Capítulo 3
O silêncio na galeria subterrânea era absoluto, quebrado apenas pelos gemidos de dor dos homens caídos no chão e pelo som cadenciado dos passos de Breno. A poeira da confusão ainda assentava no ar carregado de mofo e tensão, mas o olhar cinzento do bilionário não vacilava: estava cravado em Mel.
Ele se aproximou com a calma assustadora de um predador que acaba de reivindicar o que é seu por direito. A postura era impecável, o terno sob medida mantinha-se sem um único amarrotado, apesar da surra brutal que acabara de distribuir.
Mel, ainda ajoelhada no palco improvisado, tremia violentamente. Os braços presos atrás das costas, a coleira de couro apertada no pescoço e a mordaça com a esfera de silicone impediam qualquer som articulado. Apenas lágrimas quentes e silenciosas cortavam a sujeira em seu rosto. O medo daquele leilão só fora superado pelo choque de ouvir a palavra ressoar pelo recinto: esposa.
Breno se ajoelhou à altura dela. Suas mãos, antes implacáveis no combate, tocaram o rosto de Mel com uma delicadeza quase inacreditável.
— Eu disse que você era minha, pequena — sussurrou ele, a voz grave e aveludada trazendo um contraste violento com o ambiente sórdido. — E ninguém toca no que é meu.
Com dedos ágeis, ele alcançou a fivela na nuca de Mel e soltou a mordaça. A esfera caiu no chão de concreto com um baque seco. Mel puxou o ar desesperadamente, o peito arfando sob o tecido do vestido rasgado, a garganta seca demais para articular palavras de imediato.
— Br-Breno... — a voz dela saiu em um sussurro rasgado, tossindo em seguida.
Sem dizer mais nada, Breno sacou um canivete tático do bolso interno do paletó e, com um único movimento preciso, cortou as cordas de seda que prendiam os pulsos dela. Ele não removeu a coleira de couro do pescoço dela; em vez disso, segurou com firmeza a pequena corrente que se prendia a ela, guiando Mel suavemente para que se levantasse. O gesto carregava um domínio absoluto, mas também uma promessa de proteção incansável.
Ele a puxou contra o peito. Mel, caindo na realidade de que fora salva, afundou o rosto no ombro dele, os braços fracos envolvendo o tórax firme de Breno enquanto soluçava sem conter.
— Calma. Acabou — murmurei Breno, pousando o queixo no topo da cabeça dela e acariciando seus cabelos. Ele olhou de relance para o agiota caído a poucos metros, sangrando, e sinalizou para os seus seguranças que invadiam o local logo atrás. — Limpem este lugar. Quero essa operação destruída e a dívida dessa família apagada da existência.
— Sim, Sr. Albuquerque — responderam os homens armados, assumindo o controle do recinto.
Breno retirou o próprio paletó e o envolveu nos ombros de Mel, cobrindo seu corpo trêmulo e escondendo as marcas de violência. Em seguida, pegou-a no colo sem qualquer esforço, mantendo a corrente de couro levemente presa entre os dedos.
O trajeto de volta para a mansão no SUV blindado ocorreu em um silêncio denso. Mel estava encolhida no banco do passageiro, envolta no paletó de Breno que ainda exalava seu marcante perfume amadeirado. Breno dirigia com uma das mãos no volante; a outra repousava sobre a coxa de Mel, uma posse silenciosa que a mantinha ancorada na realidade.
Quando o veículo finalmente cruzou os portões da propriedade dos Albuquerque e parou na garagem privativa, Breno desligou o motor e virou-se para ela.
— Você cometeu um erro grave hoje, Mel — disse ele, o tom cirúrgico e austero voltando a dominar sua voz. — Tentou resolver seus problemas sozinha com criminosos, duvidou da minha capacidade de protegê-la e colocou sua vida em risco.
Mel baixou os olhos, envergonhada. A humilhação que sofrera nas mãos do agiota e as palavras venenosas de Dona Marieta e Serena ainda ecoavam em sua cabeça.
— A sua mãe... as coisas que ela disse... — Mel engoliu em seco, encarando as próprias mãos no colo. — Eu só queria pagar o que devia. Não queria ser um fardo ou um jogo para você.
Breno segurou o queixo dela, erguendo o rosto de Mel até que seus olhos se cruzassem.
— Ninguém diz o que eu devo ou não fazer. Nem a minha mãe, nem Serena, e muito menos um agiota de quinta categoria — a pressão dos dedos dele no queixo dela era firme, mas sem dor. — Você assinou um contrato comigo. A sua dívida já era minha responsabilidade. O que você fez foi quebrar a primeira e mais importante regra: confiança.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Mel.
— Me desculpe...
— Suas desculpas não anulam a sua insubordinação — declarou Breno, o olhar cinzento tornando-se mais escuro e denso. — Você passou por um trauma hoje, e por isso vou cuidar de você esta noite. Mas amanhã, você aprenderá as consequências de desobedecer ao seu Dominador.
Ele desceu do carro, abriu a porta do passageiro e voltou a pegá-la no colo, carregando-a para dentro da mansão.
Em vez de levá-la para o quarto de funcionários nos fundos, Breno subiu as escadas majestosas diretamente para a suíte principal. Ele a colocou suavemente sobre a imensa cama de casal de lençóis de seda cinza. Com cuidado profissional, ele removeu a coleira de couro do pescoço de Mel, massageando a pele vermelha onde o acessório ficara apertado.
— Tome um banho quente. Vou pedir para servirem uma refeição reforçada — instruiu ele, de pé ao lado da cama. — Depois, você vai dormir. Amanhã cedo, o carro nos levará à universidade para efetuar a sua matrícula em Medicina.
Mel piscou, surpresa.
— Depois de tudo isso... você ainda vai pagar minha faculdade?
Breno deu um meio sorriso imperceptível, curvando-se até que seus lábios quase roçassem os dela.
— Eu cumpro todas as minhas promessas, minha pequena. Você é minha futura médica... e minha submissa. Agora vá para o banho.
Na manhã seguinte, o sol m*l havia despontado no horizonte quando Breno entrou na suíte. Ele já estava impecavelmente vestido em um terno cinza-chumbo. Mel estava acordada, vestindo roupas limpas fornecidas pelo closet do quarto, o coração na boca diante do que o dia reservava.
A ida à universidade foi rápida e eficiente. Breno não apenas assinou a transferência dos fundos como garantia para o curso inteiro de Medicina, como também exigiu que a diretoria da instituição garantisse a segurança de Mel no campus.
Ao retornarem para a mansão no início da tarde, a atmosfera relaxada da viagem evaporou assim que pisaram no hall de entrada. Breno parou no centro do corredor principal e virou-se para ela, a expressão séria.
— A parte dos negócios e da sua educação está resolvida — disse ele, desabotoando o paletó e entregando-o ao mordomo. — Agora, resolveremos a sua disciplina.
Ele estendeu a mão na direção do corredor do Quarto Vermelho.
— Caminhe até o quarto, Mel. Despida de qualquer orgulho. O seu treinamento recomeça agora.