Iscas

1191 Words
O silêncio na estrada ficou pesado depois da descoberta. As portas traseiras dos caminhões continuavam abertas, revelando fileiras intermináveis de caixas de remédios, soro, equipamentos médicos e embalagens com rótulos farmacêuticos. Nada daquilo servia para eles. Nada. Dioguinho desceu do baú do segundo caminhão com um pulo irritado. — Não tem nada! — ele repetiu, chutando uma caixa que caiu no asfalto e se abriu, espalhando frascos plásticos. Valente estava parado ao lado do primeiro caminhão, respirando fundo através da máscara. O peito subindo e descendo. Raiva. Frustração. Adrenalina que agora não tinha para onde ir. No rádio preso à cintura dele, a voz de Alice continuava tentando entender. — Confere de novo — ela disse. — Não tem erro — respondeu Valente, a voz dura. — Isso aqui é carga de farmácia. Tô falando pra você loirinha! — Abre todas as fileiras. — Já abrimos. — Pode ter compartimento escondido. Dioguinho respondeu antes dele: — Não tem! Ele bateu com a mão na lateral do caminhão. — Isso aqui é entrega legítima! Os dois motoristas continuavam ajoelhados na beira da estrada. Os rostos pálidos. Suados. Um deles começou a chorar. — Pelo amor de Deus… a gente não fez nada. O outro tremia tanto que m*l conseguia falar. — A gente só tá trabalhando… por favor… Valente ignorou por alguns segundos. Mas o choro começou a irritar. Ele caminhou até eles. Devagar. A arma ainda na mão. O primeiro motorista levantou os olhos e viu o cano da arma apontado para ele. — Não… não… por favor… — Cala a boca — disse Valente. O homem tentou respirar fundo, mas o desespero era maior. — Eu tenho família… eu tenho filho… Dioguinho passou a mão pelo rosto. — Que merd4. Valente estava prestes a dizer alguma coisa quando o outro motorista falou, quase sem pensar: — A gente só precisava entregar as quatro cargas… Valente parou. O olhar ficou fixo nele. — O quê? O homem engoliu seco. — As quatro cargas… Valente se aproximou. — Repete. — As… quatro cargas. O silêncio caiu novamente na estrada. Dioguinho olhou para Valente. — Espera… Valente abaixou o corpo até ficar quase na altura do rosto do motorista. — Quatro? — S-sim… — Você disse quatro caminhões? O homem tremia tanto que m*l conseguia falar. — Foi o que mandaram… quatro caminhões… duas entregas… Valente olhou lentamente para a estrada. Depois para os dois caminhões parados. Depois voltou para o homem. O coração dele começou a bater diferente. Mais rápido. Mais forte. Uma engrenagem girando na cabeça. — Diogo. Valente sussurrou. Dioguinho se aproximou. — O que foi? Valente falou devagar e baixo. — Aqui só tem dois caminhões. Dioguinho piscou. Depois olhou ao redor. — Porr4… Valente voltou a encarar o motorista. A arma subiu lentamente até encostar na testa dele. — Tem mais caminhão vindo? O homem começou a chorar de verdade agora. — Tem! — Quantos? — Mais dois! Valente apertou os olhos. — Quanto tempo? — Eu não sei! — Responde direito! — Eles saíram depois da gente! O segundo motorista falou também, desesperado: — Era comboio dividido! — Dois primeiro… dois depois! Valente e Dioguinho trocaram um olhar rápido. Algo começou a fazer sentido. Dioguinho falou baixo: — Isso aqui era isca. Valente assentiu lentamente. — Disfarce. No bunker, Alice ouviu tudo pelo rádio. — Valente? Ele pegou o rádio novamente. — Tem mais dois caminhões vindo. Do outro lado da linha, ela ficou alguns segundos em silêncio. — Tem certeza? — Motoristas falaram agora. — Comboio dividido. Alice girou a cadeira devagar. O cérebro dela trabalhando rápido. — Então esses eram cobertura. — Ou distração. Valente olhou novamente para as caixas. — Provavelmente. Alice respirou fundo. — Então a carga real ainda está na estrada. — Exato. A tensão mudou completamente de natureza naquele instante. Antes era frustração. Agora era expectativa novamente. Dioguinho passou a mão na cabeça. — Caralh0… — A gente quase desistiu. Valente virou para os homens. — Amarra eles. Os dois capangas imediatamente puxaram cordas do porta-malas. Os motoristas começaram a implorar. — Não, por favor… — A gente não vai falar nada… — A gente jura! Valente respondeu frio: — Eu sei. Eles foram amarrados rapidamente. Mãos atrás das costas. Pernas presas. Depois levantados à força. — Levanta. — Anda. Os homens foram empurrados até a traseira de um dos caminhões. Dioguinho abriu o baú novamente. — Dentro. — Não! — Por favor! Um deles tentou resistir. Valente empurrou com força. — Entra. Eles foram jogados para dentro. O baú foi fechado com um estrondo. Valente virou para os dois homens que tinham vindo com eles. — Tira os carros da estrada. — E esses caminhões também. Os dois correram para obedecer. Os carros foram ligados novamente. Movidos para fora da pista principal. Um dos caminhões foi conduzido lentamente até o acostamento largo de terra. O outro foi colocado mais para dentro de um terreno lateral. Assim, da estrada, quase não dava para ver nada. As luzes foram apagadas. A escuridão voltou a dominar o lugar. No bunker, Alice acompanhava tudo. — Quanto tempo até os próximos caminhões? Valente respondeu: — Motoristas não sabem. — Só disseram que saíram depois. Alice olhou o relógio. — Então podem estar perto. O vento voltou a soprar pela estrada. O silêncio era ainda mais pesado agora. Todos estavam atentos. Esperando. Valente caminhou alguns passos até a beira do asfalto. Os olhos fixos na curva distante. O mesmo ponto onde os primeiros caminhões tinham aparecido. O rádio chiou. — Posição? — perguntou Alice. — Mesma. — Visual limpo? — Por enquanto. Dioguinho se aproximou dele. — Tu acha que vem mesmo? Valente respondeu sem tirar os olhos da estrada. — Se os caras falaram a verdade… — Vem. Dioguinho respirou fundo. — Então agora é a carga real. Valente assentiu. — Provavelmente. Alguns minutos passaram. Longos. Tensos. Até que… Valente estreitou os olhos. — Espera. Dioguinho virou imediatamente. — O quê? Valente apontou para a curva. Duas novas luzes surgiram no horizonte. Depois mais duas. Faróis altos. Pesados. Altos demais para serem carros comuns. Caminhões. Dioguinho soltou um sorriso curto por baixo da máscara. — Agora sim. Valente sentiu o pulso acelerar. — Esses são os certos. No bunker, Alice ouviu a mudança na respiração dele. — Visual? Valente respondeu: — Dois caminhões. — Aproximando. Alice se inclinou na cadeira. — Confirmado então. Valente olhava fixamente. Os faróis estavam crescendo. Iluminando mais da estrada. Pesados. Lentos. Exatamente como caminhões carregados. Ele murmurou: — Provavelmente a carga de verdade. Dioguinho puxou a máscara novamente para ajustar. — Vamos repetir o show. Valente virou para os dois homens. — Preparados? Eles assentiram. Armas novamente nas mãos. Carregadores conferidos. Corações acelerados. Valente caminhou até o carro. — Posição inicial. Os dois carros foram colocados novamente na estrada. Prontos para atravessar a frente dos caminhões. No rádio, Alice falou calmamente: — Atenção. — Agora não pode dar errado. Valente respondeu: — Agora vai dar certo. A curva iluminada pelos faróis se aproximava. Os caminhões estavam quase ali. E pela segunda vez naquela noite… a emboscada estava prestes a acontecer.
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