CAPÍTULO 4

779 Words
Helena Se existe um lugar que eu deveria evitar, esse lugar é o escritório dele. Mas, naquele dia, eu não tive escolha. A chamada veio pelo telefone interno — a voz fria da secretária avisando — Senhor Crawford deseja vê-la. Agora. Aquela palavra sempre pesa. Agora, Sem tempo para pensar, respirar ou tentar inventar uma desculpa. Peguei meu bloco de anotações e caminhei até a porta dele como quem caminha para um tribunal. Ou para uma jaula. O corredor parecia mais quieto do que o normal. Ou talvez fosse minha imaginação. Talvez fosse o medo. Toquei três vezes. — Entre — a voz dele veio imediatamente, firme. Abri a porta. E, como sempre acontece, meu peito apertou. O escritório dele é… a personificação do próprio Damian. Escuro, impecável, caro. Uma combinação de preto, carvalho e vidro. Cada objeto no lugar perfeito. Nada fora da linha. Nada comum. E ele ali: sentado atrás da mesa de madeira maciça, mangas dobradas, o relógio prateado brilhando no pulso. Os olhos fixos em mim antes mesmo que a porta se fechasse. É como se ele sempre estivesse me esperando. — Helena — ele disse, apenas meu nome, mas com o poder de um comando. Me aproximei devagar. — Você pediu para me ver? Ele não respondeu de imediato. Levantou-se da cadeira, caminhando ao redor da mesa em silêncio, como um predador circulando território. — Pedi — respondeu, enfim. — Sente-se. A cadeira em frente à mesa. A mais desconfortável da empresa. Sentei, mesmo sabendo que era exatamente isso que ele queria, me deixar vulnerável, menor, exposta. Ele apoiou as mãos na borda da mesa e inclinou o corpo, ficando perto demais do meu rosto. O cheiro dele — madeira, algo amparado, algo escuro me invadiu antes que eu pudesse me preparar. — Hoje cedo você me desobedeceu — ele disse. Eu pisquei. — Como assim? Eu perguntei — Você virou o rosto quando falei com você no corredor — cortou. — Eu chamei seu nome. E você ignorou. Meu coração acelerou. — Eu não ouvi — tentei explicar. — Eu estava distraída, não foi minha intenção. — Eu não trabalho com intenções — ele disse, a voz baixa e gelada. — Eu trabalho com fatos. A maneira como ele falava fazia tudo parecer culpa minha. Mesmo que eu não tenha feito nada. — Eu não faria isso de propósito, eu insisti. Ele franziu o cenho. Caminhou até a porta e a trancou. O clique ecoou no ambiente. Meu pulso disparou. Ele voltou devagar, sem desviar os olhos dos meus. Parou ao meu lado, perto demais. — Você precisa aprender como as coisas funcionam comigo ele murmurou. — Damian — eu sussurrei, sentindo a garganta apertar. — Eu só quero trabalhar em paz. Ele inclinou a cabeça, como se estivesse analisando minhas palavras por dentro. — Paz não combina comigo — respondeu. — Nem com você. — Comigo? — minha voz quase falhou. — Você finge que quer distância, mas não quer — ele disse, segurando levemente o apoio da cadeira, me deixando presa no olhar dele. — Você sente a mesma tensão que eu. E sabe que estou certo. Eu deveria negar. Deveria levantar, sair, dizer que ele está sendo abusivo, invasivo. Mas alguma coisa me bloqueou. Talvez o medo. Talvez a verdade que eu não queria admitir. Ele se inclinou, o rosto tão perto que eu senti sua respiração contra minha bochecha. — A partir de hoje — ele continuou — quando eu chamar, você vem. Quando eu falar, você escuta. Quando eu quiser sua atenção, você me dá. E quando eu pedir algo você cumpre. Eu respirei fundo. — Por quê? — perguntei, quase num sussurro. — Por que tudo isso? Ele ficou em silêncio por longos segundos. Então respondeu — Porque você me provoca de um jeito que nem percebe. E eu não gosto de perder o controle. Aquilo me arrepiou dos pés à cabeça. — Eu, eu não estou tentando provocar — falei, sentindo meu corpo inteiro reagir ao dele. Os olhos dele desceram pelos meus lábios por um segundo. — Não importa — murmurou. — Você provoca mesmo assim. Ele então deu dois passos para trás, como se tivesse decidido me devolver o ar. — Pode ir — disse, finalmente. — Mas lembre-se do que eu falei. Levantei quase tropeçando na pressa de chegar à porta. Mas, antes que eu saísse, ele acrescentou. — Helena. Olhei por cima do ombro. — Da próxima vez que me ignorar, vou te ensinar pessoalmente por que isso nunca deve acontecer. Engoli seco. E saí. Mas a sensação de ter deixado algo meu naquele escritório, essa ficou comigo o resto do dia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD