CAPÍTULO 10

547 Words
Helena Desde o jantar de ontem, meu corpo parece viver em um estado de alerta constante, como se tivesse despertado para algo que eu não deveria ter visto ou sentido. Eu acordo com a sensação de que tem algo errado. Não comigo. Com ele. Damian. Tudo começou durante aquele jantar, aquele momento em que o mundo pareceu ficar em silêncio, como se até o ar tivesse parado só para observá-lo. Só para me avisar que tem alguma coisa nele que não é normal. Algo que vai além do comportamento controlador, além da forma como me olha, além da intensidade que ele tenta esconder. Eu simplesmente sei. Sinto. Quando chego à empresa, tento ignorar o peso dessa percepção, mas é impossível. Cada passo que dou carrega uma lembrança do olhar que ele me lançou ontem, logo depois de eu ter dito “não” pela primeira vez desde que nos conhecemos. Foi ali que percebi. Ele não lida bem com limites. Ele não aceita recusas. Ele não gosta de perder o controle, especialmente sobre mim. — Bom dia — digo a Julia, tentando soar normal, mas ela apenas me encara rápido demais, como se estivesse avaliando algo. — Bom dia, Helena — ela responde, mas sua voz vem baixa demais. Nervosa demais. Meu estômago aperta. De novo aquela sensação. Entro na minha sala e tento respirar fundo. Não posso continuar pensando sobre aquilo. Sobre ele, Mas a imagem do olhar que ele me deu ontem , frio, calculado, ferido e furioso ao mesmo tempo insiste em voltar. Algo mudou nele. Ou talvez eu tenha percebido algo que sempre esteve ali. O problema é que eu não sei o quê. E como se minha mente tivesse sido convocada por seus pensamentos, a porta do escritório dele se abre. Ele aparece no corredor, conversando com ninguém, porque ele não precisa falar para dominar um ambiente. Ele olha diretamente para mim. Não como antes. Não com desejo velado. Nem com aquele ímpeto possessivo que me faz querer correr e ficar ao mesmo tempo. Hoje, há outra coisa. Uma sombra. Algo mais escuro, mais profundo, mais perturbador. A sensação é instantânea. Meu corpo reage antes da razão. Meu coração dispara. Minhas mãos suam. Minha respiração falha por um segundo. Ele percebe. Claro que percebo. Damian sempre percebe. Seus olhos ficam mais estreitos, mais avaliadores. Como se estivesse anotando mentalmente cada detalhe do que vê em mim. Ele dá um passo lento em minha direção. Depois outro. E eu sinto aquele mesmo arrepio do jantar percorrendo minha espinha. Aquela impressão de que estou diante de alguém que não só me deseja, mas que guarda alguma coisa. Algo pesado. Algo sombrio. Algo que talvez envolva a mim. — Helena. — ele diz finalmente, sua voz baixa demais. Um sussurro que parece mais uma ordem. — Preciso falar com você. Agora. Não é um convite. É uma convocação. E a forma como ele me observa enquanto espero, enquanto respiro, enquanto tento parecer firme, só confirma o que eu senti ontem. Tem algo errado com ele. Algo que eu deveria temer. E o pior é que, mesmo assim, eu sigo seus passos. Porque, por mais que algo em mim grite perigo, uma parte teimosa, e talvez insana, quer descobrir o que exatamente eu vi naquela noite.
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