Helena
Eu acordo antes do despertador, com o coração disparado e a sensação clara de que algo mudou dentro de mim.
Algo profundo, quente e assustador.
O beijo de ontem ainda está na minha pele.
A forma como Damian me segurou, como se o mundo fosse acabar se ele me soltasse.
A intensidade nos olhos dele.
O desejo bruto que ele não tentou esconder.
Era para ser só um beijo.
Mas nada nele é “só”.
E nada em mim voltou ao normal depois.
Eu me levanto da cama tentando ignorar o que sinto. Tento racionalizar. Jogar lógica em cima de um incêndio emocional.
Dizer a mim mesma que foi um erro, que não pode acontecer de novo, que ele é meu chefe, que tudo isso é perigoso demais.
Mas toda vez que fecho os olhos, eu vejo o jeito como ele disse meu nome.
E isso me destrói.
No caminho para o trabalho, decido vou me afastar. Vou fingir que nada aconteceu. Vou recuperar meu controle.
Porque alguém precisa ter controle nessa história e claramente não será ele.
Entro no prédio e sigo direto para minha mesa, evitando olhar para o corredor que leva ao escritório dele.
Minha respiração está presa, meus pensamentos correndo como loucos, mas eu tento manter a postura.
Até que a porta do elevador se abre atrás de mim.
E eu sinto.
Antes de ouvir.
Antes de ver.
Eu sinto Damian entrar no andar.
Meu corpo reconhece ele antes mesmo da minha mente.
Tento me manter focada na tela.
— Helena.
A voz dele.
Baixa. Profunda.
Carregada da mesma intensidade da noite passada.
Merda.
Eu aperto as mãos no teclado, tentando não me virar.
— Bom dia, senhor Damian — digo com a voz mais neutra que consigo.
Ouço passos atrás de mim. Aproximando-se.
Ele para tão perto que eu sinto o calor do corpo dele nas minhas costas.
— Senhor Damian? — ele repete, com uma leve ironia.
— Depois de ontem, é assim que vai me chamar?
Meu pulso dispara.
Mas eu respiro fundo e mantenho os olhos na tela.
— Estamos no horário de trabalho — digo, tentando parecer firme.
— Acho melhor esquecermos o que aconteceu ontem.
Silêncio.
Silêncio não é bom.
Eu o conheço o suficiente para saber que, quando Damian fica em silêncio, algo dentro dele está enlouquecendo.
— Esquecer? — ele pergunta, enfim, a voz controlada demais.
— É isso mesmo que você quer?
Eu engulo seco.
— Sim. Foi um impulso. Um erro.
Ele dá uma risada baixa.
Não de humor.
De incredulidade.
— Um erro — repete.
— Você acha que o que aconteceu entre nós foi um erro?
— Acho que… não deveria ter acontecido — respondo, forçando meu coração a não sair pela boca.
— Não é profissional.
— Eu não estou preocupado com profissionalismo — ele diz, a voz mais firme.
— Estou preocupado com você.
Aquilo me desarma por um segundo.
Mas eu continuo preciso continuar.
— Damian, isso está indo longe demais. Eu não posso entrar em nada com você.
— Pode — ele corrige.
— Mas está com medo.
Isso me irrita.
Eu me viro, finalmente, e encaro ele.
— Não é medo.
— É, sim — ele rebate, dando um passo à frente.
— Você tem medo do que sente. Medo do que eu faço você sentir. Porque ontem você não parecia com medo. Você parecia entregue.
Sinto minhas bochechas queimarem.
— Não fala assim — sussurro.
Ele se inclina um pouco.
Não o suficiente para tocar, mas o suficiente para me fazer querer recuar e ao mesmo tempo avançar.
— Helena, olha para mim. — Eu tento resistir, mas não consigo. Eu olho.
— Você realmente quer que eu acredite que aquilo não significou nada?
Minha voz quase falha.
— Significou demais. É por isso que eu preciso… parar.
Os olhos dele escurecem.
— Eu não vou parar.
Meu coração erra um batimento.
— Damian…
— Não vou — ele repete, firme, decidido, perigoso.
— Você pode tentar negar o quanto quiser. Pode fingir que isso te assusta. Pode fingir que consegue ficar longe. Mas eu te conheço melhor do que você imagina.
Eu recuo um passo.
Ele avança um.
— Você está tentando se convencer — diz ele, suave.
— Não a mim.
— Eu preciso trabalhar — murmuro.
— Então trabalhe — ele responde.
— Mas não me peça para agir como se nada tivesse acontecido. Não peça para eu ignorar algo que foi real.
Meu peito aperta.
Ele não toca em mim.
Não agora.
Mas a presença dele é mais devastadora do que qualquer toque físico.
— Damian, eu preciso de espaço — digo, finalmente.
Ele me observa por alguns segundos.
Eu vejo a luta interna ali a raiva, o controle, o desejo, a vontade de me puxar para ele agora mesmo.
Mas ele respira fundo.
— Tudo bem. — Ele solta, lento.
— Eu vou te dar espaço.
Meu coração se acalma por meio segundo.
Aí ele completa,
— Mas não confunda espaço com distância.
Eu não vou me afastar.
Ele se vira e volta para o escritório dele, deixando meu corpo inteiro tremendo.
E quando eu finalmente consigo me sentar, percebo algo assustador:
Eu não sei se quero que ele pare.
Ou se quero que ele continue até que eu não consiga mais negar nada.