú com força.
Trancando os quatro homens lá dentro.
Depois virou para Valente.
— Agora sim.
Valente respirou fundo.
Pegou o rádio.
— Barbie.
A voz dela veio quase instantaneamente.
— Situação?
Valente respondeu com um sorriso na voz.
— Confirmado.
— Carga real.
No bunker, Alice se inclinou na cadeira.
— Quantidade?
— Grande.
— Fundo falso nas caixas.
— Remédio por cima, matéria-prima escondida.
Alice fechou os olhos por um segundo.
Satisfeita.
— Excelente.
Dioguinho entrou na conversa.
— Plano continua.
Alice respondeu:
— Próximo passo.
Valente caminhou até a cabine do primeiro caminhão.
— Assumindo volante.
Dioguinho subiu no segundo.
— Eu levo esse.
Os dois homens que tinham vindo com eles nos carros entraram nos veículos novamente.
Cada um em um.
Prontos para desaparecer da cena.
Valente ligou o motor do caminhão.
O ronco pesado ecoou na estrada silenciosa.
Dioguinho fez o mesmo.
— Partiu.
Os dois carros saíram primeiro.
Voltando para longe dali.
Sumindo na escuridão.
Logo depois, os dois caminhões arrancaram.
Pesados.
Carregados.
Cheios da carga que podia mudar o jogo do morro.
Na estrada, tudo parecia calmo novamente.
No bunker, Alice observava o mapa.
Dois novos pontos se movendo agora. O rastreio do rádio de Valente e Diogo.
— Rota limpa — ela disse.
Valente respondeu pelo rádio:
— Seguindo para o ponto de transferência.
Dioguinho acrescentou:
— Tudo certo até agora.
O vento da madrugada entrava pela janela da cabine enquanto Valente dirigia.
O coração dele ainda batia forte.
Mas agora havia satisfação.
Eles tinham conseguido.
A carga estava nas mãos deles.
E o plano de Alice parecia funcionar perfeitamente.
Naquele momento…
tudo parecia estar correndo exatamente como planejado.