Durante as semanas seguintes, Lara passou a viver entre dois mundos:
o cotidiano previsível da faculdade e do escritório, cheios de rotinas, relógios e projrtos e aquele outro, escondido, onde o tempo parecia suspenso, sempre à beira da água.
A marina era o seu segredo.
Era ali que o silêncio dizia mais do que qualquer palavra.
O vento, o balanço das aguas e o som distante de gaivotas se misturavam ao palpitar do coração dela cada vez que ele aparecia.
Dam nunca avisava. Às vezes chegava antes dela, outras, chegava quando o céu se dissolvia em tons alaranjados, e as luzes dos postes refletiam nas águas.
Ela nunca sabia quando seria, e talvez fosse isso que a mantivesse presa.
Esperar por ele era como respirar em segredo.
Nas primeiras vezes, o diálogo era curto.
— Está fugindo de alguma coisa? — ele perguntou um dia, sem encará-la.
— Talvez de mim mesma — respondeu ela.
Ele soltou um riso abafado, mas o olhar não acompanhou o sorriso. — Péssimo lugar pra se esconder, sabia?
— É você, por que está aqui ? — devolveu.
Dam hesitou. A respiração dele era lenta, como se pesasse cada palavra.
— Porque eu sou fraco. — E olhou para ela, finalmente. — E você… perigosa demais pra quem ainda não sabe o poder que tem.
Lara fingiu que riu, mas sentiu o rosto corar.
Dam sempre falava assim, com aquele tom entre o desejo e o medo.
Como se quisesse afastá-la, mas estivesse sempre prestes a ceder.
Naquela tarde, ele estava diferente.
Havia algo na maneira como o sol tocava o rosto dele, na sombra da barba, no olhar que parecia cansado e faminto ao mesmo tempo.
Quando ele se aproximou, o ar ficou denso.
O toque veio quase sem intenção — os dedos afastando uma mecha de cabelo do rosto dela, o polegar roçando de leve sua pele.
Foi um gesto breve, mas o corpo inteiro dela reagiu como se algo dentro tivesse sido aceso.
— Sabe que não devia estar aqui, não sabe? — ele disse, rouco.
— Aqui onde? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Comigo.
O silêncio pesou.
A água batia no deque em compassos lentos.
Lara engoliu em seco. — Então por que ainda vem?
Dam desviou o olhar, e por um instante ela achou que ele fosse embora.
Mas em vez disso, ele deu um passo à frente.
Tão perto que ela pôde sentir o calor do corpo dele, o perfume amadeirado
— Porque eu não sei mais ficar longe. — A voz saiu quase num sussurro.
O beijo veio como um tropeço no destino.
Não foi planejado, não foi esperado.
Ela apenas encostou o rosto no dele antes que a razão tivesse tempo de protestar.
Foi breve, intenso, urgente — e, ao mesmo tempo, assustadoramente certo.
Quando se afastaram, Dam respirava fundo, como quem tenta puxar de volta o ar que o beijo levou.
— Isso não devia ter acontecido — murmurou.
Lara sorriu de canto. — Mas aconteceu.
E o destino, cúmplice, se calou.
Depois daquele dia, o mundo deles ganhou outra forma.
Os encontros se tornaram mais frequentes — e mais perigosos.
Mensagens apagadas, horários improvisados, desculpas m*l contadas.
Ela aprendeu a mentir com a naturalidade de quem esconde o que mais quer proteger.
Às vezes, Dam aparecia exausto, o semblante sombrio, como se o próprio peso do mundo o seguisse até ali.
Outras vezes, chegava sorrindo, os olhos leves, o toque mais ousado, como se esquecesse por instantes do que os separava.
— Você devia estar na faculdade e não aqui — ele dizia, mas já a puxava pela cintura.
— E você devia estar em outro lugar — ela retrucava, prendendo o olhar no dele.
— Eu estou exatamente onde não devia. — E a beijava.
As horas na marina pareciam roubadas do tempo.
Conversavam pouco, mas o que diziam ficava gravado.
Falavam de tudo e de nada — das ondas, do céu, de livros, de lembranças que pareciam doer só de lembrar.
Dam raramente falava de si.
Mas, quando o fazia, o ar mudava.
Contava fragmentos — uma infância, uma sonho antigo, alguém que o marcou de um jeito que ele ainda tentava apagar.
— Às vezes acho que nasci pra consertar o que já vem quebrado — confessou, numa dessas tardes.
Lara o observava em silêncio, o coração apertado.
— E quem te conserta? — perguntou, num fio de voz.
Ele desviou o olhar. — Ninguém.
O nome dela ficou preso na garganta dele tantas vezes que chegou a doer.
Era como se cada vez que dizia Lara, o mundo ficasse um pouco mais difícil de deixar.
Havia entardecer em que ela o esperava e ele não aparecia.
O telefone permanecia em silêncio.
Ela fingia que não se importava, mas a ansiedade a denunciava.
E quando ele finalmente voltava, com o olhar cansado e o corpo frio, bastava um toque pra que todo o orgulho dela se rendesse.
Certa vez, chovia.
A marina estava quase deserta, e Lara se abrigava sob a pequena cobertura de madeira.
Dam chegou encharcado, a camisa grudada no corpo, o cabelo pingando.
— Você veio — ela disse, aliviada.
— Eu disse que tentaria.
— Tentar não é o mesmo que vir.
Ele riu, e o som foi quase um pedido de desculpas.
— Às vezes, eu desapareço pra te proteger.
— E às vezes, eu acho que é o contrário.
— O contrário?
— Que você desaparece pra se proteger de mim.
Dam a olhou de um jeito que a fez esquecer o frio.
— Talvez seja isso mesmo.
Ela deu um passo à frente.
— E isso te impede de sentir?
Ele respirou fundo. — Não. Só me obriga a esconder.
A chuva engrossou. O barulho das gotas se misturava às batidas do coração dela.
Quando ele encostou a testa na dela, ela sentiu que tudo o que era errado se tornava inevitável.
Com o tempo, o desejo deu lugar a algo mais fundo, mais silencioso.
Dam começou a perguntar sobre a faculdade, sobre o estágio no ecritorio, sobre o novo projeto.
— Você fala deles com brilho nos olhos — dizia ele, encostado no banco observando-a gesticular.
— É o que eu sei fazer — respondia. — Projetar sonhos.
— Cuidado é perigoso. — murmurou. — Faz a gente criar laços onde não devia.
— Então por que não foge? — provocou.
— Porque, quando te vejo, eu esqueço de ter medo.
Era verdade.
Lara tinha algo que o desarmava.
Não era só a beleza, mas a calma.
Um tipo de força silenciosa, que fazia o caos dele se aquietar.
Ela também se transformava.
As incertezas que antes a assustavam agora pareciam pequenas perto da intensidade daquele sentimento.
Certa noite, quando o sol já se.despedia Dam a esperava sentado no banco próximo ao seque.
Mas pela primeira vez ela não apareceu, e naquele momento, na ausência dela ele soube que estava totalmente rendido a ela.
Ele sorriu, e a melodia preencheu o ar.
A marina virou o refúgio e a prisão dos dois.
Os sorrisos roubados, os toques escondidos, o medo constante de que alguém descobrisse.
Cada beijo era uma aposta contra o destino, e cada despedida, um pequeno adeus.
Mas mesmo quando o medo apertava, nenhum dos dois conseguia ir embora.
Havia algo entre eles — uma espécie de verdade que resistia às explicações.
Um dia, quando o sol se punha Dam segurou o rosto dela entre as mãos e disse:
— Se um dia eu sumir de vez, promete que não vai me procurar.
Lara arregalou os olhos. — Está me pedindo pra te esquecer?
— Estou pedindo pra seguir sem mim.
Ela mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas. — E se eu não quiser?
— Você não terá escolha - finalizou ele e a beijou como quem se despede antes mesmo de partir.
Aquele amor proibido se tornou uma chama teimosa — alimentada por tudo o que não podia ser dito.