Faróis

1159 Words
Os faróis cresceram na curva como duas luas brancas rasgando a escuridão da estrada. Valente estava com as mãos no volante do carro, o motor ligado, mas parado no acostamento. O corpo inteiro dele estava tenso, pronto para agir. Ao lado, o motorista que ficaria com o carro depois da interceptação respirava curto, olhando fixamente para frente. No banco de trás, Dioguinho segurava a arma com as duas mãos. Os dedos firmes. O olhar duro. A adrenalina tinha voltado com força. No rádio preso ao peito de Valente, a voz de Alice continuava calma. — Distância? Valente respondeu sem tirar os olhos da curva. — Uns duzentos metros. No bunker, Alice acompanhava o ponto piscando no mapa. O relógio digital marcava 01:31. Ela anotou o horário. — Repete o plano. Valente respondeu seco: — Dois carros atravessam. — Quatro homens descem. — Motoristas rendidos. — Caminhões assumidos. — Conferência rápida da carga. — Seguimos para ponto de transferência. Alice assentiu sozinha na cadeira. — Correto. Dioguinho murmurou: — Agora sim. Os caminhões estavam perto o suficiente para revelar suas silhuetas pesadas. Altos. Grandes. Lentos. Muito provavelmente carregados até o limite. Valente respirou fundo. — Agora. Os dois carros arrancaram ao mesmo tempo. Saíram do acostamento e entraram na pista. Aceleraram. Os faróis dos caminhões iluminaram os carros de frente. O primeiro carro atravessou a frente do caminhão líder. O segundo fez o mesmo com o que vinha atrás. Freios gritaram novamente na madrugada. Os caminhões pararam com um solavanco. Antes mesmo que os motoristas entendessem o que estava acontecendo, as portas dos carros abriram. Quatro homens saltaram para fora. Armas erguidas. Máscaras pretas cobrindo os rostos. — PARADO! — gritou Valente. O motorista do primeiro caminhão congelou atrás do volante. — O que—? Valente abriu a porta da cabine com um puxão brutal. — Desce. O homem ergueu as mãos imediatamente. — Calma, calma! Do outro lado da estrada, Dioguinho já estava abrindo a cabine do segundo caminhão. — Sai do caminhão! O motorista desceu tropeçando. — Não atira! Os dois foram colocados de joelhos na beira da estrada, exatamente como tinha acontecido antes. A cena parecia uma repetição perfeita. Mesmo cenário. Mesma posição. Mesmo silêncio na estrada. Mas agora o coração de Valente batia diferente. Porque agora ele acreditava. A carga real estava ali. Ele virou para Dioguinho. — Confere. Dioguinho já estava correndo para a traseira do primeiro caminhão. O metal da trava fez um estalo alto quando ele puxou. As portas abriram lentamente. Valente subiu logo atrás dele. Lá dentro, novamente havia caixas. Muitas caixas. Empilhadas até o teto. Por um segundo, o coração dele caiu. Caixas brancas. Com símbolos farmacêuticos. Exatamente como nos caminhões anteriores. Dioguinho abriu uma. Remédios. Ele abriu outra. Luvas médicas. Ele soltou um palavrão. — Não é possível. Valente sentiu a mesma frustração voltando como um soco no estômago. — Porr4… Ele abriu outra caixa. Mais remédios. Dioguinho chutou uma das caixas. — De novo essa merd4?! Valente respirou fundo. Tentando não perder a cabeça. — Espera. Ele pegou uma caixa do fundo. Mais pesada. Abriu. Remédios também. Ele estava prestes a jogar a caixa de lado quando percebeu algo. O fundo parecia… estranho. Mais grosso. Ele virou a caixa. Passou a mão por dentro. O dedo encontrou uma pequena borda. — Diogo. Dioguinho olhou irritado. — O quê? Valente puxou a borda com força. Um painel falso se soltou. Revelando um compartimento escondido. Dentro dele… Pacotes. Plásticos. Selados. Matéria-prima. Folhas de coca. Muitas. Dioguinho arregalou os olhos. — CARALH0! Valente puxou um dos pacotes. Pesado. Denso. Exatamente o que eles estavam procurando. — Fundo falso. Dioguinho abriu outra caixa. E outra. E outra. Todas com o mesmo truque. Remédios em cima. Carga real escondida embaixo. Ele começou a rir. — A gente conseguiu! Valente sentiu um sorriso crescer por baixo da máscara. A tensão acumulada da noite inteira explodindo em alívio. — Eu sabia. Dioguinho deu um soco leve no ombro dele. — A gente quase desistiu! Valente desceu do caminhão. Os dois motoristas ainda estavam ajoelhados na beira da estrada. Tremendo. — Pelo amor de Deus… — disse um deles. — A gente não sabe de nada… Valente caminhou até eles. A arma ainda na mão. Mas agora o humor dele estava completamente diferente. Ele abaixou um pouco a arma. — Vocês deram sorte. Os dois homens olharam para ele sem entender. — Sorte? Valente apontou para os caminhões. — Se essa carga não fosse o que eu precisava… Ele fez um gesto simples com a mão. — Vocês não iam sair vivos daqui. O motorista começou a chorar novamente. — Obrigado… obrigado… Dioguinho apareceu carregando cordas. — Amarra eles. Os dois foram amarrados rapidamente. Mãos atrás das costas. Pernas presas. Sem chance de reagir. Depois foram levantados à força. — Anda. — Levanta. — Vamos. Eles foram levados até a traseira de um dos caminhões. Mas não o que eles tinham aberto. Valente abriu o baú do caminhão anterior — aquele que já tinha os dois motoristas presos. Os homens lá dentro começaram a gritar quando viram a porta abrir. — Não! — Por favor! Valente empurrou os dois novos motoristas para dentro. — Companhia pra vocês. Dioguinho deu uma risada curta. — Fica quietinho aí. Ele fechou o baú com força. Trancando os quatro homens lá dentro. Depois virou para Valente. — Agora sim. Valente respirou fundo. Pegou o rádio. — Barbie. A voz dela veio quase instantaneamente. — Situação? Valente respondeu com um sorriso na voz. — Confirmado. — Carga real. No bunker, Alice se inclinou na cadeira. — Quantidade? — Grande. — Fundo falso nas caixas. — Remédio por cima, matéria-prima escondida. Alice fechou os olhos por um segundo. Satisfeita. — Excelente. Dioguinho entrou na conversa. — Plano continua. Alice respondeu: — Próximo passo. Valente caminhou até a cabine do primeiro caminhão. — Assumindo volante. Dioguinho subiu no segundo. — Eu levo esse. Os dois homens que tinham vindo com eles nos carros entraram nos veículos novamente. Cada um em um. Prontos para desaparecer da cena. Valente ligou o motor do caminhão. O ronco pesado ecoou na estrada silenciosa. Dioguinho fez o mesmo. — Partiu. Os dois carros saíram primeiro. Voltando para longe dali. Sumindo na escuridão. Logo depois, os dois caminhões arrancaram. Pesados. Carregados. Cheios da carga que podia mudar o jogo do morro. Na estrada, tudo parecia calmo novamente. No bunker, Alice observava o mapa. Dois novos pontos se movendo agora. O rastreio do rádio de Valente e Diogo. — Rota limpa — ela disse. Valente respondeu pelo rádio: — Seguindo para o ponto de transferência. Dioguinho acrescentou: — Tudo certo até agora. O vento da madrugada entrava pela janela da cabine enquanto Valente dirigia. O coração dele ainda batia forte. Mas agora havia satisfação. Eles tinham conseguido. A carga estava nas mãos deles. E o plano de Alice parecia funcionar perfeitamente. Naquele momento… tudo parecia estar correndo exatamente como planejado.
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