ANASTASIA
As gotas de chuva batiam forte contra as janelas do carro e as árvores passavam como borrões verdes do lado de fora. Mamãe dirigia rápido, suas mãos apertavam o couro do volante com força. Jude estava dormindo no meu colo chupando sua chupeta, em um sono profundo, eu também queria estar dormindo.
Meu braço estava doendo. A cada curva que mamãe fazia eu usava o braço para amortecer o impacto contra a porta. Ela está dirigindo realmente muito rápido.
— Aonde estamos indo mamãe? — Perguntei de novo, mesmo ela não tendo respondido a primeira vez.
— Fique quieta Anastasia! — Respondeu sem me olhar nem pelo reflexo do espelho.
O carro tinha cheiro estranho de novo, era como fumaça do cigarro, mas mais forte.
Senti meu estômago roncar, não lembro de ter comido hoje.
— Estou com fome, mamãe.
— Já mandei calar a boca! — Sua voz soou mais alto me fazendo tremer e baixar a cabeça.
Tentei ignorar os roncos do meu estômago observando o caminho. Uma estrada cercada por árvores altas e verdes, pinheiros talvez, lembro de ter visto árvores assim no livro da escola uma vez. Queria imaginar estar em outro lugar, naquele parque que vi no caminho, mamãe brincando comigo e Jude no balanço como aquela moça fazia com as filhas, abraços e beijos e coisas normais, tomar sorvete até ter dor de barriga, ganhar um beijo de boa noite e receber um “também te amo” da mamãe.
A velocidade do carro começou a diminuir, nos aproximamos de uma construção que parecia uma mansão enorme e sinistra feita de pedra escuras e com diversas janelas espalhadas. Quando o carro parou na entrada duas freiras estavam de pé vestidas em seus hábitos pareciam estar esperando por algo.
Mamãe desceu e abriu a porta de trás pegando Jude do meu colo e me puxando pelo pulso para fora me fazendo tropeçar nos próprios pés.
— Onde estamos mamãe? — Meu pulso doía.
— Quieta p***a.
A chuva despencou sobre mim me fazendo bater os dentes com o frio inesperado. Meus pés afundavam na lama do caminho de terra em direção às freiras que nos olhavam de forma indiferente.
— Aqui. — Mamãe entregou Jude para uma das freiras que começou a chorar e me empurrou para a frente da outra fazendo-me cair de joelhos no chão. — Elas são os fardos de vocês agora.
Fardos.
Então era isso que aquelas freiras estavam esperando? Estavam esperando por nós? O que estava acontecendo? Um raio cortou o céu seguido por um trovão que me fez arrepiar.
— Mamãe… — Meus olhos estavam embaçados com as lágrimas que começavam a aparecer quando ergui meus olhos para vê-la.
— Venha criança, vamos entrar. — Uma das freiras esticou a mão pra mim.
Mamãe começou a andar em direção ao carro sem olhar para trás. Me levantei ignorando a dor nos joelhos, onde ela estava indo?
— MAMÃE! — Gritei tentando correr até ela, mas sendo impedida quando a freira me segurou. — Me solta! MAMÃE! MAMÃE NÃO VAI!
— Calma minha criança, venha.
— EU QUERO MINHA MÃEZINHA! MAMÃE! MAMÃE VOLTA! — Minha garganta ardia a cada grito, mas eu não ligava, gritava com todas as minhas forças.
Mas não adiantou.
O carro deu partida a toda velocidade logo sumindo do meu campo de visão. Ela foi embora.
— Venha logo. — A freira segurou meu pulso me puxando para dentro da casa.
O lugar parecia ainda maior por dentro. O piso em xadrez preto e branco, móveis de madeira escura e uma grande escadaria, estava ainda mais frio do lado de dentro, como isso é possível?
Jude não estava mais chorando, mas seus olhos estavam inchados e vermelhos assim como os meus deviam estar, a freira que a segurava secava seu rosto com um lenço.
— Onde estamos? — Perguntei fungando.
— Em casa. — A freira soltou meu pulso colocando a mão no bolso do hábito tirando um lenço e passando pelo meu rosto. — Pelo menos por um tempo.
A casa parecia um lugar m*l assombrado silencioso, quebrado apenas pelo som distante da chuva lá fora. As freiras nos levaram por corredores sinistros e escadas velhas de madeira que rangiam, nos guiando para o que diziam ser nosso novo lar.
As freiras, mesmo diante da nossa tristeza, mantinham-se sérias. Sua roupa cinzenta parecia fazer parte da casa.
Enquanto nos levavam por um corredor, pude ver portas fechadas que pareciam esconder segredos que davam medo só de imaginar. A freira que secou minhas lágrimas olhou-me com uma expressão estranha, como se soubesse mais do que estava disposta a revelar.
Ao chegarmos ao dormitório parecia haver fileiras intermináveis de camas, a freira indicou-nos para entrar. O cheiro de mofo e a frieza das paredes tornaram a realidade inegável. Aquela não era mais a casa que eu conhecia; era um lugar desconhecido que se tornara nossa prisão.
Jude adormeceu no colchão simples, e eu fiquei ali, olhando para o teto sem saber o que o amanhã nos reservava. A tempestade lá fora continuava, assim como a tristeza que crescia no meu peito.