Respirei profundamente o ar fresco que se misturava ao cheiro da terra úmida. Mas no meio desse alívio, uma dor aguda surgiu de repente na minha têmpora, turva e ardente.
Agarrei a cabeça com as mãos, o mundo começou a girar, como se a terra quisesse me devorar, me fazer sua. A minha visão ficou turva, girando até que tudo ficou escuro. Senti o meu corpo ceder sob o peso da escuridão, o chão avançando para me receber. Cada pensamento foi arrancado da minha mente, deixando-me sozinha no abismo.
Quando acordei, senti um peso imenso nas pálpebras. Tentei abri-las lentamente, mas os meus olhos não se acostumavam com a luz do quarto. As paredes brancas me cercavam, um “mundo” clínico que contrastava com a escuridão da floresta. A minha respiração acompanhava o som rítmico das máquinas. O cheiro do remédio e o sinal sonoro fraco tornaram a minha nova realidade evidente: eu estava num hospital.
Cada respiração trazia consigo perguntas sem respostas e uma dor aguda que percorria o meu corpo. Tentei me mover, mas os fios que saíam do meu braço me prendiam à cama. Obriguei-me a ficar parada, permitindo-me lembrar de como cheguei ali.
Naquele momento, um silêncio tenso e familiar foi quebrado enquanto o meu olhar vagou para o final da cama. A figura do meu pai, ereto e carrancudo, gradualmente se tornou mais clara. A sua presença confirmou o que eu temia: não tinha sido um sonho, era tudo real.
A sua expressão refletia uma luta interna entre preocupação e distância, uma dicotomia que sempre definiu o nosso relacionamento.
Ele não disse nada a princípio, os seus olhos explorando os meus como se procurassem respostas que eu nem sabia. Eu lutava para lembrar quem me trouxe aqui.
Pai. Tentei sinalizar para ele de alguma forma.
— Verena. Foi tudo o que ele disse.
Ele se aproximou, ficando de pé ao lado da cama, com as mãos quase me tocando. Mesmo que ele não o fizesse, a sua proximidade era uma oferta silenciosa de conforto que eu não ousava aceitar.
Eu queria pedir-lhe muitas explicações, mas minhas forças me faltaram.
Mãe. Eu sinalizei. Eu odiava ser muda, queria gritar e falar com o meu pai, mas nada saía dos meus lábios. Ele olhou para mim com olhos vermelhos e inchados.
— Você deve ser forte, pequena, a sua mãe não sobreviveu ao acidente. Ele respondeu, com a voz rouca e quebrada. Senti um vazio imenso no peito, como se uma parte de mim tivesse sido arrancada. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu balançava a cabeça em descrença.
Não foi um acidente, pai. Eu queria gritar a plenos pulmões. O meu pai apenas olhou para mim, como se se tivesse entendido o que eu queria dizer. Ele nunca entendeu.
— Claro, Verena, foi um acidente. Os pneus da caminhonete estouraram, ela capotou e você foi jogada pela janela, enquanto a sua mãe ficou presa. Ele explicou em voz baixa, como se estivesse tentando me convencer de algo que não era verdade. Mas eu sabia, eu sentia isso bem no fundo. Havia algo mais, algo que ele não estava me contando.
Eles começaram a atirar na gente. Havia outros homens que não eram os nossos guardas. Eles me perseguiram pela mata. Eu caí do penhasco. Eu sei o que aconteceu. Não sou louca, pai. Eu disse, movendo os dedos apressadamente. O meu pai, sem dizer nada, levantou-se da cama onde eu estava deitada e me deu as costas.
O silêncio no quarto ficou ainda mais denso, carregado de segredos e mentiras. Senti um arrepio percorrer o meu corpo quando vi a sua reação. Eu sabia que ele tinha entendido. Por que ele não acreditou em mim? Por que ele se recusou a aceitar a verdade? A sensação de desamparo tomou conta de mim quando percebi que estava sozinho nessa.
— Você bateu a cabeça com muita força, Verena. É natural que esteja imaginando coisas. A polícia já confirmou que não havia ninguém lá, exceto os nossos guardas. Não havia ferimentos de bala. Foi um acidente. Disse papai. Mas o nó se formou na minha garganta, eu sabia que não era verdade, não foi um acidente, eu vi.
As suas palavras eram como punhais cravados no meu coração, tentando apagar as minhas memórias, a minha verdade. Mas ninguém poderia. Mesmo que a minha voz tenha sido silenciada, a minha mente e memória permaneceram intactas.
Eu sei o que vi e... era real!
— Chega, Verena! Respeite a memória da sua mãe. Não a suje com as suas fantasias.
O meu peito apertou. O pensamento de que a minha mãe não estava mais lá, de que eu nunca mais ouviria a sua voz, era uma adaga na minha alma. Mas como eu poderia ignorar o que os meus próprios olhos testemunharam? Estávamos em perigo e o meu pai ainda acreditava que foi um acidente.
Os meus pensamentos retornaram ao momento do acidente, as luzes piscando e o grito da minha mãe ainda ecoando em minhas memórias. A sua imagem, sempre tão vívida, agora desaparecerá no reino das memórias. Eu queria me apegar a ela, preservar cada fragmento do seu amor e riso dentro de mim.
Procurei desesperadamente em meu pai por algum vislumbre de conforto, mas seu olhar refletia apenas uma dureza impenetrável. Eu queria que as suas palavras fossem diferentes, que ele oferecesse conforto ou compreensão, mas eu sabia que esses desejos eram tão etéreos quanto as sombras na parede.
— O médico disse que lhe dará alta em 72 horas se tudo continuar normal. É incrível, mas você não tem nenhuma fratura ou ferimento interno, foram apenas pancadas, temos que esperar a sua evolução. Disse papai, e as minhas lágrimas rolaram livremente.
O meu pai foi embora, deixando-me sozinha neste quarto frio de hospital.