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ANASTASIA/LIZZY
Peguei a guia de passeio do Sirius e saímos para fazer uma caminhada já que meu pequeno projeto roubou nossa corrida diária. Ele ia mais a frente com a guia esticada enquanto eu olhava a tela do meu celular. Nela havia um número com o nome logo acima dele “Helena” escrito logo acima. Odeio me sentir hesitante. Principalmente com isso.
— Que se f**a. — Murmurei tocando o botão de discar.
Um toque.
Dois toques.
Três toques.
— Alô?
Uma palavra. Uma única palavra foi o suficiente para fazer uma assassina sentir um nó se formando na garganta.
— Oi, J… Helena. Tudo bem?
— Ah, oi, tudo. Aconteceu alguma coisa?
— Não eu só… Só queria saber se podia te ver. — Eu parecia desesperada. Talvez eu realmente estivesse. — Eu tô de folga hoje, podíamos tomar um café ou ir ao shopping.
— … — O mais puro silêncio vindo do outro lado da linha. — Um café seria legal.
Nem quando cheguei aos Estados Unidos respirei tão aliviada quanto nesse momento.
— Certo eu te encontro na cafeteria de sempre em… Meia hora?
— Sim. Até daqui a pouco. — Ela não esperou que eu respondesse antes de desligar.
Respirei fundo guardando o celular no bolso da calça. O nó na minha garganta ainda estava ali, grande, impedindo que até a mínima gota de saliva descesse sem fazer meu estômago revirar. Tudo tem que dar certo.
Levei Sirius de volta para casa trocando de roupa rapidamente antes de pedir um táxi até a cafeteria. Ela não estava lá, ainda não havia chegado. Me sentei na mesa que me dava melhor visão para a porta alimentando mais ainda a minha ansiedade, pedi um chá de camomila. Eu odeio camomila, mas precisava tentar me acalmar de alguma forma.
O lugar era uma típica cafeteria. Alguns clientes, cheiro de café e tilintar de xícaras. Nada de diferente. Nada de estranho. Nada de stalker… Podia ele estar me observando agora? Onde estaria? Esse pensamento me obrigou a olhar melhor a minha volta analisando cada pessoa que cruzava os olhos com os meus de forma discreta. Estava quase me levantando para conferir o quarteirão quando o sino da porta tocou e era ela.
Caminhou sem pressa pelo pequeno caminho que me separava da porta e se aproximou sentando na cadeira à minha frente. Meu coração se apertou como se alguém de fato estivesse o segurando impedindo de bombear o sangue direito. Minha boca secou e de repente eu já não sabia mais como construir uma frase.
— Oi Ana. — Ela sorriu. Um sorriso doce e um tanto inocente.
Jude, ou melhor Helena, como foi batizada após sua adoção. Ela cresceu tanto. Você nunca está preparada para ver a criança que você trocou as fraldas se transformar em uma mulher universitária.
— Oi. — Também tentei sorrir.
Uma garçonete apareceu perguntando se ela queria algo e quebrando um pouco desse clima constrangedor. Depois que Jude foi adotada no orfanato eu nunca mais a vi ou tive notícias até desertar da Instituição. Não foi fácil conseguir as documentações da sua adoção já que o orfanato sofreu um incêndio “acidental” e boa parte da papelada virou cinzas, mas quando se trabalha nas sombras você aprende a como conseguir informações.
Jude foi adotada poucos meses depois. Ela tinha 2 anos. Foi adotada pelo casal George e Patrícia Addams, ele dono de uma vinícola e ela uma espécie de socialite, basicamente casal esnobe com grana que não conseguia ter filhos. Ela teve uma vida boa, nada faltou, teve uma infância de verdade. Enquanto ela brincava com Barbies e aprendia o ABC eu lutava até a exaustão e aprendia acertar os nervos certos para se desacordar alguém.
Ela pediu um cappuccino que chegou logo.
— É bom te ver. — Fiz uma pausa com a desculpa de soprar meu chá, mas queria apenas pensar no que dizer. — Como vai a faculdade?
— Vai bem. Estamos fazendo alguns estágios práticos agora, é bem legal. — Ela estava tão desconfortável quanto eu, claramente.
Não a culpo. Ela não se lembrava de mim quando nos reencontramos, se quer sabia que tinha uma irmã. Foi um choque.
— Você cresceu. Um pouquinho. — O sorriso dela tirou 10 quilos das minhas costas.
— Ainda está trabalhando na cafeteria do Joe? — Sutileza não era seu ponto forte.
— Estou. Quero me estabilizar. Sossego sabe? — Dei de ombros tomando meu chá.
— Sei. Mas você poderia fazer uma faculdade. Tenho certeza que tem algo que saiba fazer bem. — Ela também parou para tomar sua bebida.
Nunca contei a ela sobre minha vida. Ela acha que também fui adotada,e tive uma vida normal até perder meus pais adotivos em um acidente. É melhor assim. Não quero trazer ela para essa parte suja da minha vida, já havia relutado tanto para reencontrar ela, passei meses a olhando a distância durante o dia e chorando abraçada ao meu travesseiro à noite pela saudade que eu sentia de alguém que não sabia que eu existia. Tudo que eu quero é que ela possa ter um vida normal, a vida que eu não tive e que talvez, nunca tenha.
— Seu aniversário está chegando.
— Meu aniversário foi mês passado. — Ela franziu o cenho me olhando confusa até entender o que quis dizer. — Ah, meu aniversário de verdade…
— O que acha de comida italiana? Por minha conta. — Sorri agarrando cada gota de esperança.
— Acho que tudo bem. — Ela sorriu dando de ombros.
Eu sei que reconstruir a nossa relação levaria tempo, mas eu estava mais do que disposta a fazer de tudo para isso acontecer.