Lembrete

1262 Words
O bunker tinha mudado completamente de clima. Na madrugada anterior, aquele espaço tinha sido um formigueiro humano. Vozes altas, caixas sendo arrastadas, gente entrando e saindo, lanternas iluminando tudo enquanto caminhões eram descarregados. Agora estava silencioso. Quase tranquilo. A única coisa que quebrava o silêncio eram os sons repetitivos de caixas sendo abertas, plásticos rasgados e o arranhar da caneta de Alice no papel. Ela estava sentada numa mesa improvisada no centro do bunker. Um caderno aberto. Uma calculadora. Algumas folhas soltas. O cabelo preso de qualquer jeito. E a expressão extremamente concentrada. Valente estava ajoelhado perto de uma pilha de caixas. Dioguinho estava do outro lado do bunker. Os dois já estavam com as mãos sujas de tanto abrir embalagens. — Mais vinte — disse Valente, olhando dentro de uma caixa. Alice levantou os olhos. — Vinte o quê? — Pacotes. Ela anotou rapidamente. — Caixa 14… vinte unidades. Dioguinho rasgou outra embalagem. — Aqui tem trinta. Alice olhou. — Confere direito. — Não inventa número. Ele bufou. — Eu sei contar, Barbie. Ela levantou uma sobrancelha. — Tem certeza? Valente riu. Dioguinho revirou os olhos. — Vocês dois são muito engraçados. Mas mesmo reclamando, ele começou a contar novamente. — Um… dois… três… Alice voltou a escrever. A organização dela era impressionante. Cada tipo de produto separado. Cada caixa numerada. Cada quantidade anotada. Valente observava aquilo com uma mistura de curiosidade e respeito. Ele nunca tinha visto alguém tratar aquele tipo de operação daquele jeito. Ali no morro, as coisas sempre tinham funcionado no improviso. Chegava mercadoria. Era produzida até quanto dava, depois era distribuída. Vendia. Entrava dinheiro. Simples. Mas Alice parecia estar transformando aquilo num sistema. — Caixa 22 — disse Dioguinho. — Trinta e dois. Alice anotou. — Certo. Valente se levantou, alongando as costas. — Cara… — Isso é muita coisa. Dioguinho riu. — Eu falei. Alice levantou o olhar do caderno. — E ainda nem começamos a contar metade. Valente olhou ao redor. O bunker era grande. Mas naquele momento parecia pequeno diante da quantidade de caixas empilhadas até quase o teto. Ele assobiou baixo. — A gente tá sentado numa mina de ouro. Alice respondeu sem levantar a cabeça. — Na verdade, em várias minas, só que dessas que explodem, senão tomar cuidado. Ela virou uma página do caderno. — Aqui tem matéria-prima suficiente pra produzir muito mais do que você costumava. Dioguinho se sentou em cima de uma caixa. — Eu nunca imaginei que tinha tanto assim. Alice respondeu calmamente. — Por isso que eu quis contar. Ela olhou para os dois. — Vocês precisam saber o tamanho do império que têm nas mãos. Valente abriu outra caixa. — Império… Ele soltou um pequeno riso. — Nunca pensei nisso desse jeito. Alice respondeu: — Então começa a pensar. O bunker ficou em silêncio novamente. Somente o trabalho. Contar. Anotar. Organizar. O tempo foi passando devagar. Talvez uma hora. Talvez mais. Até que— BAM. O som foi tão forte que ecoou dentro do bunker. Os três congelaram. BAM. Outra batida. Muito mais forte. Como se alguém estivesse socando a porta metálica do bunker com toda a força. Dioguinho levantou a cabeça imediatamente. — Que porr4 foi essa? Alice também já estava de pé. O coração batendo mais rápido. BAM. Outra pancada. Agora acompanhada por uma voz do lado de fora. — VALENTE! O silêncio dentro do bunker ficou pesado. Muito pesado. Os três se entreolharam. A mente de Valente começou a correr. Ninguém deveria estar ali. Ninguém. Aquela entrada ficava escondida. Discreta. E principalmente… Ninguém podia ver o que tinha ali dentro. Alice foi a primeira a falar. Baixo. Controlada. — Quem é? Valente respondeu no mesmo tom. — Não faço ideia. BAM. Mais uma pancada. Dessa vez mais agressiva. — ABRE ESSA PORR4! Dioguinho já estava nervoso. — Não abre. Valente olhou para ele. — Se eu não abrir, vão arrebentar a porta. Alice pensou rápido. Depois falou com firmeza. — Vai lá. Valente olhou para ela. — O quê? Ela caminhou até ele. Os olhos sérios. — Vai atender. Ele franziu a testa. — E vocês? Ela respondeu imediatamente. — A gente fica aqui. Ela apontou ao redor. — Isso aqui não pode aparecer pra ninguém. Dioguinho concordou. — Nem ferrand0. Alice voltou a olhar para Valente. A voz mais baixa. Mas firme. — Aconteça o que acontecer… — Não deixa ninguém entrar aqui. Valente segurou o olhar dela por alguns segundos. Depois assentiu. — Certo. Ele caminhou até uma pequena mesa encostada na parede. Abriu uma gaveta. Lá dentro estava uma pistola. Ele pegou a arma. Verificou o carregador. Fechou novamente. Colocou na cintura. Depois pegou um boné que estava sobre a mesa. Virou para trás. Respirou fundo. — Já volto. Alice apenas assentiu. Dioguinho cruzou os braços. — Qualquer coisa grita. Valente começou a subir as escadas estreitas que levavam até a porta. Cada passo fazia o coração dele bater mais forte. BAM. Outra pancada. — ABRE ESSA MERD4! Valente chegou até a porta. Respirou fundo. E abriu. A luz do dia entrou forte nos olhos dele. E três homens estavam ali. Parados. Esperando. Valente nunca tinha visto nenhum deles. Três caras grandes. Fortes. Com expressões duras. Um deles mascava chiclete. Outro tinha uma cicatriz grande no rosto. O terceiro apenas encarava. Valente apoiou a mão na porta. — O que vocês querem? Silêncio. Os três se entreolharam. E então— Sem aviso. O primeiro soco veio direto no rosto de Valente. TÃO forte que ele nem teve tempo de reagir. O mundo girou. Ele cambaleou para trás. — Que porr4— Outro soco. Agora no estômago. O ar saiu completamente dos pulmões dele. Antes que pudesse recuperar o fôlego, os outros dois já estavam em cima dele. Chutes. Socos. Golpes rápidos. Precisos. Valente tentou reagir. Tentou levar a mão até a pistola na cintura. Mas um dos homens segurou o braço dele e torceu com força. — Quietinho. Outro chute acertou as costelas. Valente caiu de joelhos. O gosto de sangue encheu a boca. Mais um soco. Direto no maxilar. A visão dele ficou turva. Ele ouviu um dos homens rindo. — Olha só. — O valentão do morro. Outro golpe. Agora na barriga. Ele caiu no chão. Os três continuaram. Sem pressa. Como se aquilo fosse apenas um trabalho rotineiro. Um lembrete. Um recado. Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, um deles segurou Valente pela camisa e puxou ele um pouco para cima. O rosto de Valente estava machucado. O lábio aberto. Sangue escorrendo pelo queixo. O homem aproximou o rosto do dele. E finalmente falou. A voz baixa. Fria. — Isso aqui… Ele deu um tapinha no rosto machucado de Valente. — É só um lembrete. Valente tentou focar o olhar. — Lembrete… de quê? O homem sorriu. Um sorriso feio. — Do Tubarão. O nome caiu como uma pedra no peito de Valente. — Ele mandou lembrar… O homem se inclinou mais perto. — Que você deve cinquenta milhões pra ele, o tempo tá correndo, ele quer um sinal da grana, você tem uma semana para levar um milhão limpinho pra ele. Silêncio. O homem soltou Valente. Ele caiu de novo no chão. Os três começaram a se afastar. Um deles ainda virou para trás. — Paga logo. — Ou da próxima vez… Ele deu um pequeno sorriso. — Não vai ser só um lembrete. E então foram embora. Deixando Valente jogado no chão. Sangrando. Enquanto dentro do bunker… Alice e Dioguinho ainda esperavam. Sem imaginar o que tinha acabado de acontecer lá fora.
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