O dia estava abafado, no escritório. Lara tentava se concentrar na tela, revisando o projeto pela terceira vez, mas algo dentro dela parecia inquieto — como se um pressentimento sussurrava
E então, ela sentiu.
Aquela sensação conhecida, um arrepio na nuca, uma presença.
Olhou pela parede de vidro do escritório — e o mundo pareceu encolher.
Lá estava ele, camisa preta,calça jeans e olhar fixo nela sentado na recepção.
Dam
O coração dela deu um salto. O ar sumiu por um segundo.
Ela virou-se rápido, tentando fingir que não viu. O cursor piscava na tela como uma sirene muda.
Segundos depois, uma mensagem acendeu o celular.
Dam: “Você fica linda quando finge que não me vê.”
O sangue dela gelou.
Lara: “O que você quer?”
Dam: “Precisamos conversar. Cinco minutos.”
Lara: “Vai embora. Isso está passando dos limites.”
Dam: “Já passei dos limites por você há muito tempo, menina ”
Ela apagou a conversa com as mãos trêmulas, o peito apertado.
Precisava acabar com aquilo.
Esperou alguns minutos para se a alarmantes de sair do escritório, e lá. Estava ele, o mesmo olhar, o mesmo meio sorriso que agora parecia um aviso.
— Você tá me perseguindo agora?— ela perguntou, a voz controlada, embora o corpo gritasse.
— Não. Foi só coincidência.— ele respondeu, fingindo leveza. — Acabei de voltar para o Brasil e preciso fazer uma. Mudanças em meu apartamento.
— Voltar para o Brasil? - ela pareceu confusa - Onde você estava?
- Além de nos seus pensamentos? - Provocou ele
- Não brinca comigo, Dan. Isso não é engraçado.
— Nunca foi uma brincadeira. — deu um passo à frente. — Você acha que eu trataria você como diversão?
— Eu não só acho, como tenho certeza— ela rebateu. — Suas atitudes deixaram isso bem claro - Ela se afastou, firme, voltou para o escritório pegou sua bolsa, as chaves do carro e saiu. Ele a seguiu.
— Qual é o seu problema. Você não tem outro lugar pra ir não?
Por um instante, o rosto dele endureceu, depois, ele riu, um som frio, sem humor.
— Eu estou exatamente onde devo e quero estar
Ela revirou os olhos cansada daquela conversa. — Isso já não é problema meu
E seguiu em frente, o coração aos pulos, o corpo inteiro vibrando de adrenalina.
— Lara, espera.— A voz dele ainda tinha aquele timbre grave que a fazia estremecer, mesmo contra a vontade.
Ela parou, o corpo rígido, mas o olhar firme.
— O que você quer agora, Dam?
— Só quero conversar. - Ele respirou fundo.
— Você não conversa Dam, você só oferece respostas vagas.
— Eu sei. E você tem todo o direito de me odiar. Mas me escuta, só hoje. Depois disso, se quiser, eu desapareço pra sempre.
Havia algo na voz dele — não era arrogância. Era cansaço. Um tipo de rendição.
Lara cruzou os braços.
— Fala.
— Aqui não. — Ele olhou ao redor, para os carros, as pessoas passando. — Vem comigo. Só pra conversar. Juro.
Ela o encarou com desconfiança. — Estou de carro.
— Então me segue.
Por um momento, hesitou.
Mas algo, talvez o desejo de encerrar aquele capítulo de uma vez, fez com que ela pegasse a chave e seguisse o carro dele pelas ruas estreitas até o lugar que ela conhecia bem demais.
A marina.
O sol refletia nas águas calmas. O vento soprava frio, carregado de lembranças.
Dam estacionou primeiro. Ela parou alguns metros atrás.
Ele desceu do carro e, antes que ela dissesse qualquer coisa, veio em direção ao dela e abriu a porta do passageiro.
— Posso entrar?.
— Cinco minutos.- Ela suspirou, cansada
Ele entrou, fechando a porta suavemente. Por um instante, ficaram em silêncio o som das aguas o barulho distante do vento.
Dam apoiou os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo no horizonte.
Quando falou, sua voz veio baixa, rouca.
— Eu não sei por onde começar.
— Acho melhor você descobrir, só resta quatro minutos.
Ele virou o rosto, os olhos claros buscando os dela.
— Porque eu não consigo fingir que você não existe.
Ela bufou, desviando o olhar.
— Você fez exatamente isso por dois anos
— Não foi fingimento. Foi cuidado
Lara o encarou, incrédula.
— Cuidado? Abandonar é seu jeito de cuidar ?
— Sim, naquele momento sim — Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente tenso. — Lara, eu precisei ir. Tudo entre nós era proibido desde o início — a diferença de idade, o medo, a culpa, os encontros escondidos. Eu sabia que não ia conseguir te dar o que você merecia. E quando percebi que poderia te machucar com tudo oque estava acontecendo naquele momento fui embora.
Ela riu, amarga. — É essa sua justificativa?
— Eu não tô tentando justificar. Tô tentando explicar. — A voz dele vacilou. — Não Dam, voce continua mentindo pra mim, continua me escondendo a verdade.
O silêncio que se seguiu foi doloroso.
O som do vento pareceu aumentar, o vento frio atravessando o carro como um lembrete c***l do tempo perdido.
Dam encostou a cabeça no encosto do banco, olhando para o teto.
— Você acha que foi fácil? Que eu dormia tranquilo enquanto te deixava sem respostas?
Ele riu de si mesmo, um som amargo. — Eu via teu nome piscando na tela, e apagava. Mas se eu respondesse, se eu te ouvisse, eu ia fraquejar. E eu precisava ser forte.
Ela o observou por um longo momento.
O rosto dele estava diferente — cansado, abatido, com olheiras profundas.
Mas os olhos… aqueles olhos continuavam os mesmos. Claros, intensos, perigosos.
Lara ficou em silêncio. Ele inspirou fundo, encarando o horizonte.
— Eu havia saído de um relacionamento, conturbado quanndonte conheci.
Ele virou-se para ela, e o olhar era de rendição.
— Você mesmo com a pouca idade me trazia leveza, calma, um pureza que eu não conhecia. Eu queria guarda onwue a gente tinha só para nós, porque eu tinha medo de que se o mundo soubesse podia perder tudo — ele respirou fundo - e se eu perdesse você, não ia sobrar mais nada.
As palavras pairaram no ar, pesadas, sinceras, dolorosas.
Lara manteve o olhar firme, mesmo com o coração em guerra dentro do peito.
— Mas alguém descobriu sobre a gente, alguém que não deveria descobrir, e eu fui enrolado em uma trama de mentiras que me boubaram de você, do que a agente poderia ter sido.
- Você não pensou que poderia confiar em mim? Que eu poderia ter esperado tudo se resolver se você tivesse me pedido isso? — ela perguntou.
— Não era uma opção no momento — disse ele num sussurro — Eu não sabia como aquilo ia terminar. Te deixar para trás foi a pior dor que eu senti até então - Ele sorriu de leve, triste. — Mas saber que vice seguiu sem mim, doeu ainda mais. Você me olhou como quem olhava para um passado incômodo, e eu senti que precisava te deixar ir.
Por um instante, o silêncio foi absoluto.
Depois, ele completou:
— Mas eu te amo. E esse sentimento não vai embora.
Lara sentiu o corpo estremecer.
A confissão dele soava verdadeira demais.
E perigosa demais.
— Eu te amei, mesmo na sua ausência e sem garantias que você voltaria eu te esperei— disse ela, por fim. — Por quase dois anos eu te esperei. - ela fechou os olhos, respirou fundo e tentou controlar as lágrimas que ameaçavam cair. - E quando eu te deixo partir e encontro alguém que desejar ficar você reaparece.
Dam fechou os olhos, e um músculo no maxilar dele se contraiu.
— Eu sei. E é isso que me destrói.
Ele respirou fundo, olhando pra ela como se tentasse decorar cada traço.
— A ironia é que eu voltei pra lutar pelo que perdi quando fui embora.
Lara virou o rosto, os olhos marejados.
— Então por que me procurar? Por que me fazer reviver tudo isso?”
— Porque eu precisava te dizer a verdade. Pra que, você saiba que te deixar aqui não foi uma escolha fácil pra mim.
Ela ficou em silêncio, as lágrimas queimando os olhos.
Dam estendeu a mão, hesitante, mas ela recuou. — Eu só queria ver você uma última vez. Ouvir sua voz. Sentir que, em algum lugar, ainda existe o que a gente foi.
Lara virou o rosto, o coração batendo rápido.
— Você precisa ir, Dam.
Ele abriu a porta, o ar frio entrando no carro.
Antes de sair, se inclinou ligeiramente e sussurrou:
— Eu te prometi que desapareceria se você quisesse. Mas se um dia ele te fizer chorar… você sabe onde me encontrar, você tem meu número.
Ele deu um beijo breve em seus lábios e saiu sem dizer mais nada, a porta se fechou com um estalo suave.
Dam caminhou até o carro dele, e Lara o observou pelo retrovisor, o corpo inteiro tremendo.
Ele já estava a alguns passos de distância quando parou.
O vento batia contra o rosto dele, o barulho do vento misturado ao som acelerado do próprio coração.
Ele virou-se, indeciso — e, em um impulso que nem ele mesmo entendeu, voltou.
Lara levantou a cabeça, surpresa, quando a porta do passageiro se abriu novamente.
Antes que pudesse reagir, Dam a puxou com firmeza, o corpo dele colidindo contra o dela.
O gesto não era violento — era desesperado, um pedido mudo de algo que ele já sabia que tinha perdido.
— Dam… — ela tentou dizer, mas a voz se perdeu no ar.
Ele a segurou pela cintura, o olhar fixo no dela — um olhar que dizia tudo o que as palavras já não alcançavam.
Num movimento lento, quase reverente, ele a ergueu e a sentou sobre o capô do carro, a respiração dos dois misturada no frio da noite.
O silêncio foi rompido apenas pelo som do mar, até que ele murmurou, baixo, rouco:
— Daniel... meu nome é Daniel.
E então o beijo aconteceu.
Foi urgente, sofrido, cheio de tudo o que havia ficado preso — saudade, culpa, raiva, amor.
Não havia espaço para razão, só o peso dos anos de silêncio e o reencontro de dois corpos que ainda se reconheciam, mesmo quando a mente gritava que era errado.
Quando ele se afastou, o olhar dele estava carregado de tudo que não podia dizer.
A mão dele ainda pousava sobre a cintura dela, trêmula.
— Se você me permitisse — murmurou, quase sem voz — eu te faria minha. Sem culpa, sem remorso. De verdade.
Lara fechou os olhos, tentando conter o tremor que a tomou inteira, mas não disse nada.
Mas quando os abriu, ele já estava recuando, o rosto sério, o olhar perdido entre arrependimento e desejo.
Dam deu um passo para trás, respirou fundo e completou, com a voz embargada:
— Me parece que te deixar ir seja a única forma que eu tenho de te amar direito.
Ele se virou, caminhou de volta até o carro dele e partiu sem olhar para trás.
Lara permaneceu sentada no capô, as mãos no peito, tentando entender se o que sentia era alívio, ou a dor devastadora de um amor que não sabia morrer.
Quando as luzes do carro dele desapareceram na estrada, ela deixou que as lágrimas caíssem, silenciosas.