Contagem

1353 Words
O bunker voltou ao ritmo de trabalho. Mas agora o clima era completamente diferente. Antes havia certa curiosidade, até empolgação. Alice organizando tudo, Dioguinho reclamando de contar caixa por caixa, Valente observando aquilo como se estivesse vendo o próprio negócio com novos olhos. Agora não. Agora havia urgência. Uma urgência pesada que parecia estar grudada nas paredes de concreto do bunker. Valente ainda sentia a dor pulsando nas costelas cada vez que respirava fundo, mas ignorava completamente. O rosto ainda estava inchado, o lábio cortado já tinha secado, deixando uma linha escura no canto da boca. Dioguinho tinha arrastado várias caixas para o centro do bunker. Alice estava de novo sentada à mesa improvisada. Caderno aberto. Calculadora. Caneta na mão. Mas agora a velocidade com que ela escrevia era outra. — Próxima caixa — ela disse sem levantar os olhos. Valente rasgou o plástico grosso que envolvia a embalagem. Dentro estavam os pacotes prensados de folha de coca. Matéria-prima. A base de tudo. Ele começou a contar. — Um… dois… três… Dioguinho já estava em outra pilha. — Aqui tem cinquenta. Alice anotou rapidamente. — Caixa 31… cinquenta pacotes. Ela virou a página do caderno. — Próxima. E assim começou. Um ritmo quase mecânico. Abrir caixa. Contar. Anotar. Abrir outra. Contar. Anotar. As horas foram passando. O bunker começou a encher de pilhas organizadas. De um lado as caixas já contadas. Do outro as que ainda faltavam. Valente passou a mão na testa. — Cara… Ele olhou ao redor. — Eu não tinha noção de quanto tinha aqui. Dioguinho riu sem humor. — Nem eu. Alice respondeu enquanto anotava. — Isso é bom. Valente levantou uma sobrancelha. — Bom? Ela levantou o olhar pela primeira vez em alguns minutos. — Muito bom. Ela virou o caderno na direção deles. Números. Colunas. Quantidades. Estimativas. — Vocês estão sentados numa produção gigantesca. Dioguinho pegou uma garrafa de água. — Então por que parece que a gente tá ferrad0? Alice respondeu calmamente: — Porque o problema não é produção. Ela fechou o caderno por um segundo. — É logística. Valente voltou a abrir outra caixa. — E tempo. Alice assentiu. — Principalmente tempo. Eles continuaram. O trabalho virou madrugada novamente. O som constante de caixas sendo abertas ecoava pelo bunker. Às vezes alguém soltava um suspiro. Às vezes Dioguinho reclamava. — Eu nunca contei tanta coisa na vida. Valente respondeu: — Nem quando eu era moleque e ajudava no mercado do meu tio. Alice apenas dizia: — Próxima caixa. E o trabalho seguia. O relógio passou da meia-noite. Depois duas da manhã. Depois quatro. Quando o céu lá fora começou a clarear novamente, eles estavam exaustos. Mas também estavam perto do fim. Dioguinho abriu a última caixa da pilha. — Essa é a última. Valente encostou na mesa. — Graças a Deus. Alice se levantou. Pegou o último número. Anotou. Fechou o caderno. Ficou alguns segundos olhando para os cálculos. Depois respirou fundo. — Certo. Valente cruzou os braços. — Então? Ela levantou os olhos. — Temos muita coisa. Dioguinho riu. — Isso a gente já sabia. Alice virou o caderno novamente para eles. — Mais do que eu imaginava. Valente olhou os números. Mesmo sem entender todos os cálculos, dava para perceber uma coisa. Era muita matéria-prima. Muita. Ele passou a mão no queixo. — Isso dá pra produzir quanto? Alice respondeu: — Muito mais do que precisamos agora. Dioguinho franziu a testa. — Agora? Ela assentiu. — Lembra do nosso problema? Valente respondeu imediatamente. — Um milhão limpo. Alice apontou para as pilhas. — Então a primeira coisa que precisamos fazer… Ela fez uma pausa. — É não produzir tudo isso. Dioguinho piscou. — Como assim? Alice começou a andar entre as caixas. — Pensem comigo. Ela apontou ao redor. — Se vocês começarem a produzir tudo isso agora… Ela abriu os braços. — Vai ter gente entrando e saindo daqui. — Trabalhadores. — Transporte. — Distribuição. Ela parou diante deles. — Quanto mais gente souber disso… Ela deu de ombros. — Mais perigoso fica. Valente assentiu lentamente. — Faz sentido. Dioguinho também. — Então o que fazemos? Alice respondeu: — Produzimos só o necessário. Valente perguntou: — Necessário pra quê? Ela respondeu: — Para gerar um milhão. Silêncio. Dioguinho apoiou as mãos na mesa. — Certo. — E quanto é isso? Alice pegou a calculadora. Sentou novamente. Abriu o caderno. Começou a fazer contas. O bunker ficou em silêncio. Apenas o som da calculadora. Cliques rápidos. Ela murmurava alguns números para si mesma. — Produção média… — Conversão… — Perda de processo… Valente observava. Era estranho ver alguém tratando aquele negócio com matemática. Dioguinho cochichou: — Parece cientista. Valente respondeu: — Parece contadora. Depois de alguns minutos, Alice levantou o olhar. — Ok. Valente perguntou: — E aí? Ela virou o caderno. — Para gerar um milhão em produto final… Ela apontou um número. — Precisamos produzir aproximadamente isso aqui. Dioguinho se inclinou para ver. — Só isso? Alice assentiu. — Só. Valente olhou ao redor do bunker novamente. Depois voltou a olhar para o número. — Então… Ele abriu os braços. — Isso aqui tudo… Alice completou: — É excesso, que a gente vai trabalhar pra juntar os vinte que precisamos. Dioguinho assobiou. — Muito excesso. Alice fechou o caderno. — O que é ótimo. Valente perguntou: — Por quê? Ela respondeu: — Porque significa que vocês têm estoque para meses. Depois o olhar dela ficou mais sério. — Mas também significa um problema. Dioguinho já imaginava. — Onde esconder. Ela assentiu. — Exatamente. Valente olhou ao redor do bunker. Pela primeira vez desde que tinham terminado a contagem, ele começou a enxergar o lugar de outra forma. Não como um esconderijo. Mas como um risco. Alice continuou: — Se vamos trazer trabalhadores para produzir… — Eles vão ver isso. Ela apontou as pilhas gigantes. — Tudo. Dioguinho murmurou: — E boca de trabalhador fala. Alice assentiu. — Muito. Valente passou a mão no rosto. — Então o que você sugere? Alice respondeu: — Tirar daqui. Os dois olharam para ela. — Tudo isso? Ela assentiu. — A maior parte. Valente perguntou: — E colocar onde? Alice cruzou os braços. — Em algum lugar onde ninguém suspeite. Dioguinho começou a andar pelo bunker. — Isso aqui são toneladas, você sabe, precisamos de 10 caras pra transferir e guardar aqui. — Não dá pra enfiar debaixo da cama. Valente também pensava. — E não pode ser aqui no morro, se uma guerra estourar ou a polícia cair aqui pra dentro, o risco é grande de acharem isso. Alice concordou. — Não pode ser aqui dentro do morro. Ela falou devagar: — Precisa ser fora daqui. Os três ficaram em silêncio. O bunker parecia ainda maior agora. As caixas empilhadas. A matéria-prima. O dinheiro potencial. Mas também o perigo. Alice finalmente falou: — Primeiro a gente separa o que precisa para produzir o milhão. Ela apontou uma pilha. — Isso fica aqui. Depois apontou para todo o resto. — O restante… Ela respirou fundo. — A gente precisa tirar daqui antes de começar qualquer produção. Valente perguntou: — Quanto é “o restante”? Alice olhou novamente para o caderno. Depois para as pilhas gigantes. — Muito. Dioguinho murmurou: — Tipo… muito mesmo? Ela respondeu: — Tipo caminhão né. O silêncio voltou. Valente soltou um pequeno riso nervoso. — Ótimo. — Além de lavar dinheiro… Ele apontou ao redor. — Agora a gente precisa esconder uma montanha de matéria-prima. Alice respondeu com calma: — Bem-vindo à gestão de crise. Dioguinho resmungou: — Eu preferia quando a gente só vendia e pronto. Alice pegou a caneta novamente. — Então vamos começar. Valente perguntou: — Com o quê? Ela respondeu: — Separando o necessário. Ela apontou para as caixas. — Porque quanto antes a gente souber exatamente o que vai ficar aqui… O olhar dela ficou mais sério. — Mais rápido podemos tirar o resto daqui. Valente respirou fundo. A dor nas costelas voltou. Mas ele ignorou. — Então vamos trabalhar. Dioguinho abriu outra pilha. — De novo. Alice sorriu de leve. — De novo.
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