Visitinha Amigável

1519 Words
O bunker nunca ficava realmente silencioso. Mesmo quando ninguém falava, sempre tinha alguma coisa vibrando no ar — o ronco constante das máquinas lá embaixo na produção, o vai e vem de passos apressados nos corredores de concreto, o barulho de caixas sendo arrastadas, rádios chiando com comunicação curta entre os soldados espalhados pelo morro. Era como se o lugar respirasse. Valente estava encostado numa mesa grande no bunker, analisando alguns relatórios de produção enquanto Dioguinho fumava encostado perto da porta, olhando o movimento através da câmera de segurança que passava na televisão presa na parede. — Essa remessa aqui saiu menor que o esperado — Valente murmurou, passando o dedo pelas linhas da folha. Dioguinho deu uma tragada e soltou a fumaça devagar. — Os moleque lá da prensa tão reclamando que duas máquina tão falhando. — Então troca. — Já mandei buscar peça. Valente assentiu, jogando os papéis na mesa. Ele estava cansado. Não fisicamente. Cansado de pressão. Cansado de conta que não fechava. Cansado de saber que tinha gente muito mais poderosa que ele esperando uma resposta que ele ainda não tinha. E o tempo estava passando. Muito rápido. Mas mesmo com toda essa pressão, vira e mexe Valente dava uma olhada para a sala, onde a Barbie estava trabalhando com as pastas, como se quisesse conferir se ela ainda estava lá. Dioguinho percebeu a tensão no rosto dele. — Tu tá com a cabeça lá na loirinha ainda? — perguntou. Valente lançou um olhar de canto. — Tô com a cabeça na grana que sumiu. Dioguinho soltou um riso curto. — É… essa aí pesa mais que qualquer loira. Antes que Valente respondesse, um dos rádios na mesa chiou. — Movimento na entrada. Dioguinho franziu a testa. — Quem? A resposta veio alguns segundos depois. — Visitante grande. Valente já ficou sério. Visitante grande nunca era boa notícia. Dioguinho caminhou até a tela das câmeras. E então ele viu. Quatro homens subindo a escada de concreto. No meio deles, um gigante. Negão alto. Muito alto. Peito largo. Corrente de ouro grossa no pescoço. Dentes de ouro brilhando quando ele sorria para alguém fora da câmera. Dioguinho murmurou: — Ih… fud3u. Valente já sabia. — Tubarão. O bunker parecia ter ficado mais frio de repente. Valente passou a mão pelo rosto. — Já chegou assim… — Tá put0 — disse Dioguinho. — Claro que tá. O rádio chiou de novo. — Tá subindo. Passos pesados ecoaram pelo corredor de concreto. Os soldados do bunker automaticamente ficaram mais quietos quando perceberam quem estava chegando. A presença daquele homem pesava no ambiente. Quando Tubarão apareceu na porta, parecia que ele ocupava o espaço inteiro. Mais de dois metros de altura. O sorriso cheio de dentes dourados. Olhos escuros. Perigosos. Atrás dele, dois capangas armados. Tubarão abriu os braços como se estivesse reencontrando um velho amigo. — E aí, Valente! A voz dele era grave, forte. — Tá bonitão hein, porr4! Valente caminhou até ele. Sem demonstrar medo. Sem demonstrar pressa. Mas por dentro ele sabia. Aquilo ali podia virar um velório em segundos. — Tubarão. Eles se aproximaram. Estenderam as mãos. Apertaram. E então tudo mudou em um segundo. O sorriso de Tubarão continuava no rosto… Mas a mão dele girou com força. Ele torceu o pulso de Valente violentamente. Valente foi puxado para frente e empurrado contra a parede de concreto com um baque seco. Antes que qualquer um reagisse, Tubarão já tinha sacado a arma. E a pressionou contra a cabeça dele. O bunker inteiro congelou. Ninguém se mexeu. Dioguinho ficou tenso, mas não puxou arma. Porque ele sabia. Aquilo ali era conversa de gente grande. Tubarão aproximou o rosto do de Valente. Os dentes de ouro brilharam quando ele falou baixo. Muito baixo. Mas cheio de veneno. — Cadê… minha grana? O silêncio ficou pesado. Valente não respondeu na hora. Tubarão pressionou mais a arma. — Eu vou perguntar só mais uma vez, parceiro. Os olhos dele estavam frios. — Cadê. Minha. Grana. Dioguinho sentiu o coração acelerar. Porque ele sabia. Aquilo ali era só o começo. Valente respirou fundo. Devagar. Sem tentar se soltar. Sem levantar a voz. — Eu tô resolvendo, eu nunca te dececionei cara, só me dá mais um tempo. Tubarão soltou uma risada. Mas não era uma risada divertida. Era uma risada de desprezo. — Resolvendooo… Ele repetiu a palavra arrastada. — Tu tá ligado que não era só meu dinheiro nessa brincadeira né? Valente ficou em silêncio. — Tinha gente maior que eu nessa parada. A arma pressionou mais forte. — Gente que não tem paciência. Os homens atrás dele observavam tudo. O bunker inteiro parecia prender a respiração. Tubarão inclinou a cabeça. — Tu sabe quanto tinha naquela conta, Valente? Valente respondeu. — Sei. — Então fala. — Vinte milhões. Os olhos de Tubarão se estreitaram. — E cadê? Valente encarou ele. — O contador sumiu. Tubarão riu de novo. — Ahhh, o contador sumiu… Ele afastou a arma por um segundo. Só pra olhar melhor para Valente. — Tu tá me dizendo que um contadoreco de merd4 passou a perna em tu… e em mim? Valente não respondeu. E isso irritou Tubarão ainda mais. Ele voltou a colocar a arma na cabeça dele. — Tu acha que eu sou otári0? Dioguinho finalmente falou. — O cara sumiu mesmo, Tubarão. Tubarão virou o rosto lentamente. Olhou para Dioguinho. — E quem caralh0 perguntou pra tu? O tom dele não era alto. Mas era ameaçador. Dioguinho levantou as mãos. — Só tô dizendo a verdade. Tubarão voltou a olhar para Valente. — Eu confiei em tu. — Eu sei. — Confiei porque tu sempre foi ligeiro. Ele aproximou o rosto mais uma vez. — E agora tu me vem com história de contador? Valente manteve a calma. — Eu vou recuperar a grana. Tubarão ficou alguns segundos em silêncio. Depois sorriu. Dentes de ouro brilhando de novo. — Vai? — Vou. — Como? Valente respondeu sem hesitar. — Trabalhando. Tubarão olhou ao redor do bunker. As máquinas. Os homens. As caixas. — Produção tá rodando… Valente assentiu. — Nunca parou. — Mesmo depois do golpe? — Especialmente depois do golpe. Tubarão pareceu pensar. Por alguns segundos. Depois finalmente afastou a arma. Valente saiu da parede devagar. Flexionando o pulso que ainda doía. Tubarão guardou a pistola. Mas continuou olhando para ele. — Tu tem coragem, sabia? Valente respondeu seco. — Ou coragem ou caixão. Tubarão riu alto dessa vez. — Gostei. Ele começou a andar pelo bunker. Observando tudo. Passou a mão em uma caixa. Olhou para as máquinas através do vidro. — Produção tá boa… Valente respondeu: — Tá aumentando. — Porque vai precisar. Tu perdeu a grana, agora tem juros correndo. Tubarão parou. Virou de novo para ele. — E eu vou te dar um prazo. Dioguinho ficou tenso. — Três meses, o dobro do que você perdeu. Melhor... Vamos fechar em cinquenta milhões e não se fala mais nisso, beleza? Valente não demonstrou reação. — Noventa dias. Tubarão levantou três dedos na frente do rosto dele. — Ou a grana aparece… Ele abaixou os dedos lentamente. — Ou tu que aparece, morto. Silêncio. Total. O olhar de Tubarão era sério agora. Sem sorriso. Sem brincadeira. — Porque se tu cair… eu também caio. Mas eu caio atirando. Ele apontou para o peito de Valente. — Eu não caio sozinho. Ele bateu duas vezes no peito dele. — Entendeu? Valente respondeu firme. — Entendi. Tubarão deu dois passos para trás. O sorriso voltou. — Relaxa. Ele deu um tapa forte no ombro de Valente. — Eu gosto de tu. Depois começou a caminhar para a saída. Os capangas seguiram. Mas antes de sair, ele parou na porta. Virou a cabeça. — Ah… Valente olhou. — Ouvi dizer que tem uma loirinha nova aqui no morro. É bonita? Quem sabe não me faz um agrado? O olhar dele ficou curioso. — Ela não é nada cara, estranha, dessas nerdolas inteligentes, só isso... Valente ficou imóvel. Tubarão sorriu. — Cuidado com mulher inteligente. Ele piscou. — Elas roubam mais que contador. E então saiu. Os passos dele desapareceram no corredor. O bunker continuou em silêncio por alguns segundos. Até Dioguinho soltar o ar que estava preso no peito. — Caralh0… Ele passou a mão no rosto. — Achei que tu ia morrer agora. Valente esfregou o pulso. — Eu também. Dioguinho olhou para ele. — Três meses. Valente respondeu: — Eu sei. — Cinquenta milhões cara, a gente nunca passou de vinte. Esses caras meteram essa grana aqui justamente para aumentar esse valor, mas a gente não tem tudo isso pra investir de volta. — Eu sei. Dioguinho hesitou. Depois perguntou: — Tu realmente acha que a Barbie consegue recuperar essa porr4? Valente ficou olhando para o escritório lá em cima. Onde ela provavelmente ainda estava mexendo nas contas. Digitando. Analisando. Tentando entender aquele caos financeiro. Ele respondeu baixo. — Eu não sei. Dioguinho cruzou os braços. — E se ela não conseguir? Valente ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu frio. — Então a gente tá morto.
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