CAPÍTULO 2

1115 Words
Quando ele estendeu a mão para indicar o caminho, Annabella notou que ele não usava relógio, nem carregava mochila. Ele parecia perfeitamente composto, sem uma gota de suor, apesar da caminhada. Ao passarem por um corredor onde o sol batia forte, ela percebeu que ele se manteve estrategicamente na sombra, sem pressa, mas com uma precisão hipnotizante. Você não é daqui, Annabella — Luke afirmou, mais como uma constatação do que como uma pergunta. A voz dele era tão suave que parecia flutuar no corredor de mármore. — Dá para notar tanto assim? — ela brincou, tentando disfarçar o desconforto que a palidez dele e o frio que emanava de sua presença causavam. Silver Falls é uma cidade de... raízes profundas. Rostos novos brilham como faróis na neblina — ele parou diante de uma porta de carvalho maciço e a abriu com uma delicadeza sobre-humana. — Especialmente quando o pai desse rosto novo carrega uma estrela de prata no peito. Annabella sentiu um calafrio. Como ele já sabia sobre o cargo de seu pai? Notícias voam — ele completou, como se tivesse lido a confusão em seu olhar. Ele inclinou a cabeça levemente, e por um segundo, Annabella jurou que os olhos dele brilharam em um tom avermelhado sob a sombra do portal, mas foi rápido demais para ter certeza. — Bem-vinda à Introdução ao Direito. Espero que sobreviva à primeira aula. Luke abriu a porta da sala com uma elegância que beirava a reverência. Ele não entrou imediatamente; ficou parado no portal, permitindo que Annabella passasse primeiro. — Espero que aprecie a arquitetura, Annabella. Meu pai, Aiden Foster, faz questão de que cada pedra deste prédio conte uma história. Ele é o proprietário da fundação, sabe? Acredita que o Direito é a base de toda civilização... ou pelo menos do controle dela. Annabella olhou para a sala ampla, com teto de gesso trabalhado e retratos de homens antigos nas paredes. — E sua mãe? — perguntou ela, sentindo o peso daquela linhagem. Harper Foster. Ela é a diretora. Você a verá em breve; ela não costuma ignorar novos alunos com... o seu perfil. — O sorriso de Luke se alargou minimamente, revelando dentes perfeitamente alinhados. — Ela preza pela ordem. Ele caminhou até uma das últimas fileiras, onde a sombra das cortinas de veludo era mais densa, e gesticulou para a cadeira ao lado da dele. — Sente-se comigo. Como seu colega de classe, posso garantir que você não se perca nos termos latinos que o professor costuma usar. Considere um privilégio de boas-vindas A aula de Introdução ao Direito está no auge. O professor fala sobre as origens das leis humanas, mas o silêncio repentino que se abate sobre a sala não vem de um decreto acadêmico. Vem da porta. O som do giz no quadro parou abruptamente. Annabella sentiu a temperatura da sala cair ainda mais, um frio que parecia emanar do corredor. Luke, ao seu lado, empertigou-se na cadeira, sua expressão suavizando-se em uma máscara de respeito absoluto. Na porta, uma mulher de elegância cortante observava a turma. Harper Foster vestia um conjunto de alfaiataria cinza perfeitamente ajustado. Seu cabelo estava preso em um coque impecável e sua pele era tão pálida quanto a de Luke, mas seus olhos possuíam uma dureza metálica. — Por favor, professor, continue — a voz de Harper era como o estalar de gelo fino. — Só vim dar as boas-vindas à nossa mais nova adição. Ela caminhou pela sala com uma graça predatória, parando exatamente ao lado da mesa de Annabella. O perfume dela não era de flores; era algo antigo, como pergaminho e incenso de catedral. — Annabella Willis — Harper pronunciou o nome devagar, como se o estivesse saboreando. — É um prazer tê-la conosco. Espero que Silver Falls esteja sendo... receptiva. Soube que seu pai, o Xerife Thomas, já começou o trabalho de campo na nossa floresta. Annabella sentiu um nó na garganta. O olhar de Harper não era de boas-vindas; era um mapeamento. — Sim, senhora. Estamos nos adaptando — Annabella conseguiu responder. — Ótimo. Esta cidade preza pela ordem, e nós, os Foster, prezamos por quem a mantém. — Ela pousou uma mão pálida e gelada no ombro de Annabella por um segundo. — Se precisar de algo, qualquer coisa, minha porta está sempre aberta. Luke cuidará para que você não se perca... em nenhum sentido. Com um aceno de cabeça para o filho, que retribuiu com um olhar enigmático, Harper saiu da sala tão silenciosamente quanto entrou. O ar pareceu voltar a circular, mas Annabella agora tinha a nítida sensação de que era uma peça em um tabuleiro que ela ainda não compreendia. O refeitório da faculdade seguia a mesma estética gótica do restante do prédio, com longas mesas de madeira escura e vitrais que filtravam a luz acinzentada do dia. O burburinho era constante, mas Annabella sentiu que, ao entrar, alguns olhares se voltaram para ela — a filha do novo Xerife. Antes que Annabella pudesse decidir onde ficar, uma mão se ergueu de uma mesa central. — Ei, Annabella! Aqui! — exclamou Evelyn, com um sorriso vibrante. Sentados com ela estavam Leo, que rabiscava algo em um caderno, e Scarlet, que observava o movimento do refeitório com um olhar atento. — Senta com a gente — convidou Scarlet, afastando uma mochila. — Sobreviveu à primeira aula? Quando vimos a Diretora Harper entrando na sala. Ela não costuma fazer "visitas de cortesia" para qualquer um. — Foi... intimidador — confessou Annabella, sentindo-se acolhida pelo grupo. Eles começaram a falar sobre os professores e as festas da cidade, mas Annabella não conseguia evitar que seus olhos vagassem pelo recinto. No canto mais afastado, sob a sombra de um grande arco de pedra onde a luz do sol não chegava, estava a mesa de Luke Foster. A atmosfera ali era diferente: não havia bandejas de comida plástica ou refrigerantes. Luke estava cercado por seu grupo inseparável. Liam e Mason tinham uma postura ereta e vigilante, como se estivessem sempre prontos para um combate. Ella, com uma beleza etérea e gélida, mantinha um meio-sorriso enigmático, enquanto Nathan parecia focado em um tablet, sem emitir som algum. Eles conversavam em tons baixos, quase inaudíveis para o resto do salão. Luke, no entanto, não parecia totalmente presente na conversa de seu grupo. Ele estava sentado de frente para a mesa de Annabella. Seus olhos castanhos, profundos e escuros, encontraram os dela através do refeitório. Ele não acenou, apenas sustentou o olhar por um segundo a mais do que o normal, fazendo Annabella sentir aquele mesmo frio inexplicável que sentira no corredor.
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