Valente demorou alguns segundos para conseguir respirar direito.
Ele ainda estava no chão.
A terra seca grudava na palma da mão enquanto ele apoiava o corpo para se levantar.
A cabeça girava um pouco.
Não era a pior surra que ele já tinha levado na vida — longe disso — mas os golpes tinham sido dados com intenção suficiente para deixar claro o recado.
Lentamente ele passou a língua pelos dentes.
Sangue.
O gosto metálico espalhado pela boca.
Ele cuspiu no chão.
Um filete vermelho manchou a terra.
— Filho da p**a…
A voz saiu baixa, rouca.
Ele levou a mão até a lateral do rosto.
O maxilar doía.
O lábio estava aberto.
Uma dor mais forte pulsava nas costelas, lembrando cada chute que tinha levado.
Mas ele já tinha apanhado mais feio.
Muito mais.
O que pesava de verdade não era a dor física.
Era o que tinha sido dito.
O recado.
O prazo.
Uma semana.
Um milhão limpo.
Ele passou a mão pelo rosto novamente e soltou um suspiro pesado.
— Merda…
Por alguns segundos ele apenas ficou ali parado.
Pensando.
O nome Tubarão ecoava dentro da cabeça dele.
Não era um apelido qualquer.
Não era um cara qualquer.
Era o tipo de nome que fazia gente grande baixar a voz.
O tipo de homem que ninguém queria ter contra.
Valente já sabia disso há muito tempo.
Desde antes mesmo de subir no morro.
Desde antes de comandar qualquer coisa.
E agora estava ali.
No meio daquela tempestade.
Ele levantou devagar.
O corpo protestou.
A dor nas costelas fez ele fechar os olhos por um segundo.
Mas ele ignorou.
Primeiro passou a mão na camisa.
Depois pegou o boné que tinha caído no chão.
Sacudiu a poeira.
Virou novamente para trás na cabeça.
Respirou fundo.
E então olhou para a porta do bunker.
Lá dentro estavam Alice e Dioguinho.
Esperando.
Provavelmente já preocupados.
Ele sabia que não podia demorar mais.
Caminhou até a porta.
Cada passo pesado.
Abriu.
Entrou.
E fechou novamente.
Girou a chave.
Trancou.
O som metálico ecoou no espaço.
Lá embaixo, dentro do bunker, Alice e Dioguinho imediatamente levantaram a cabeça.
Alice foi a primeira a reagir.
— Valente?
Ela deu dois passos na direção das escadas.
Quando ele começou a descer, ela parou no meio do caminho.
E o rosto dela mudou na mesma hora.
— Meu Deus…
Dioguinho também levantou.
— Que p***a aconteceu?
Valente desceu os últimos degraus devagar.
A luz do bunker agora iluminava melhor o rosto dele.
O lábio cortado.
O sangue seco.
A marca roxa começando a aparecer na mandíbula.
Alice levou a mão à boca.
— Quem fez isso?
Dioguinho já estava irritado.
— Quem foi? A gente tem que resolver essa parada.
Valente chegou no chão do bunker.
Respirou fundo.
— Nada demais.
Alice imediatamente reagiu.
— Nada demais?
Ela apontou para o rosto dele.
— Você tá sangrando.
Valente pegou um pano que estava sobre a mesa e limpou o canto da boca.
— Já passou.
Dioguinho deu dois passos para frente.
— Quem eram os caras?
Valente não respondeu imediatamente.
Ele caminhou até uma caixa e se sentou nela.
Passou a mão pelo rosto novamente.
Tentando organizar os pensamentos.
Alice se aproximou.
— Valente.
A voz dela agora era mais baixa.
Mais séria.
— O que aconteceu?
Ele levantou os olhos.
Olhou primeiro para Dioguinho.
Depois para Alice.
Dioguinho já tinha entendido que aquilo não era só uma briga qualquer.
Ele conhecia Valente tempo suficiente para perceber que se fosse um qualquer, Valente tinha metido bala sem pensar duas vezes.
— Fala logo.
Valente suspirou.
— Eram três caras.
Alice cruzou os braços.
— Mas quem?
Silêncio.
Por alguns segundos ele ficou olhando para o chão.
Depois falou.
— Vieram dar um recado.
Dioguinho franziu a testa.
— Recado de quem?
Valente levantou o olhar.
— Do Tubarão.
O efeito foi imediato.
Dioguinho congelou.
— …Que?
Alice olhou de um para o outro.
— Quem é Tubarão?
Os dois homens ficaram em silêncio por um instante.
Valente passou a mão pelo rosto.
— Depois eu explico.
Dioguinho parecia mais tenso agora.
— O que ele quer?
Valente soltou um riso curto.
Sem humor.
— Dinheiro.
Alice falou:
— Normal.
— A gente tá cercado de dinheiro, mas o que ele tem a ver com o seu dinheiro?
Valente balançou a cabeça devagar.
— Não desse tipo. Eu devo pra ele.
Dioguinho estreitou os olhos.
— Quanto?
Valente demorou um segundo antes de responder.
— Um milhão.
Alice franziu a testa.
— Só isso?
— Isso a gente consegue.
Valente levantou o olhar para ela.
— Em uma semana.
O bunker ficou em silêncio.
Dioguinho passou a mão pela nuca.
— Porr4…
Alice ainda parecia confusa.
— Mas por quê?
Valente respirou fundo.
Sabia que não podia esconder tudo.
Mas também não podia contar tudo.
Não ainda.
Ele se levantou da caixa.
— Eu preciso explicar uma coisa pra vocês.
Alice e Dioguinho ficaram olhando.
Valente continuou.
— Aqueles vinte milhões…
Ele apontou vagamente para o bunker.
— Que o contador roubou.
Alice assentiu.
— Sim.
— O dinheiro do morro.
Valente respondeu devagar.
— Não era só do morro.
O silêncio ficou mais pesado.
Dioguinho já sabia.
Mas Alice não.
Ela piscou algumas vezes.
— Como assim?
Valente apoiou as mãos nos joelhos.
— Era dinheiro de parceria.
Alice franziu a testa.
— Parceria com quem?
Valente respondeu:
— Gente grande.
Ela esperou mais.
Ele continuou.
— O Tubarão era um deles.
Alice absorveu a informação lentamente.
— Então…
— O dinheiro que foi roubado…
Valente completou:
— Também era dele. Ele tinha investido uma grana grande pra subir a produção, tinha sido a maior, com a grana que ele colocou, em duas semanas a gente levantou os vinte milhões, mas o contador sumiu.
O ar no bunker pareceu ficar mais denso.
Dioguinho soltou um suspiro pesado.
— Eu sabia que isso ia dar merd4.
Alice olhou para os dois.
— Espera.
— Vocês sabiam disso?
Dioguinho respondeu:
— Sabíamos.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— E ninguém achou importante me contar?
Valente respondeu rápido.
— Não era problema seu.
Ela cruzou os braços.
— Agora virou.
Ele assentiu.
— Virou.
Alice respirou fundo.
— Então esse Tubarão quer um milhão de volta.
Valente corrigiu.
— Quer um sinal.
— Um milhão.
— Em uma semana. Mas os vinte milhões que eu receberia uma parte, ele quer inteiro agora, então eu devo vinte milhões pra ele.
Dioguinho falou:
— Isso a gente arruma, um milhão é tranquilo, tem muita coisa pra gente produzir aqui.
Valente balançou a cabeça.
— Não é tão simples.
Alice perguntou:
— Por quê?
Valente respondeu:
— Porque ele quer o dinheiro limpo.
Silêncio.
Alice piscou.
— Limpo?
Dioguinho soltou um riso nervoso.
— Aí fod3u.
Alice olhou para ele.
— O que significa isso?
Valente explicou:
— Lavado.
— Legalizado.
— Dinheiro que possa entrar em banco.
Alice arregalou os olhos.
— Espera…
— Vocês nunca fizeram isso?
Dioguinho respondeu imediatamente.
— Nunca.
Valente completou:
— Nunca precisamos.
Alice ainda parecia processar.
— Mas como vocês faziam antes?
Valente respondeu:
— Eu conseguia o dinheiro.
— Sujo.
— Entregava pro Tubarão.
— Ele lavava.
— E depois dividia.
Dioguinho murmurou:
— Era o acordo.
Alice passou a mão no cabelo.
— Então agora ele quer que você lave?
Valente assentiu.
— Quer me punir.
Ele deu um sorriso amargo.
— De todas as formas possíveis.
O bunker ficou em silêncio.
As caixas ao redor.
A mercadoria.
O império que Alice tinha chamado algumas horas antes.
Agora parecia outra coisa.
Uma montanha de problema.
Alice caminhou alguns passos pelo bunker.
Pensando.
Calculando.
Finalmente falou.
— Ok.
Valente olhou para ela.
— Ok?
Ela assentiu.
— A gente resolve.
Dioguinho soltou um riso descrente.
— Resolve como?
Alice respondeu calmamente.
— Primeiro…
Ela apontou para as caixas.
— Terminando de contar isso aqui, hoje.
Valente olhou para ela.
— Você tá falando sério?
Ela respondeu:
— Muito.
Depois cruzou os braços.
— Porque se vocês realmente têm um milhão escondido nesse bunker…
Ela ergueu a sobrancelha.
— Então o problema não é o dinheiro.
Ela encarou os dois.
— O problema é transformar ele em dinheiro que ninguém vai questionar.
Dioguinho murmurou:
— Ou seja…
— Lavar.
Alice assentiu.
O olhar agora brilhava com aquele mesmo foco estratégico que tinha mostrado horas antes.
— Exatamente.
Valente ficou olhando para ela por alguns segundos.
E pela primeira vez desde que tinha ouvido o nome Tubarão naquela manhã…
Uma pequena sensação de esperança apareceu dentro dele.
Porque se tinha uma coisa que ele já tinha percebido…
Era que Barbie sempre parecia ter um plano.