Capítulo 1
O vento soprava do lago com uma brisa morna, espalhando o cheiro de grama pela marina e fazendo o entardecer parecer ainda mais lento. O céu era uma mistura de tons dourados e lilases, refletindo na superfície tranquila da água. Lara caminhava distraída pelo deque, a marina sempre a acalmavam. O som da natureza, o barulho dos ventos o silêncio dos humanos, tudo ali era familiar, quase íntimo. Depois de uma semana exaustiva de estágio no escritório, somada com a correria do fim do segundo ano do curso de arquitetura era o único refúgio que ainda a fazia respirar fundo sem sentir o peso da ansiedade.
Estava tão imersa em seus pensamentos que não percebeu quando alguém se aproximou por trás.
— Bonito, não é? — a voz masculina quebrou o silêncio suave do fim de tarde. Grave, segura, com um toque de ironia.
Lara se virou, ligeiramente sobressaltada, e o viu.
Alto, ombros largos, postura relaxada, uma camisa preta que realçava o contraste do tom claro da pele. O cabelo loiro-escuro um pouco desalinhado parecia desafiar o vento, e havia nele um ar de descuido calculado. Mas o que mais chamava atenção eram os olhos — um azul acinzentado, intenso e sereno ao mesmo tempo, como se tudo o que ele olhasse ganhasse uma camada de mistério.
— O pôr do sol? — perguntou ela distraida
— O pôr do sol, o lago… e você parada aí há dez minutos, observando tudo como se procurasse respostas nas cores — respondeu ele, com um meio sorriso que parecia testar os limites da curiosidade dela.
Lara arqueou uma sobrancelha, entre surpresa e desconfiada.
— Costuma observar estranhos com tanta atenção?
Ele deu de ombros, rindo baixo.
— Só quando os estranhos parecem mais interessantes que o resto do mundo.
Ela não pôde evitar o riso que escapou, breve, mas sincero.
Havia algo desarmante naquele desconhecido. Uma confiança natural, mas sem arrogância.
— Sou Dam — disse ele, estendendo a mão.
— Dam? — repetiu ela, estranhando. — Nome curto.
— Curto e seguro — respondeu. — Os nomes longos revelam demais.
Ela hesitou por um segundo antes de aceitar. — Lara.
O toque dele era firme, quente, e por um instante ela teve a sensação absurda de que o mundo desacelerava.
— Você vem muito aqui? — perguntou Dam, ainda sem soltar completamente a mão dela.
— Sempre. — Respondeu ela sem pensar— É o meu lugar de fugir.
Ele a olhou nos olhos — E eu invadi o seu esconderijo.
— Um pouco — admitiu rindo baixo. — Mas acho que o pôr do sol perdoa.
Ele mexia no celular e parecia impaciente, como se não fizesse parte daquele cenário.
Aquele era o refúgio dela e ele estava no meio dele.
Pensou em ir embora, mas algo a prendeu. Talvez a curiosidade, talvez o fato de ele parecer... fora de lugar.
— Problemas? — perguntou ela mais por impulso do que por coragem.
Ele ergueu o olhar. E por um instante, ela se arrependeu de ter falado.
O olhar dele era firme, profundo como se analisasse o que via.
— O reboque está vindo. Pelo menos é o que me prometeram há... — ele olhou o relógio — quarenta minutos.
— Aqui? — perguntou olhando ao redor. — Esse lugar é meio... escondido.
Um sorriso leve surgiu nos lábios dele. — Acho que não foi uma boa ideia tentar cortar caminho.
Ficaram em silêncio por um tempo. Ele parecia não se incomodar. Apenas olhou pro horizonte, como se aquele pôr do sol valesse o atraso.
— É parece que esse lugar relmente nos faz pensar — comentou ele despretensioso
Havia algo no tom dele — um peso escondido, uma sombra por trás do sorriso fácil. Um homem acostumado a esconder feridas debaixo de charme.
— Eu preciso ir — disse, ajustando a alça da bolsa no ombro.
— Eu te assustei? — perguntou Dam, inclinando a cabeça.
— Não. — Ela sorriu de leve. — Mas acho que não é uma boa ideia conversar com um desconhecido ao pôr do sol.
— Então me deixa consertar isso — disse ele, caminhando ao lado dela. — Podemos conversar enquanto você vai pro carro. Assim já não sou mais um desconhecido, e ainda te deixo segura e vejo se o reboque finalmente chegou.
Lara mordeu o lábio, avaliando o absurdo daquela proposta.
Mas havia algo nele, talvez a sinceridade despretensiosa, talvez o humor leve, talvez o olhar que parecia enxergá-la além do que mostrava.
— Está bem — respondeu, rindo. - Mas vou logo avisando que tenho spray de pimenta na bolsa
— Alerta recebido — disse ele, sorrindo.
Caminharam lado a lado pelo deque. Ele falava com naturalidade, fazendo perguntas simples — onde ela trabalhava, se morava por ali, o que gostava de fazer quando o mundo parecia demais. Lara respondeu de forma cautelosa, mas aos poucos se pegou relaxando. Dan tinha um jeito de conduzir a conversa que a fazia esquecer o tempo.
— Estudante de Arquitetura? — perguntou ele. — Isso explica o olhar.
— O olhar?
— Sim. Esse jeito de observar o mundo como se tudo pudesse ser reconstruído.
Ela o encarou, surpresa. — Você é sempre assim?
— Assim como?
— Intenso demais pra um fim de tarde qualquer.
Ele riu, encostando-se na mureta. — Só quando encontro alguém que vale a intensidade.
O sorriso dela vacilou, dividido entre o encanto e o receio.
Havia algo nele que a atraía e a deixava alerta ao mesmo tempo, como o fogo: bonito de olhar, perigoso de tocar.
Ao chegarem ao estacionamento, ela parou diante do carro.
— Foi um prazer, Dam.
— Prazer foi meu, Lara. — Ele se inclinou ligeiramente, o olhar fixo no dela. — E espero que não tenha sido a última vez.
Ela hesitou. — Acho que é melhor não criar expectativas.
— Expectativas não. Mas promessas, talvez.
— Promessas?
— De que esse por do sol nos reúna de novo.
Ela abriu a porta do carro e o observou por um instante.
— O acaso é traiçoeiro.
— E eu também — disse ele, sorrindo.
Ela balançou a cabeça, divertida, e entrou no carro. Antes de fechar a porta, olhou uma última vez para ele. Dam estava parado, as mãos nos bolsos, olhando para ela com aquele mesmo olhar firme e tranquilo, mas que escondia algo indomável.
Lara dirigiu de volta para casa com a sensação de que algo havia se movido dentro dela
Não sabia explicar, era como se o encontro tivesse acendido algo que ela tentava manter apagado há muito tempo.
Dam ainda permanecia ali, o atraso do reboque não incomodada mais.
Um sorriso leve curvou seus lábios.
— Lara — murmurou o nome dela, como se testasse o som.
E então, como quem faz uma promessa silenciosa, completou: — Até logo.
Os dias seguintes, permaneceram iguais, trabalho, faculdade, sem tempo de pausa para respirar.
Voltou à marina na semana seguinte para organizar a mente, e respirar livre de todo o caos. Ele apareceu quinze minutos depois e sorriu ao reconhecê-la, como se tivesse esperado exatamente por aquele momento.
— Então o acaso cumpriu a promessa — disse ele.
Lara tentou disfarçar o sorriso que teimava em surgir.
— Parece que sim.
E foi assim, com conversas que começavam simples e terminavam longas demais, com olhares que diziam mais do que palavras, que algo começou a nascer, um laço sutil, mas irresistível.
Dam parecia carregar um mundo dentro de si, e cada vez que deixava uma fresta aberta, ela se via querendo conhecer o que havia ali.
Mas também havia algo que a assustava.
Nos raros momentos em que o olhar dele perdia o brilho, ela via o peso de segredos não ditos, de dores que ele não deixava escapar.
Um dia enquanto observavam o reflexo das águas Dam falou quase num sussurro:
— Às vezes eu acho que te encontrei tarde demais.
— Tarde demais? — perguntou ela, confusa.
Ele desviou o olhar, o maxilar tenso, não explicou, só a observou, em silêncio.
Sabia que ali havia um aviso, um sinal de que aquilo era perigoso mas a razão insistia em ignorar.
Quando ele segurou a mão dela, ela não recuou.
E, naquele instante, sem promessas e sem certezas, o destino traçou a primeira linha de uma história que mudaria os dois para sempre.