Capítulo 4

1600 Words
A noite começava a se instalar sobre a cidade como um lençol pesado de ar quente. O vento trazia o cheiro do asfalto molhado e das árvores que cercavam a rua onde Lara esperava, o celular apertado entre os dedos. Dam não havia mandado mensagem, só uma ligação rápida, há menos de uma hora: Desce daqui a pouco. Quero te ver.” Nada mais. Nenhum motivo, nenhuma explicação. Ela hesitou por longos minutos antes de sair de casa. Algo nela sabia que aquele encontro seria diferente, ele nunca a buscava em casa. O farol do carro dele apareceu na esquina, cortando a penumbra. O motor soava grave, discreto. Quando o veículo parou diante dela, o vidro escuro baixou lentamente, e o rosto dele surgiu sob a luz alaranjada do poste. Dam estava mais bonito do que ela lembrava, mas também mais distante. A barba por fazer, os cabelos loiros bagunçados, os olhos de um cinza frio que pareciam sempre carregar algo não dito. O porte dele enchia o carro, ombros largos, postura relaxada, mas com uma tensão silenciosa no maxilar. — Entra — disse apenas, a voz baixa, rouca, quase um convite e uma ordem ao mesmo tempo. Lara entrou, o coração acelerado. O ar dentro do carro tinha o cheiro dele, uma mistura de perfume amadeirado e sabonete. O rádio tocava uma música lenta, quase imperceptível. — Pra onde estamos indo? — perguntou ela, olhando pela janela. — Pra qualquer lugar que não seja aqui — respondeu ele, sem desviar o olhar da estrada. A forma como ele segurava o volante denunciava o que sentia: os dedos firmes, o olhar perdido em algo que não era apenas o trânsito. Ela o observava de perfil, o rosto parcialmente iluminado pelos postes. Era bonito de um jeito inquietante, o tipo de beleza que não conforta, que perturba. — Está estranho hoje — disse ela. Dam sorriu de canto, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Você sempre diz isso — E sempre estou certa. Ele respirou fundo, encostando o cotovelo na janela aberta. — Talvez eu só esteja cansado. Lara sabia que era mentira. Havia algo mais ali. Um peso diferente. O carro atravessou ruas cada vez mais desertas até parar em um estacionamento à beira da estrada, de onde se via parte da cidade e as luzes distantes refletindo no rio. Dam desligou o motor e ficou em silêncio. — Por que me trouxe aqui? — ela perguntou, tentando decifrá-lo. Ele demorou alguns segundos antes de responder. — Porque eu precisava te ver sem ninguém por perto. As palavras o traíaram, havia urgência nelas, um tom de despedida disfarçado. Lara se virou no banco, encarando-o. Ela era pequena, os ombros estreitos, a pele clara refletindo a luz pálida do painel. Mas o olhar — ah, o olhar — tinha uma força inesperada, firme, desafiadora. Ela o encarava como quem não teme o que sente, mesmo quando sabe que vai doer. — Você está indo embora, não está? — perguntou. Dam desviou o olhar, um músculo saltando na mandíbula. — Eu só... preciso resolver algumas coisas. — Com alguém? — O silêncio que veio foi resposta suficiente. Lara se recostou no banco, cruzando os braços. — Eu sabia. Dam a observou. Ela parecia frágil, tão pequena dentro daquele carro enorme, os dedos trêmulos sobre o jeans rasgado, o cabelo preso de qualquer jeito. Mas havia algo na maneira como o queixo dela se erguia que o desarmava completamente. — Não é o que você pensa — murmurou ele, finalmente. — Então me explica. Dam respirou fundo. — Eu não posso. Ela soltou uma risada breve, sem humor. — Você nunca pode. Por um momento, o som do vento preenchendo o carro foi tudo o que restou. Ele se virou para ela, os olhos escurecidos pela sombra. — Lara, olha pra mim. Ela hesitou, mas obedeceu. Os olhares se encontraram e naquele instante, tudo o que era proibido se fez presente. Dam aproximou-se, devagar, como quem tem medo de quebrar algo. A mão dele pousou sobre o banco, perto da perna dela, o toque quase imperceptível, mas suficiente para incendiar o ar entre os dois. — Eu queria que fosse simples — sussurrou ele. — Que fosse certo. Lara sentiu o coração bater no pescoço. — E por que não é? Ele a olhou de um jeito que fez o tempo parar. — Porque tudo em mim é complicado. Ela quis dizer algo, qualquer coisa, mas a voz falhou. Dam inclinou-se, e por um segundo ela achou que ele fosse beijá-la. Mas ele parou a poucos centímetros, o hálito quente misturado ao perfume. — Você devia me odiar — murmurou ele. — Facilitaria tudo. Ela respondeu sem pensar: — Eu não sei odiar você. Os rostos ficaram próximos demais, e foi Dam quem cedeu. O beijo aconteceu como um segredo roubado do tempo breve, tenso, cheio de promessas que os dois sabiam que não podiam cumprir. Quando se afastaram, o silêncio se tornou quase insuportável. Dam manteve o olhar preso nela, o peito subindo e descendo devagar. — Eu não devia ter vindo — disse ele, baixinho. — Mas veio — respondeu ela. — Como sempre. Ele fechou os olhos, encostando a testa no volante. Lara o observou, o rosto sereno, mas os olhos marejados. Algo dentro dela dizia que aquele seria o fim e que ele não voltaria tão cedo. O silêncio dentro do carro era quase palpável. Do lado de fora, as luzes da cidade tremulavam como vaga-lumes distantes. Lara ainda sentia o gosto do beijo uma mistura de urgência e incerteza e o coração batendo rápido, tentando entender o que ele não dizia. Dam mantinha os olhos fixos no nada à frente, o maxilar tenso, como se procurasse as palavras certas dentro de um labirinto. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio. — Por que me trouxe aqui? De verdade. Dam demorou para responder. O som da respiração dele era baixo, controlado. Por fim, ele virou o rosto para ela, o olhar cansado, porém firme. — Porque eu precisava te ver antes de ir. Lara sentiu o corpo gelar. — Ir pra onde? Ele balançou a cabeça devagar. — Não importa. — Pra mim importa. Dam encostou as costas no banco, respirando fundo. O cheiro do perfume dela se misturava ao dele, e por um momento, ele fechou os olhos. Quando falou novamente, a voz saiu rouca, quase um sussurro: — Eu precisava te ver pra ter o teu cheiro preso em mim. A frase ficou suspensa no ar, como se o tempo parasse só para que ela pudesse doer. Lara ficou imóvel, as palavras ecoando dentro dela. Não havia como responder. Tudo que conseguiu foi olhá-lo, e naquele olhar estava o que nenhum deles ousava dizer em voz alta. Dam virou-se levemente, aproximando-se dela. — Não tenta entender, Lara. Às vezes é melhor guardar o que foi bonito e deixar o resto quieto. Ela piscou rápido, tentando conter as lágrimas. — E eu sou o resto? — Não. — Ele negou de imediato. — Você é o que ficou bonito. Por um momento, os dois ficaram apenas se olhando, e o barulho distante da estrada parecia vir de outro mundo. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar percorrendo devagar a linha da mandíbula. O toque era terno, mas havia nele uma urgência contida, como se quisesse memorizar cada detalhe antes de perder. — Eu não quero que isso acabe — disse ela, com a voz trêmula. Dam abaixou a cabeça, encostando a testa na dela. — Eu também não. Mas às vezes, o querer não muda nada. O vento soprou pela janela entreaberta trazendo o cheiro da noite. Ele a observou por um instante, o olhar sombrio, quase pedindo desculpas por algo que ainda não fizera. — Não demore para me esquecer — ele disse, meio como um aviso, meio como um consolo. — E você? Vai conseguir assim tão facial? - perguntou ela baixinho Dam desviou o olhar, um sorriso breve, triste. — Eu nunca esqueço o que me destrói. Lara não sabia se aquilo era um elogio ou uma confissão. - Você não vai voltar, não é? - ela perguntou o coração já falhando uma batida. - Não vou - ele a encarou - E é por isso que você precisa esquecer tudo que aconteceu. Vai ser melhor assim. O silêncio voltou, e desta vez foi diferente: mais pesado, mais real. Dam ligou o carro, as luzes do painel iluminando o rosto dos dois. Ele não disse pra onde ia, nem quanto tempo ficaria longe. A estrada parecia se estender infinitamente à frente, e Lara percebeu que cada quilômetro a afastava do que eles foram. Ninguém falou durante o caminho. Apenas o som do motor e o vento cortando a noite. Quando ele estacionou em frente à casa dela, o relógio marcava quase meia-noite. Lara desceu devagar, sem saber se devia se despedir ou pedir pra ele ficar. Dam ficou no carro, o rosto meio escondido pela sombra. — Cuida de você — disse, finalmente. Ela assentiu, sem conseguir responder. Por um instante, achou que ele fosse sair, abraçá-la, dizer algo que fizesse sentido. Mas ele só ficou ali, com as mãos firmes no volante e o olhar distante. Lara deu um passo para trás, depois outro, e o carro começou a se mover. Ela ficou parada por um longo tempo, o som do motor se perdendo no silêncio. A noite cheirava a despedida, e pela primeira vez, o mundo pareceu pequeno demais para conter o vazio que Dam deixava.
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