O silêncio na estrada ficou pesado depois da descoberta.
As portas traseiras dos caminhões continuavam abertas, revelando fileiras intermináveis de caixas de remédios, soro, equipamentos médicos e embalagens com rótulos farmacêuticos.
Nada daquilo servia para eles.
Nada.
Dioguinho desceu do baú do segundo caminhão com um pulo irritado.
— Não tem nada! — ele repetiu, chutando uma caixa que caiu no asfalto e se abriu, espalhando frascos plásticos.
Valente estava parado ao lado do primeiro caminhão, respirando fundo através da máscara.
O peito subindo e descendo.
Raiva.
Frustração.
Adrenalina que agora não tinha para onde ir.
No rádio preso à cintura dele, a voz de Alice continuava tentando entender.
— Confere de novo — ela disse.
— Não tem erro — respondeu Valente, a voz dura. — Isso aqui é carga de farmácia. Tô falando pra você loirinha!
— Abre todas as fileiras.
— Já abrimos.
— Pode ter compartimento escondido.
Dioguinho respondeu antes dele:
— Não tem!
Ele bateu com a mão na lateral do caminhão.
— Isso aqui é entrega legítima!
Os dois motoristas continuavam ajoelhados na beira da estrada.
Os rostos pálidos.
Suados.
Um deles começou a chorar.
— Pelo amor de Deus… a gente não fez nada.
O outro tremia tanto que m*l conseguia falar.
— A gente só tá trabalhando… por favor…
Valente ignorou por alguns segundos.
Mas o choro começou a irritar.
Ele caminhou até eles.
Devagar.
A arma ainda na mão.
O primeiro motorista levantou os olhos e viu o cano da arma apontado para ele.
— Não… não… por favor…
— Cala a boca — disse Valente.
O homem tentou respirar fundo, mas o desespero era maior.
— Eu tenho família… eu tenho filho…
Dioguinho passou a mão pelo rosto.
— Que merd4.
Valente estava prestes a dizer alguma coisa quando o outro motorista falou, quase sem pensar:
— A gente só precisava entregar as quatro cargas…
Valente parou.
O olhar ficou fixo nele.
— O quê?
O homem engoliu seco.
— As quatro cargas…
Valente se aproximou.
— Repete.
— As… quatro cargas.
O silêncio caiu novamente na estrada.
Dioguinho olhou para Valente.
— Espera…
Valente abaixou o corpo até ficar quase na altura do rosto do motorista.
— Quatro?
— S-sim…
— Você disse quatro caminhões?
O homem tremia tanto que m*l conseguia falar.
— Foi o que mandaram… quatro caminhões… duas entregas…
Valente olhou lentamente para a estrada.
Depois para os dois caminhões parados.
Depois voltou para o homem.
O coração dele começou a bater diferente.
Mais rápido.
Mais forte.
Uma engrenagem girando na cabeça.
— Diogo.
Valente sussurrou.
Dioguinho se aproximou.
— O que foi?
Valente falou devagar e baixo.
— Aqui só tem dois caminhões.
Dioguinho piscou.
Depois olhou ao redor.
— Porr4…
Valente voltou a encarar o motorista.
A arma subiu lentamente até encostar na testa dele.
— Tem mais caminhão vindo?
O homem começou a chorar de verdade agora.
— Tem!
— Quantos?
— Mais dois!
Valente apertou os olhos.
— Quanto tempo?
— Eu não sei!
— Responde direito!
— Eles saíram depois da gente!
O segundo motorista falou também, desesperado:
— Era comboio dividido!
— Dois primeiro… dois depois!
Valente e Dioguinho trocaram um olhar rápido.
Algo começou a fazer sentido.
Dioguinho falou baixo:
— Isso aqui era isca.
Valente assentiu lentamente.
— Disfarce.
No bunker, Alice ouviu tudo pelo rádio.
— Valente?
Ele pegou o rádio novamente.
— Tem mais dois caminhões vindo.
Do outro lado da linha, ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Tem certeza?
— Motoristas falaram agora.
— Comboio dividido.
Alice girou a cadeira devagar.
O cérebro dela trabalhando rápido.
— Então esses eram cobertura.
— Ou distração.
Valente olhou novamente para as caixas.
— Provavelmente.
Alice respirou fundo.
— Então a carga real ainda está na estrada.
— Exato.
A tensão mudou completamente de natureza naquele instante.
Antes era frustração.
Agora era expectativa novamente.
Dioguinho passou a mão na cabeça.
— Caralh0…
— A gente quase desistiu.
Valente virou para os homens.
— Amarra eles.
Os dois capangas imediatamente puxaram cordas do porta-malas.
Os motoristas começaram a implorar.
— Não, por favor…
— A gente não vai falar nada…
— A gente jura!
Valente respondeu frio:
— Eu sei.
Eles foram amarrados rapidamente.
Mãos atrás das costas.
Pernas presas.
Depois levantados à força.
— Levanta.
— Anda.
Os homens foram empurrados até a traseira de um dos caminhões.
Dioguinho abriu o baú novamente.
— Dentro.
— Não!
— Por favor!
Um deles tentou resistir.
Valente empurrou com força.
— Entra.
Eles foram jogados para dentro.
O baú foi fechado com um estrondo.
Valente virou para os dois homens que tinham vindo com eles.
— Tira os carros da estrada.
— E esses caminhões também.
Os dois correram para obedecer.
Os carros foram ligados novamente.
Movidos para fora da pista principal.
Um dos caminhões foi conduzido lentamente até o acostamento largo de terra.
O outro foi colocado mais para dentro de um terreno lateral.
Assim, da estrada, quase não dava para ver nada.
As luzes foram apagadas.
A escuridão voltou a dominar o lugar.
No bunker, Alice acompanhava tudo.
— Quanto tempo até os próximos caminhões?
Valente respondeu:
— Motoristas não sabem.
— Só disseram que saíram depois.
Alice olhou o relógio.
— Então podem estar perto.
O vento voltou a soprar pela estrada.
O silêncio era ainda mais pesado agora.
Todos estavam atentos.
Esperando.
Valente caminhou alguns passos até a beira do asfalto.
Os olhos fixos na curva distante.
O mesmo ponto onde os primeiros caminhões tinham aparecido.
O rádio chiou.
— Posição? — perguntou Alice.
— Mesma.
— Visual limpo?
— Por enquanto.
Dioguinho se aproximou dele.
— Tu acha que vem mesmo?
Valente respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Se os caras falaram a verdade…
— Vem.
Dioguinho respirou fundo.
— Então agora é a carga real.
Valente assentiu.
— Provavelmente.
Alguns minutos passaram.
Longos.
Tensos.
Até que…
Valente estreitou os olhos.
— Espera.
Dioguinho virou imediatamente.
— O quê?
Valente apontou para a curva.
Duas novas luzes surgiram no horizonte.
Depois mais duas.
Faróis altos.
Pesados.
Altos demais para serem carros comuns.
Caminhões.
Dioguinho soltou um sorriso curto por baixo da máscara.
— Agora sim.
Valente sentiu o pulso acelerar.
— Esses são os certos.
No bunker, Alice ouviu a mudança na respiração dele.
— Visual?
Valente respondeu:
— Dois caminhões.
— Aproximando.
Alice se inclinou na cadeira.
— Confirmado então.
Valente olhava fixamente.
Os faróis estavam crescendo.
Iluminando mais da estrada.
Pesados.
Lentos.
Exatamente como caminhões carregados.
Ele murmurou:
— Provavelmente a carga de verdade.
Dioguinho puxou a máscara novamente para ajustar.
— Vamos repetir o show.
Valente virou para os dois homens.
— Preparados?
Eles assentiram.
Armas novamente nas mãos.
Carregadores conferidos.
Corações acelerados.
Valente caminhou até o carro.
— Posição inicial.
Os dois carros foram colocados novamente na estrada.
Prontos para atravessar a frente dos caminhões.
No rádio, Alice falou calmamente:
— Atenção.
— Agora não pode dar errado.
Valente respondeu:
— Agora vai dar certo.
A curva iluminada pelos faróis se aproximava.
Os caminhões estavam quase ali.
E pela segunda vez naquela noite…
a emboscada estava prestes a acontecer.