O bunker voltou ao ritmo de trabalho.
Mas agora o clima era completamente diferente.
Antes havia certa curiosidade, até empolgação. Alice organizando tudo, Dioguinho reclamando de contar caixa por caixa, Valente observando aquilo como se estivesse vendo o próprio negócio com novos olhos.
Agora não.
Agora havia urgência.
Uma urgência pesada que parecia estar grudada nas paredes de concreto do bunker.
Valente ainda sentia a dor pulsando nas costelas cada vez que respirava fundo, mas ignorava completamente. O rosto ainda estava inchado, o lábio cortado já tinha secado, deixando uma linha escura no canto da boca.
Dioguinho tinha arrastado várias caixas para o centro do bunker.
Alice estava de novo sentada à mesa improvisada.
Caderno aberto.
Calculadora.
Caneta na mão.
Mas agora a velocidade com que ela escrevia era outra.
— Próxima caixa — ela disse sem levantar os olhos.
Valente rasgou o plástico grosso que envolvia a embalagem.
Dentro estavam os pacotes prensados de folha de coca.
Matéria-prima.
A base de tudo.
Ele começou a contar.
— Um… dois… três…
Dioguinho já estava em outra pilha.
— Aqui tem cinquenta.
Alice anotou rapidamente.
— Caixa 31… cinquenta pacotes.
Ela virou a página do caderno.
— Próxima.
E assim começou.
Um ritmo quase mecânico.
Abrir caixa.
Contar.
Anotar.
Abrir outra.
Contar.
Anotar.
As horas foram passando.
O bunker começou a encher de pilhas organizadas.
De um lado as caixas já contadas.
Do outro as que ainda faltavam.
Valente passou a mão na testa.
— Cara…
Ele olhou ao redor.
— Eu não tinha noção de quanto tinha aqui.
Dioguinho riu sem humor.
— Nem eu.
Alice respondeu enquanto anotava.
— Isso é bom.
Valente levantou uma sobrancelha.
— Bom?
Ela levantou o olhar pela primeira vez em alguns minutos.
— Muito bom.
Ela virou o caderno na direção deles.
Números.
Colunas.
Quantidades.
Estimativas.
— Vocês estão sentados numa produção gigantesca.
Dioguinho pegou uma garrafa de água.
— Então por que parece que a gente tá ferrad0?
Alice respondeu calmamente:
— Porque o problema não é produção.
Ela fechou o caderno por um segundo.
— É logística.
Valente voltou a abrir outra caixa.
— E tempo.
Alice assentiu.
— Principalmente tempo.
Eles continuaram.
O trabalho virou madrugada novamente.
O som constante de caixas sendo abertas ecoava pelo bunker.
Às vezes alguém soltava um suspiro.
Às vezes Dioguinho reclamava.
— Eu nunca contei tanta coisa na vida.
Valente respondeu:
— Nem quando eu era moleque e ajudava no mercado do meu tio.
Alice apenas dizia:
— Próxima caixa.
E o trabalho seguia.
O relógio passou da meia-noite.
Depois duas da manhã.
Depois quatro.
Quando o céu lá fora começou a clarear novamente, eles estavam exaustos.
Mas também estavam perto do fim.
Dioguinho abriu a última caixa da pilha.
— Essa é a última.
Valente encostou na mesa.
— Graças a Deus.
Alice se levantou.
Pegou o último número.
Anotou.
Fechou o caderno.
Ficou alguns segundos olhando para os cálculos.
Depois respirou fundo.
— Certo.
Valente cruzou os braços.
— Então?
Ela levantou os olhos.
— Temos muita coisa.
Dioguinho riu.
— Isso a gente já sabia.
Alice virou o caderno novamente para eles.
— Mais do que eu imaginava.
Valente olhou os números.
Mesmo sem entender todos os cálculos, dava para perceber uma coisa.
Era muita matéria-prima.
Muita.
Ele passou a mão no queixo.
— Isso dá pra produzir quanto?
Alice respondeu:
— Muito mais do que precisamos agora.
Dioguinho franziu a testa.
— Agora?
Ela assentiu.
— Lembra do nosso problema?
Valente respondeu imediatamente.
— Um milhão limpo.
Alice apontou para as pilhas.
— Então a primeira coisa que precisamos fazer…
Ela fez uma pausa.
— É não produzir tudo isso.
Dioguinho piscou.
— Como assim?
Alice começou a andar entre as caixas.
— Pensem comigo.
Ela apontou ao redor.
— Se vocês começarem a produzir tudo isso agora…
Ela abriu os braços.
— Vai ter gente entrando e saindo daqui.
— Trabalhadores.
— Transporte.
— Distribuição.
Ela parou diante deles.
— Quanto mais gente souber disso…
Ela deu de ombros.
— Mais perigoso fica.
Valente assentiu lentamente.
— Faz sentido.
Dioguinho também.
— Então o que fazemos?
Alice respondeu:
— Produzimos só o necessário.
Valente perguntou:
— Necessário pra quê?
Ela respondeu:
— Para gerar um milhão.
Silêncio.
Dioguinho apoiou as mãos na mesa.
— Certo.
— E quanto é isso?
Alice pegou a calculadora.
Sentou novamente.
Abriu o caderno.
Começou a fazer contas.
O bunker ficou em silêncio.
Apenas o som da calculadora.
Cliques rápidos.
Ela murmurava alguns números para si mesma.
— Produção média…
— Conversão…
— Perda de processo…
Valente observava.
Era estranho ver alguém tratando aquele negócio com matemática.
Dioguinho cochichou:
— Parece cientista.
Valente respondeu:
— Parece contadora.
Depois de alguns minutos, Alice levantou o olhar.
— Ok.
Valente perguntou:
— E aí?
Ela virou o caderno.
— Para gerar um milhão em produto final…
Ela apontou um número.
— Precisamos produzir aproximadamente isso aqui.
Dioguinho se inclinou para ver.
— Só isso?
Alice assentiu.
— Só.
Valente olhou ao redor do bunker novamente.
Depois voltou a olhar para o número.
— Então…
Ele abriu os braços.
— Isso aqui tudo…
Alice completou:
— É excesso, que a gente vai trabalhar pra juntar os vinte que precisamos.
Dioguinho assobiou.
— Muito excesso.
Alice fechou o caderno.
— O que é ótimo.
Valente perguntou:
— Por quê?
Ela respondeu:
— Porque significa que vocês têm estoque para meses.
Depois o olhar dela ficou mais sério.
— Mas também significa um problema.
Dioguinho já imaginava.
— Onde esconder.
Ela assentiu.
— Exatamente.
Valente olhou ao redor do bunker.
Pela primeira vez desde que tinham terminado a contagem, ele começou a enxergar o lugar de outra forma.
Não como um esconderijo.
Mas como um risco.
Alice continuou:
— Se vamos trazer trabalhadores para produzir…
— Eles vão ver isso.
Ela apontou as pilhas gigantes.
— Tudo.
Dioguinho murmurou:
— E boca de trabalhador fala.
Alice assentiu.
— Muito.
Valente passou a mão no rosto.
— Então o que você sugere?
Alice respondeu:
— Tirar daqui.
Os dois olharam para ela.
— Tudo isso?
Ela assentiu.
— A maior parte.
Valente perguntou:
— E colocar onde?
Alice cruzou os braços.
— Em algum lugar onde ninguém suspeite.
Dioguinho começou a andar pelo bunker.
— Isso aqui são toneladas, você sabe, precisamos de 10 caras pra transferir e guardar aqui.
— Não dá pra enfiar debaixo da cama.
Valente também pensava.
— E não pode ser aqui no morro, se uma guerra estourar ou a polícia cair aqui pra dentro, o risco é grande de acharem isso.
Alice concordou.
— Não pode ser aqui dentro do morro.
Ela falou devagar:
— Precisa ser fora daqui.
Os três ficaram em silêncio.
O bunker parecia ainda maior agora.
As caixas empilhadas.
A matéria-prima.
O dinheiro potencial.
Mas também o perigo.
Alice finalmente falou:
— Primeiro a gente separa o que precisa para produzir o milhão.
Ela apontou uma pilha.
— Isso fica aqui.
Depois apontou para todo o resto.
— O restante…
Ela respirou fundo.
— A gente precisa tirar daqui antes de começar qualquer produção.
Valente perguntou:
— Quanto é “o restante”?
Alice olhou novamente para o caderno.
Depois para as pilhas gigantes.
— Muito.
Dioguinho murmurou:
— Tipo… muito mesmo?
Ela respondeu:
— Tipo caminhão né.
O silêncio voltou.
Valente soltou um pequeno riso nervoso.
— Ótimo.
— Além de lavar dinheiro…
Ele apontou ao redor.
— Agora a gente precisa esconder uma montanha de matéria-prima.
Alice respondeu com calma:
— Bem-vindo à gestão de crise.
Dioguinho resmungou:
— Eu preferia quando a gente só vendia e pronto.
Alice pegou a caneta novamente.
— Então vamos começar.
Valente perguntou:
— Com o quê?
Ela respondeu:
— Separando o necessário.
Ela apontou para as caixas.
— Porque quanto antes a gente souber exatamente o que vai ficar aqui…
O olhar dela ficou mais sério.
— Mais rápido podemos tirar o resto daqui.
Valente respirou fundo.
A dor nas costelas voltou.
Mas ele ignorou.
— Então vamos trabalhar.
Dioguinho abriu outra pilha.
— De novo.
Alice sorriu de leve.
— De novo.