Escritório do Dono

1398 Words
O escritório de Valente ficava no andar de cima da casa. Era um lugar simples… mas imponente. Mesa grande de madeira escura. Cadeiras pesadas. Um mapa enorme do morro na parede. Algumas telas mostrando câmeras espalhadas pelas ruas. Não era um escritório de empresário. Era o centro de comando de alguém que controlava um território inteiro. Barbie entrou no ambiente observando tudo com atenção. — Interessante. Valente fechou a porta atrás deles. — Não parece o tipo de lugar que você frequenta, né? Ela caminhou até o mapa na parede. — Depende. Ele arqueou a sobrancelha. — De quê? Ela apontou para o mapa. — De quem manda no lugar. Valente soltou uma risada curta. — Você fala como se entendesse esse mundo. Ela se virou para ele. — Eu entendo de dinheiro. — Onde tem dinheiro… tem poder. — Onde tem poder… sempre existe alguém controlando tudo. Silêncio. Valente ficou observando ela por alguns segundos. A forma como ela analisava o ambiente. Nada ali parecia assustar ela. Na verdade… Ela parecia curiosa. Ele pegou o celular e mandou algumas mensagens. — Em dez minutos eles chegam. — Quem? — Quem realmente faz esse morro funcionar. Barbie fechou o notebook e apoiou na mesa. — Ótimo. Valente cruzou os braços. — Você não está nem um pouco nervosa? Ela pensou por um segundo. — Estou. Ele sorriu de lado. — Não parece. Ela respondeu tranquila: — Porque nervosismo não muda resultado. Valente ficou em silêncio. Aquela mulher era estranha. Muito estranha. Pouco depois começaram a chegar. Primeiro dois homens. Depois mais três. Depois quatro. Todos armados. Todos acostumados com violência. Todos pararam quando viram quem estava sentada na cadeira ao lado da mesa de Valente. Uma loira. Elegante. Notebook aberto. Um dos homens falou primeiro. — Chefe… Ele apontou discretamente com a cabeça. — Quem é? Valente respondeu sem rodeios. — A pessoa que vai ajudar a gente a parar de perder dinheiro. Outro traficante riu. — Agora tem consultoria no morro? Alguns riram junto. Mas Barbie não reagiu. Continuou digitando algo no notebook. Outro homem entrou na sala. Mais velho. Braços tatuados. Olhar desconfiado. Ele encarou ela por alguns segundos. Depois falou com Valente. — Essa é a garota da reunião de ontem? Valente assentiu. — É. — E você confia nela? — Confio. O homem deu de ombros. — Então vamos ver. Quando todos já estavam na sala, Valente bateu a mão na mesa. — Presta atenção. O barulho fez todo mundo se calar. Ele apontou para Barbie. — Ela analisou tudo. — Movimentação. — Perdas. — Dinheiro que está sumindo. — O jeito que a gente está operando. Ele pausou. — E ela tem mudanças pra fazer. Alguns homens se entreolharam. Um deles falou: — Mudança feita por alguém que chegou ontem? Outro completou: — Tá rápido demais isso aí. Valente respondeu seco: — Quem manda aqui sou eu. Silêncio. Ele continuou. — E eu quero ouvir. Depois olhou para Barbie. — Mostra. Todos os olhos voltaram para ela. Barbie levantou devagar. Girou o notebook na direção da mesa. Na tela apareciam gráficos. Mapas. Anotações. Ela respirou fundo. E começou. — Primeiro… A voz dela era firme. — Vocês trabalham muito. — Arriscam muito. — Mas estão ganhando menos do que poderiam. Um dos traficantes riu. — Sempre dá pra ganhar mais. Ela respondeu: — Sim. — Mas também dá pra perder menos. Alguns se inclinaram para olhar melhor a tela. Ela continuou: — O morro tem potencial para movimentar mais dinheiro do que está movimentando hoje. Outro homem cruzou os braços. — Fala logo o que você quer mudar. Ela clicou em uma das telas. — Organização. Alguns reviraram os olhos. Mas ela continuou. — Cada área do morro funciona quase como um território separado. — Isso cria buracos. — Falta de comunicação. — E perda de controle. Ela apontou para o mapa. — Quando um lado cresce e o outro fica parado… vocês perdem oportunidades. O homem tatuado perguntou: — Então? Ela respondeu: — Então precisa existir coordenação. — Estratégia. — Expansão planejada. Silêncio. Ela falava com segurança. Como se já tivesse participado daquilo a vida inteira. Um dos homens comentou baixo: — A patricinha fala bonito. Outro respondeu: — Mas faz sentido. Ela continuou explicando. Falou sobre organização interna. Controle de recursos. Aproveitamento melhor de tudo que já existia ali. Sem entrar em detalhes operacionais. Mas mostrando que havia lógica nas ideias. Valente observava tudo. Ele não tirava os olhos dela. Porque a cada minuto… Ela parecia mais confortável naquele ambiente. Mais dominante. Como se aquela sala fosse um palco. E ela estivesse acostumada a liderar. Depois de algum tempo ela mudou a tela. — Outra coisa. Os homens olharam. Ela apontou para algumas anotações. — Existem outras formas de movimentar dinheiro dentro de um território como esse. Um dos traficantes ergueu a sobrancelha. — Tipo? Ela respondeu: — Atividades paralelas. — Negócios que não dependem apenas do que vocês já fazem. Eles se entreolharam. Um deles comentou: — Diversificar? Ela sorriu levemente. — Exatamente. Outro homem perguntou: — E o que você sugere? Ela falou com calma. — Coisas que já acontecem na cidade… — Mas que aqui podem ser organizadas. Ela mencionou exemplos de atividades ilegais que já existiam no mundo urbano, sem entrar em detalhes operacionais. A ideia central era simples: Mais fontes de dinheiro. Menos dependência de apenas um tipo de atividade. Os homens começaram a conversar entre si. Alguns pareciam intrigados. Outros impressionados. Um deles falou: — Essa garota estudou isso. Outro respondeu: — Ou cresceu vendo. Valente permaneceu em silêncio. Mas por dentro… Ele estava cada vez mais convencido. A loira terminou a apresentação e fechou o notebook. — Em resumo… Ela olhou para todos. — O morro já tem poder. — Já tem estrutura. — Já tem pessoas trabalhando. Ela apoiou as mãos na mesa. — Só falta transformar isso em algo mais organizado. O silêncio voltou. Um dos traficantes coçou a barba. — Se metade disso funcionar… Outro completou: — A gente ganha muito mais. Mas o homem tatuado falou: — Ou a gente se fod3. Ele olhou diretamente para Barbie. — Você fala bonito. — Parece inteligente. — Mas isso aqui não é faculdade. Ele deu um passo à frente. — Se isso der errado… A voz dele ficou fria. — Você sabe o que acontece. Valente respondeu antes dela. — Já falei. Ele se levantou. — Se der errado… Ele olhou para todos. — A responsabilidade é minha. Os homens se entreolharam novamente. Porque aquilo significava muito. Valente não colocava seu nome em risco à toa. O homem tatuado assentiu lentamente. — Então vamos testar. Outro falou: — Mas devagar. — Sem loucura. Barbie respondeu com tranquilidade: — Exatamente. — Mudanças inteligentes. — Não impulsivas. Alguns começaram a concordar. A tensão da sala diminuiu. Não completamente. Mas o suficiente. Valente bateu a mão na mesa novamente. — Então está decidido. Ele olhou para todos. — A partir de hoje… — A gente faz diferente. Os homens começaram a sair da sala, conversando entre si. Alguns ainda olhavam para Barbie com desconfiança. Outros com curiosidade. Quando a porta finalmente se fechou e restaram apenas os dois no escritório… O silêncio voltou. Valente caminhou até a mesa. Parou na frente dela. — Você acabou de dar ordens para alguns dos homens mais perigosos desse morro. Ela fechou o notebook. — Eu dei sugestões. Ele sorriu. — Não. — Você deu direção. Ela cruzou os braços. — Eles aceitaram. Valente inclinou a cabeça. — Você não parece surpresa. Ela respondeu: — Pessoas que lidam com dinheiro reconhecem quando algo faz sentido. Ele ficou olhando para ela por alguns segundos. Depois falou: — Você é perigosa. Ela arqueou a sobrancelha. — Mais que eles? Valente respondeu baixo: — De outro jeito. Silêncio. Ele se aproximou um pouco mais. — Porque você entra em uma sala cheia de homens armados… — E faz todos eles te ouvirem. Ela sustentou o olhar dele. — Isso te incomoda? Valente sorriu. — Não. Ele apoiou as mãos na mesa. — Na verdade… — Eu acho que pode ser a melhor coisa que já aconteceu nesse morro. Ela inclinou a cabeça. — Ou a pior. Valente riu. — É. — Também pode ser. Mas no fundo… Os dois sabiam. Aquela história ainda iria longe, mas ninguém ali tinha medo do futuro.
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