Capítulo 3

1333 Words
Durante as semanas seguintes, Lara passou a viver entre dois mundos: o cotidiano previsível da faculdade e do escritório, cheios de rotinas, relógios e projrtos e aquele outro, escondido, onde o tempo parecia suspenso, sempre à beira da água. A marina era o seu segredo. Era ali que o silêncio dizia mais do que qualquer palavra. O vento, o balanço das aguas e o som distante de gaivotas se misturavam ao palpitar do coração dela cada vez que ele aparecia. Dam nunca avisava. Às vezes chegava antes dela, outras, chegava quando o céu se dissolvia em tons alaranjados, e as luzes dos postes refletiam nas águas. Ela nunca sabia quando seria, e talvez fosse isso que a mantivesse presa. Esperar por ele era como respirar em segredo. Nas primeiras vezes, o diálogo era curto. — Está fugindo de alguma coisa? — ele perguntou um dia, sem encará-la. — Talvez de mim mesma — respondeu ela. Ele soltou um riso abafado, mas o olhar não acompanhou o sorriso. — Péssimo lugar pra se esconder, sabia? — É você, por que está aqui ? — devolveu. Dam hesitou. A respiração dele era lenta, como se pesasse cada palavra. — Porque eu sou fraco. — E olhou para ela, finalmente. — E você… perigosa demais pra quem ainda não sabe o poder que tem. Lara fingiu que riu, mas sentiu o rosto corar. Dam sempre falava assim, com aquele tom entre o desejo e o medo. Como se quisesse afastá-la, mas estivesse sempre prestes a ceder. Naquela tarde, ele estava diferente. Havia algo na maneira como o sol tocava o rosto dele, na sombra da barba, no olhar que parecia cansado e faminto ao mesmo tempo. Quando ele se aproximou, o ar ficou denso. O toque veio quase sem intenção — os dedos afastando uma mecha de cabelo do rosto dela, o polegar roçando de leve sua pele. Foi um gesto breve, mas o corpo inteiro dela reagiu como se algo dentro tivesse sido aceso. — Sabe que não devia estar aqui, não sabe? — ele disse, rouco. — Aqui onde? — perguntou, mesmo sabendo a resposta. — Comigo. O silêncio pesou. A água batia no deque em compassos lentos. Lara engoliu em seco. — Então por que ainda vem? Dam desviou o olhar, e por um instante ela achou que ele fosse embora. Mas em vez disso, ele deu um passo à frente. Tão perto que ela pôde sentir o calor do corpo dele, o perfume amadeirado — Porque eu não sei mais ficar longe. — A voz saiu quase num sussurro. O beijo veio como um tropeço no destino. Não foi planejado, não foi esperado. Ela apenas encostou o rosto no dele antes que a razão tivesse tempo de protestar. Foi breve, intenso, urgente — e, ao mesmo tempo, assustadoramente certo. Quando se afastaram, Dam respirava fundo, como quem tenta puxar de volta o ar que o beijo levou. — Isso não devia ter acontecido — murmurou. Lara sorriu de canto. — Mas aconteceu. E o destino, cúmplice, se calou. Depois daquele dia, o mundo deles ganhou outra forma. Os encontros se tornaram mais frequentes — e mais perigosos. Mensagens apagadas, horários improvisados, desculpas m*l contadas. Ela aprendeu a mentir com a naturalidade de quem esconde o que mais quer proteger. Às vezes, Dam aparecia exausto, o semblante sombrio, como se o próprio peso do mundo o seguisse até ali. Outras vezes, chegava sorrindo, os olhos leves, o toque mais ousado, como se esquecesse por instantes do que os separava. — Você devia estar na faculdade e não aqui — ele dizia, mas já a puxava pela cintura. — E você devia estar em outro lugar — ela retrucava, prendendo o olhar no dele. — Eu estou exatamente onde não devia. — E a beijava. As horas na marina pareciam roubadas do tempo. Conversavam pouco, mas o que diziam ficava gravado. Falavam de tudo e de nada — das ondas, do céu, de livros, de lembranças que pareciam doer só de lembrar. Dam raramente falava de si. Mas, quando o fazia, o ar mudava. Contava fragmentos — uma infância, uma sonho antigo, alguém que o marcou de um jeito que ele ainda tentava apagar. — Às vezes acho que nasci pra consertar o que já vem quebrado — confessou, numa dessas tardes. Lara o observava em silêncio, o coração apertado. — E quem te conserta? — perguntou, num fio de voz. Ele desviou o olhar. — Ninguém. O nome dela ficou preso na garganta dele tantas vezes que chegou a doer. Era como se cada vez que dizia Lara, o mundo ficasse um pouco mais difícil de deixar. Havia entardecer em que ela o esperava e ele não aparecia. O telefone permanecia em silêncio. Ela fingia que não se importava, mas a ansiedade a denunciava. E quando ele finalmente voltava, com o olhar cansado e o corpo frio, bastava um toque pra que todo o orgulho dela se rendesse. Certa vez, chovia. A marina estava quase deserta, e Lara se abrigava sob a pequena cobertura de madeira. Dam chegou encharcado, a camisa grudada no corpo, o cabelo pingando. — Você veio — ela disse, aliviada. — Eu disse que tentaria. — Tentar não é o mesmo que vir. Ele riu, e o som foi quase um pedido de desculpas. — Às vezes, eu desapareço pra te proteger. — E às vezes, eu acho que é o contrário. — O contrário? — Que você desaparece pra se proteger de mim. Dam a olhou de um jeito que a fez esquecer o frio. — Talvez seja isso mesmo. Ela deu um passo à frente. — E isso te impede de sentir? Ele respirou fundo. — Não. Só me obriga a esconder. A chuva engrossou. O barulho das gotas se misturava às batidas do coração dela. Quando ele encostou a testa na dela, ela sentiu que tudo o que era errado se tornava inevitável. Com o tempo, o desejo deu lugar a algo mais fundo, mais silencioso. Dam começou a perguntar sobre a faculdade, sobre o estágio no ecritorio, sobre o novo projeto. — Você fala deles com brilho nos olhos — dizia ele, encostado no banco observando-a gesticular. — É o que eu sei fazer — respondia. — Projetar sonhos. — Cuidado é perigoso. — murmurou. — Faz a gente criar laços onde não devia. — Então por que não foge? — provocou. — Porque, quando te vejo, eu esqueço de ter medo. Era verdade. Lara tinha algo que o desarmava. Não era só a beleza, mas a calma. Um tipo de força silenciosa, que fazia o caos dele se aquietar. Ela também se transformava. As incertezas que antes a assustavam agora pareciam pequenas perto da intensidade daquele sentimento. Certa noite, quando o sol já se.despedia Dam a esperava sentado no banco próximo ao seque. Mas pela primeira vez ela não apareceu, e naquele momento, na ausência dela ele soube que estava totalmente rendido a ela. Ele sorriu, e a melodia preencheu o ar. A marina virou o refúgio e a prisão dos dois. Os sorrisos roubados, os toques escondidos, o medo constante de que alguém descobrisse. Cada beijo era uma aposta contra o destino, e cada despedida, um pequeno adeus. Mas mesmo quando o medo apertava, nenhum dos dois conseguia ir embora. Havia algo entre eles — uma espécie de verdade que resistia às explicações. Um dia, quando o sol se punha Dam segurou o rosto dela entre as mãos e disse: — Se um dia eu sumir de vez, promete que não vai me procurar. Lara arregalou os olhos. — Está me pedindo pra te esquecer? — Estou pedindo pra seguir sem mim. Ela mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas. — E se eu não quiser? — Você não terá escolha - finalizou ele e a beijou como quem se despede antes mesmo de partir. Aquele amor proibido se tornou uma chama teimosa — alimentada por tudo o que não podia ser dito.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD