Capítulo 7

1133 Words
O café no centro da cidade tinha o tipo de charme que só os lugares escondidos entre ruas antigas sabiam ter, luz amarelada, mesas pequenas de madeira, o som suave de talheres e o aroma doce de café moído misturado com canela. Do lado de fora, o fim de tarde derramava tons dourados sobre o vidro das vitrines. Lara estava ali com suas amigas, celebrando aniversário de vinte e um anos oficialmente. A “vida adulta oficial”, como todas brincavam. — Agora acabou a fase de desculpas — disse Júlia, rindo. — Com vinte e um, você já tem que saber quem é, o que quer, e como vai pagar o próprio aluguel! — Ah, ótimo já querem me despejar da casa dos meus pais e me fazer pagar aluguel — respondeu Lara, rindo e balançando a cabeça. — m*l consigo decidir o que quero pedir do cardápio. As outras gargalharam, e por um instante tudo parecia leve. Lara se sentia feliz, de verdade. Um pouco perdida, sim, mas finalmente em paz — ou algo perto disso. Enquanto mexia distraída na xícara, algo do lado de fora chamou sua atenção. Encostado no batente da porta, conversando com o garçom, estava um rosto que ela reconheceria mesmo em meio a uma multidão. Gabriel. Cabelos castanhos bagunçados pelo vento, camiseta simples, sorriso fácil e aquele olhar azul que parecia iluminar até os lugares mais escuros. Ele olhou para dentro. E a encontrou. O sorriso dele se abriu instantaneamente um daqueles sorrisos que parecem espontâneos demais para serem ensaiados. Lara sentiu o coração tropeçar dentro do peito. Quando ele entrou, o ar pareceu mudar de densidade. Havia algo em Gabriel, uma calma que carregava energia, uma presença que não pedia espaço, mas o preenchia naturalmente. — Então… — disse ele, parando ao lado da mesa com um sorriso travesso — a aniversariante sobreviveu as primeiras horas da vida adulta? — Gabriel! — exclamou Lara, rindo, surpresa. — Não esperava encontrar voce aqui? — Sinceramente? — ele inclinou a cabeça, fingindo pensar. — Acho que depois que me negou um café eu precisei vir sozinho. Ou talvez o destino só quisesse me lembrar que você tem uma dívida comigo. Lara arqueou uma sobrancelha. — Uma dívida? — Claro. Depois de te salvar das chaves perdidas no estacionamento, não ganhei nem um “obrigado” decente. — Ei! Eu agradeci! — Agradeceu, mas me negou um café — Ele se aproximou um pouco mais, apoiando o braço na cadeira ao lado. — Achei que podia te dar uma chance de se redimir… ou piorar a dívida. As amigas riram, claramente encantadas. Uma delas, a mais ousada, comentou: — Então você é o famoso Gabriel! O salvador de chaves. A gente achou que fosse invenção dela. Ele riu, genuinamente. — Invenção? Eu sou uma lenda local. Lara revirou os olhos, rindo. — Um convencido. — Só um pouco — disse ele, levantando as mãos num gesto inocente. — Mas não se preocupe. Hoje estou aqui em missão pacífica. Só quero um café e talvez... um número de telefone. — Direto ao ponto, hein? — ela provocou, escondendo o sorriso. — Acho que o café me deixa corajoso. — Ele olhou para ela de um jeito leve, mas firme, como quem não precisa dizer o que está sentindo para ser entendido. A conversa seguiu fácil, sem pausas incômodas. Gabriel era engraçado, espirituoso, mas também sabia ouvir — e isso o tornava irresistível de um jeito tranquilo. Ele fazia piadas sobre o caos do trânsito, sobre como sempre pedia o café errado, e sobre o quanto o mundo parecia menor quando a gente parava para observar. Lara se pegou rindo, e percebeu que fazia tempo que não ria assim — sem pensar em nada, sem medo, sem dor. — E o que você faz da vida, além de salvar garotas distraídas com chaveiros? — perguntou ela, curiosa. — Tento não me meter em confusão — respondeu ele, sorrindo. — Mas, ultimamente, parece que o destino não tá colaborando. Ela riu. — Então você é um azarado charmoso. — Prefiro pensar que sou um otimista persistente. — Ele inclinou-se um pouco mais. — Mas você… o que faz quando não está me devendo cafés ou fugindo de aniversários? — Tento sobreviver à pós-faculdade — respondeu, meio irônica. — Estou naquela fase de “preciso de um emprego, pra ter experiência mas preciso de experiência para ter um emprego e nesse meio tempo descobrir quem sou eu na vida adulta. — Ah, o clássico dilema dos vinte e um — disse ele, com um sorriso empático. — A boa notícia é que ninguém sabe quem é nessa idade. A má notícia é que a gente finge o tempo todo. Ela riu, balançando a cabeça. — Isso foi profundo demais pra um simples café de fim de tarde. — É o efeito do espresso duplo — brincou ele, e ela percebeu que, mesmo nas piadas, havia algo genuíno, sincero, sem máscaras. O tempo passou sem que percebessem. O café esvaziava, o sol descia pelas vidraças, e a cidade lá fora começava a acender suas luzes. — Acho que te roubei das amigas por tempo demais — disse Gabriel, levantando-se. — Mas antes que eu vá, posso te cobrar oficialmente a tal dívida? Lara arqueou uma sobrancelha, divertida. — Que dívida agora? — Aquela que diz que você me deve uma chance de ser salvo também. — Ele estendeu o celular, o olhar brincalhão, mas a voz carregando algo que ia além da brincadeira. — Então, me dá seu número antes que o destino se canse de juntar a gente. Ela hesitou por um segundo, mas o jeito dele tornava difícil negar qualquer coisa. Pegou o celular e digitou o número. — Aí está - disse ela, sorrindo. — Use com moderação. — Não posso prometer moderação — respondeu ele, piscando. - Eu me apego fácil as lindas surpresas que a vida me trás. Eles saíram juntos até a calçada. O ar da manhã estava fresco, e o vento brincava com os cabelos dela. Gabriel parou por um instante, observando-a. — Parabéns, Lara. Que os vinte e um sejam bons com você. E, se não forem, me chama. Sou bom em resgates. Ela riu, balançando a cabeça. — Espero não precisar, mas… obrigada — Espero que precise — respondeu ele, meio brincando, meio sério. E então se afastou, o som das passadas se misturando ao burburinho da cidade. Lara ficou parada por um instante, vendo-o desaparecer entre as luzes. O coração batia rápido, e ela sentia algo diferente não aquele peso que Dam deixava, mas uma sensação leve, viva, cheia de possibilidades. Como se, pela primeira vez em muito tempo, o universo estivesse abrindo uma porta, e ela finalmente tivesse coragem de atravessar.
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