O bunker parecia um campo de batalha depois de horas de trabalho.
Caixas abertas.
Plásticos rasgados.
Pilhas organizadas de um lado.
Outras pilhas muito maiores do outro.
Mas agora, finalmente, tudo estava separado.
Alice havia organizado o espaço como se fosse um depósito profissional.
Do lado direito do bunker estavam as caixas com a quantidade exata de matéria-prima que eles precisariam para produzir mercadoria suficiente para gerar o um milhão que Tubarão exigia.
Do lado esquerdo…
Bem.
Do lado esquerdo estava praticamente todo o resto do bunker.
Valente estava encostado numa coluna de concreto, respirando devagar.
O corpo inteiro doía.
A pancadaria que tinha levado mais cedo agora começava a cobrar o preço.
Cada respiração lembrava as costelas.
Cada movimento puxava algum músculo machucado.
Mas ele estava ignorando.
Havia coisa mais importante para resolver.
Dioguinho estava sentado em cima de uma caixa, olhando para o que tinha sobrado.
— Cara…
Ele passou a mão pela cabeça.
— Eu nunca imaginei que tinha tudo isso aqui dentro.
Alice fechou o caderno devagar.
— Agora vocês sabem.
Valente olhou para a pilha que eles tinham separado.
— Então…
— Isso aqui gera o milhão?
Alice assentiu.
— Com margem.
Dioguinho ergueu a cabeça.
— Margem?
Ela explicou:
— Eu calculei considerando perda de processo, variação de qualidade e tempo de venda.
Valente soltou um pequeno riso.
— Você fala como se isso fosse uma empresa normal.
Alice respondeu imediatamente:
— Porque é.
Ela apontou para o bunker.
— Só que uma empresa muito m*l organizada.
Dioguinho riu.
— Era m*l organizada.
Alice levantou uma sobrancelha.
— Ainda é.
Ela se levantou da mesa improvisada.
Caminhou até a pilha gigantesca que tinha sobrado.
E colocou a mão sobre uma das caixas.
— Isso aqui…
Ela olhou para os dois.
— É um problema.
Valente concordou.
— Grande.
Dioguinho murmurou:
— Gigante.
Alice virou para eles.
— A gente precisa tirar isso daqui.
Valente cruzou os braços.
— Sim.
— Mas ainda não sabemos pra onde.
Alice assentiu.
— Vamos descobrir.
Ela caminhou até uma mochila que estava encostada numa cadeira.
Abriu.
De dentro tirou um notebook.
Valente levantou uma sobrancelha.
— Você trouxe seu computador pro bunker?
Alice respondeu enquanto colocava o notebook na mesa.
— Sempre.
Dioguinho riu.
— Essa mulher anda preparada pra tudo.
Ela abriu o aparelho.
A tela iluminou o rosto dela no bunker ainda meio escuro.
— Eu controlo o caixa por aqui.
Valente se aproximou.
— Caixa?
Ela digitou a senha.
Algumas planilhas apareceram na tela.
— Tudo que entra.
— Tudo que sai.
— Pagamentos.
— Custos.
— Distribuição.
Dioguinho olhou.
— Você fez isso quando?
Alice respondeu:
— Enquanto vocês dormiam todos esses dias.
Valente soltou um pequeno riso.
— Claro.
Alice começou a mexer nas planilhas.
Números apareciam.
Gráficos.
Entradas.
Saídas.
Ela clicou em uma aba.
Depois em outra.
Alguns segundos se passaram.
Então ela parou.
— Certo.
Valente perguntou:
— O quê?
Alice virou a tela um pouco na direção deles.
— Esse é o caixa real de vocês.
Valente olhou.
— E?
Ela respondeu:
— Vocês têm cinquenta mil.
Silêncio.
Dioguinho piscou.
— Cinquenta mil?
— Só?
Alice assentiu.
— Só.
Valente franziu a testa.
— Não é possível.
Alice explicou:
— Muito dinheiro entrou.
— Mas muito também saiu.
Ela começou a apontar na tela.
— Pagamento de pessoal.
— Compra de matéria-prima.
— Transporte.
— Armas.
— Segurança.
Dioguinho murmurou:
— Nunca pensei nisso desse jeito.
Alice virou para eles.
— Negócios custam dinheiro.
Valente cruzou os braços.
— Mas cinquenta mil não resolve nada.
Ela respondeu:
— Resolve uma coisa.
Ele esperou.
Alice falou:
— O começo.
Dioguinho perguntou:
— Começo do quê?
Alice fechou uma planilha e abriu o navegador.
— Da solução do nosso problema.
Valente inclinou a cabeça.
— Explica.
Ela começou a digitar.
— A gente precisa tirar aquela montanha de matéria-prima daqui.
Ela apontou para as pilhas.
— Certo?
Valente assentiu.
— Certo.
— Mas não pode ir pra qualquer lugar.
Alice continuou digitando.
— Precisa ser um lugar onde ninguém estranhe entrar mercadoria.
Dioguinho respondeu:
— Tipo depósito.
Alice assentiu.
— Exatamente.
Ela abriu alguns sites.
— E precisa ser um lugar que possamos controlar.
Valente perguntou:
— Comprar?
Alice balançou a cabeça.
— Não.
— Comprar chama atenção.
Ela clicou em outro anúncio.
— Alugar.
Dioguinho cruzou os braços.
— E o nome de quem?
Alice respondeu:
— De uma empresa.
Valente franziu a testa.
— Que empresa?
Ela olhou para ele.
— Uma empresa laranja.
Silêncio.
Dioguinho abriu um sorriso lento.
— Gostei, isso é coisa de filme.
Alice continuou:
— Algo simples.
— Uma fachada pronta.
— Um CNPJ qualquer.
— Um negócio que possa receber carga sem levantar suspeita.
Valente estava entendendo agora.
— Tipo depósito de alimentos…
Alice respondeu:
— Ou armazém.
— Ou distribuidora.
— Ou fábrica pequena.
Ela continuava navegando pelos anúncios.
— Algo que já tenha estrutura.
Dioguinho se aproximou mais da mesa.
— E com acesso pra caminhão.
Alice assentiu.
— Exatamente.
Ela abriu outro anúncio.
Fotos apareceram.
Um galpão.
Portão grande.
Pátio.
Valente se inclinou.
— Onde é isso?
Alice leu.
— Área industrial.
— Uns vinte minutos daqui.
Dioguinho comentou:
— Não é r**m.
Alice continuou procurando.
— Mas vamos ver mais opções.
Ela abriu outro anúncio.
Esse tinha fotos de um galpão maior.
Estrutura metálica.
Portão alto.
Área de carga.
Valente olhou melhor.
— Esse aqui parece melhor.
Alice leu a descrição.
— Antiga empresa de distribuição de bebidas.
Dioguinho sorriu.
— Perfeito.
Alice continuou lendo.
— Está fechado há alguns meses.
— Proprietário quer alugar rápido.
Valente perguntou:
— Preço?
Alice rolou a página.
— Cinco mil por mês.
Dioguinho arregalou os olhos.
— Só?
Alice respondeu:
— Ele quer alguém ocupando.
Valente pensou alguns segundos.
— Isso cabe no caixa.
Alice assentiu.
— Cabe.
Ela abriu as fotos novamente.
— Tem portão grande.
— Área interna ampla.
— Escritório pequeno.
— E ninguém mora perto.
Dioguinho murmurou:
— Isso é bom.
Valente estava olhando as imagens com atenção.
— Caminhão entra fácil.
Alice respondeu:
— Sim.
Ela virou o notebook um pouco mais para ele.
— E olha isso.
Valente olhou.
Uma foto do interior.
Um galpão enorme.
Vazio.
Ecoando.
— Cabe tudo.
Dioguinho riu.
— E ainda sobra espaço.
Alice fechou o anúncio por um momento.
— A pergunta é…
Ela olhou para os dois.
— Vocês estão dispostos a dar esse passo?
Valente respondeu sem hesitar.
— Se for pra sair dessa merd4 com o Tubarão…
Ele deu de ombros.
— Eu faço.
Dioguinho também assentiu.
— Eu topo.
Alice voltou a abrir o anúncio.
— Então vamos ver os detalhes.
Ela começou a anotar algumas coisas no caderno.
Endereço.
Telefone.
Valor.
Condições.
Valente perguntou:
— E a empresa?
Alice respondeu:
— A gente cria uma.
Dioguinho riu.
— Assim?
Ela respondeu:
— Assim.
Valente cruzou os braços.
— Você sabe fazer isso?
Alice levantou os olhos do notebook.
— Sei.
E um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.
Um sorriso que Valente já estava começando a reconhecer.
O sorriso de quando ela via um problema…
E já tinha metade da solução na cabeça.