Helena
Se existe um lugar que eu deveria evitar, esse lugar é o escritório dele.
Mas, naquele dia, eu não tive escolha.
A chamada veio pelo telefone interno — a voz fria da secretária avisando
— Senhor Crawford deseja vê-la. Agora.
Aquela palavra sempre pesa.
Agora, Sem tempo para pensar, respirar ou tentar inventar uma desculpa.
Peguei meu bloco de anotações e caminhei até a porta dele como quem caminha para um tribunal.
Ou para uma jaula.
O corredor parecia mais quieto do que o normal.
Ou talvez fosse minha imaginação.
Talvez fosse o medo.
Toquei três vezes.
— Entre — a voz dele veio imediatamente, firme.
Abri a porta.
E, como sempre acontece, meu peito apertou.
O escritório dele é… a personificação do próprio Damian.
Escuro, impecável, caro.
Uma combinação de preto, carvalho e vidro.
Cada objeto no lugar perfeito.
Nada fora da linha.
Nada comum.
E ele ali: sentado atrás da mesa de madeira maciça, mangas dobradas, o relógio prateado brilhando no pulso.
Os olhos fixos em mim antes mesmo que a porta se fechasse.
É como se ele sempre estivesse me esperando.
— Helena — ele disse, apenas meu nome, mas com o poder de um comando.
Me aproximei devagar.
— Você pediu para me ver?
Ele não respondeu de imediato.
Levantou-se da cadeira, caminhando ao redor da mesa em silêncio, como um predador circulando território.
— Pedi — respondeu, enfim. — Sente-se.
A cadeira em frente à mesa.
A mais desconfortável da empresa.
Sentei, mesmo sabendo que era exatamente isso que ele queria, me deixar vulnerável, menor, exposta.
Ele apoiou as mãos na borda da mesa e inclinou o corpo, ficando perto demais do meu rosto.
O cheiro dele — madeira, algo amparado, algo escuro me invadiu antes que eu pudesse me preparar.
— Hoje cedo você me desobedeceu — ele disse.
Eu pisquei.
— Como assim? Eu perguntei
— Você virou o rosto quando falei com você no corredor — cortou.
— Eu chamei seu nome. E você ignorou.
Meu coração acelerou.
— Eu não ouvi — tentei explicar. — Eu estava distraída, não foi minha intenção.
— Eu não trabalho com intenções — ele disse, a voz baixa e gelada.
— Eu trabalho com fatos.
A maneira como ele falava fazia tudo parecer culpa minha.
Mesmo que eu não tenha feito nada.
— Eu não faria isso de propósito, eu insisti.
Ele franziu o cenho. Caminhou até a porta e a trancou.
O clique ecoou no ambiente.
Meu pulso disparou.
Ele voltou devagar, sem desviar os olhos dos meus.
Parou ao meu lado, perto demais.
— Você precisa aprender como as coisas funcionam comigo ele murmurou.
— Damian — eu sussurrei, sentindo a garganta apertar.
— Eu só quero trabalhar em paz.
Ele inclinou a cabeça, como se estivesse analisando minhas palavras por dentro.
— Paz não combina comigo — respondeu.
— Nem com você.
— Comigo? — minha voz quase falhou.
— Você finge que quer distância, mas não quer — ele disse, segurando levemente o apoio da cadeira, me deixando presa no olhar dele.
— Você sente a mesma tensão que eu. E sabe que estou certo.
Eu deveria negar.
Deveria levantar, sair, dizer que ele está sendo abusivo, invasivo.
Mas alguma coisa me bloqueou.
Talvez o medo.
Talvez a verdade que eu não queria admitir.
Ele se inclinou, o rosto tão perto que eu senti sua respiração contra minha bochecha.
— A partir de hoje — ele continuou — quando eu chamar, você vem. Quando eu falar, você escuta.
Quando eu quiser sua atenção, você me dá. E quando eu pedir algo você cumpre.
Eu respirei fundo.
— Por quê? — perguntei, quase num sussurro. — Por que tudo isso?
Ele ficou em silêncio por longos segundos.
Então respondeu
— Porque você me provoca de um jeito que nem percebe.
E eu não gosto de perder o controle.
Aquilo me arrepiou dos pés à cabeça.
— Eu, eu não estou tentando provocar — falei, sentindo meu corpo inteiro reagir ao dele.
Os olhos dele desceram pelos meus lábios por um segundo.
— Não importa — murmurou. — Você provoca mesmo assim.
Ele então deu dois passos para trás, como se tivesse decidido me devolver o ar.
— Pode ir — disse, finalmente. — Mas lembre-se do que eu falei.
Levantei quase tropeçando na pressa de chegar à porta.
Mas, antes que eu saísse, ele acrescentou.
— Helena.
Olhei por cima do ombro.
— Da próxima vez que me ignorar, vou te ensinar pessoalmente por que isso nunca deve acontecer.
Engoli seco.
E saí.
Mas a sensação de ter deixado algo meu naquele escritório, essa ficou comigo o resto do dia.