A noite começava a se instalar sobre a cidade como um lençol pesado de ar quente. O vento trazia o cheiro do asfalto molhado e das árvores que cercavam a rua onde Lara esperava, o celular apertado entre os dedos.
Dam não havia mandado mensagem, só uma ligação rápida, há menos de uma hora:
Desce daqui a pouco. Quero te ver.”
Nada mais. Nenhum motivo, nenhuma explicação.
Ela hesitou por longos minutos antes de sair de casa.
Algo nela sabia que aquele encontro seria diferente, ele nunca a buscava em casa.
O farol do carro dele apareceu na esquina, cortando a penumbra. O motor soava grave, discreto.
Quando o veículo parou diante dela, o vidro escuro baixou lentamente, e o rosto dele surgiu sob a luz alaranjada do poste.
Dam estava mais bonito do que ela lembrava, mas também mais distante.
A barba por fazer, os cabelos loiros bagunçados, os olhos de um cinza frio que pareciam sempre carregar algo não dito.
O porte dele enchia o carro, ombros largos, postura relaxada, mas com uma tensão silenciosa no maxilar.
— Entra — disse apenas, a voz baixa, rouca, quase um convite e uma ordem ao mesmo tempo.
Lara entrou, o coração acelerado. O ar dentro do carro tinha o cheiro dele, uma mistura de perfume amadeirado e sabonete.
O rádio tocava uma música lenta, quase imperceptível.
— Pra onde estamos indo? — perguntou ela, olhando pela janela.
— Pra qualquer lugar que não seja aqui — respondeu ele, sem desviar o olhar da estrada.
A forma como ele segurava o volante denunciava o que sentia: os dedos firmes, o olhar perdido em algo que não era apenas o trânsito.
Ela o observava de perfil, o rosto parcialmente iluminado pelos postes. Era bonito de um jeito inquietante, o tipo de beleza que não conforta, que perturba.
— Está estranho hoje — disse ela.
Dam sorriu de canto, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Você sempre diz isso
— E sempre estou certa.
Ele respirou fundo, encostando o cotovelo na janela aberta. — Talvez eu só esteja cansado.
Lara sabia que era mentira. Havia algo mais ali. Um peso diferente.
O carro atravessou ruas cada vez mais desertas até parar em um estacionamento à beira da estrada, de onde se via parte da cidade e as luzes distantes refletindo no rio.
Dam desligou o motor e ficou em silêncio.
— Por que me trouxe aqui? — ela perguntou, tentando decifrá-lo.
Ele demorou alguns segundos antes de responder.
— Porque eu precisava te ver sem ninguém por perto.
As palavras o traíaram, havia urgência nelas, um tom de despedida disfarçado.
Lara se virou no banco, encarando-o.
Ela era pequena, os ombros estreitos, a pele clara refletindo a luz pálida do painel. Mas o olhar — ah, o olhar — tinha uma força inesperada, firme, desafiadora.
Ela o encarava como quem não teme o que sente, mesmo quando sabe que vai doer.
— Você está indo embora, não está? — perguntou.
Dam desviou o olhar, um músculo saltando na mandíbula. — Eu só... preciso resolver algumas coisas.
— Com alguém? —
O silêncio que veio foi resposta suficiente.
Lara se recostou no banco, cruzando os braços. — Eu sabia.
Dam a observou.
Ela parecia frágil, tão pequena dentro daquele carro enorme, os dedos trêmulos sobre o jeans rasgado, o cabelo preso de qualquer jeito. Mas havia algo na maneira como o queixo dela se erguia que o desarmava completamente.
— Não é o que você pensa — murmurou ele, finalmente.
— Então me explica.
Dam respirou fundo. — Eu não posso.
Ela soltou uma risada breve, sem humor. — Você nunca pode.
Por um momento, o som do vento preenchendo o carro foi tudo o que restou.
Ele se virou para ela, os olhos escurecidos pela sombra.
— Lara, olha pra mim.
Ela hesitou, mas obedeceu.
Os olhares se encontraram e naquele instante, tudo o que era proibido se fez presente.
Dam aproximou-se, devagar, como quem tem medo de quebrar algo. A mão dele pousou sobre o banco, perto da perna dela, o toque quase imperceptível, mas suficiente para incendiar o ar entre os dois.
— Eu queria que fosse simples — sussurrou ele. — Que fosse certo.
Lara sentiu o coração bater no pescoço. — E por que não é?
Ele a olhou de um jeito que fez o tempo parar.
— Porque tudo em mim é complicado.
Ela quis dizer algo, qualquer coisa, mas a voz falhou. Dam inclinou-se, e por um segundo ela achou que ele fosse beijá-la.
Mas ele parou a poucos centímetros, o hálito quente misturado ao perfume.
— Você devia me odiar — murmurou ele. — Facilitaria tudo.
Ela respondeu sem pensar:
— Eu não sei odiar você.
Os rostos ficaram próximos demais, e foi Dam quem cedeu.
O beijo aconteceu como um segredo roubado do tempo breve, tenso, cheio de promessas que os dois sabiam que não podiam cumprir.
Quando se afastaram, o silêncio se tornou quase insuportável.
Dam manteve o olhar preso nela, o peito subindo e descendo devagar.
— Eu não devia ter vindo — disse ele, baixinho.
— Mas veio — respondeu ela. — Como sempre.
Ele fechou os olhos, encostando a testa no volante.
Lara o observou, o rosto sereno, mas os olhos marejados. Algo dentro dela dizia que aquele seria o fim e que ele não voltaria tão cedo.
O silêncio dentro do carro era quase palpável. Do lado de fora, as luzes da cidade tremulavam como vaga-lumes distantes. Lara ainda sentia o gosto do beijo uma mistura de urgência e incerteza e o coração batendo rápido, tentando entender o que ele não dizia.
Dam mantinha os olhos fixos no nada à frente, o maxilar tenso, como se procurasse as palavras certas dentro de um labirinto.
Ela foi a primeira a quebrar o silêncio. — Por que me trouxe aqui? De verdade.
Dam demorou para responder. O som da respiração dele era baixo, controlado.
Por fim, ele virou o rosto para ela, o olhar cansado, porém firme.
— Porque eu precisava te ver antes de ir.
Lara sentiu o corpo gelar.
— Ir pra onde?
Ele balançou a cabeça devagar. — Não importa.
— Pra mim importa.
Dam encostou as costas no banco, respirando fundo.
O cheiro do perfume dela se misturava ao dele, e por um momento, ele fechou os olhos.
Quando falou novamente, a voz saiu rouca, quase um sussurro:
— Eu precisava te ver pra ter o teu cheiro preso em mim.
A frase ficou suspensa no ar, como se o tempo parasse só para que ela pudesse doer.
Lara ficou imóvel, as palavras ecoando dentro dela.
Não havia como responder.
Tudo que conseguiu foi olhá-lo, e naquele olhar estava o que nenhum deles ousava dizer em voz alta.
Dam virou-se levemente, aproximando-se dela.
— Não tenta entender, Lara. Às vezes é melhor guardar o que foi bonito e deixar o resto quieto.
Ela piscou rápido, tentando conter as lágrimas.
— E eu sou o resto?
— Não. — Ele negou de imediato. — Você é o que ficou bonito.
Por um momento, os dois ficaram apenas se olhando, e o barulho distante da estrada parecia vir de outro mundo.
Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar percorrendo devagar a linha da mandíbula.
O toque era terno, mas havia nele uma urgência contida, como se quisesse memorizar cada detalhe antes de perder.
— Eu não quero que isso acabe — disse ela, com a voz trêmula.
Dam abaixou a cabeça, encostando a testa na dela.
— Eu também não. Mas às vezes, o querer não muda nada.
O vento soprou pela janela entreaberta
trazendo o cheiro da noite.
Ele a observou por um instante, o olhar sombrio, quase pedindo desculpas por algo que ainda não fizera.
— Não demore para me esquecer — ele disse, meio como um aviso, meio como um consolo.
— E você? Vai conseguir assim tão facial? - perguntou ela baixinho
Dam desviou o olhar, um sorriso breve, triste. — Eu nunca esqueço o que me destrói.
Lara não sabia se aquilo era um elogio ou uma confissão.
- Você não vai voltar, não é? - ela perguntou o coração já falhando uma batida.
- Não vou - ele a encarou - E é por isso que você precisa esquecer tudo que aconteceu. Vai ser melhor assim.
O silêncio voltou, e desta vez foi diferente: mais pesado, mais real.
Dam ligou o carro, as luzes do painel iluminando o rosto dos dois.
Ele não disse pra onde ia, nem quanto tempo ficaria longe.
A estrada parecia se estender infinitamente à frente, e Lara percebeu que cada quilômetro a afastava do que eles foram.
Ninguém falou durante o caminho. Apenas o som do motor e o vento cortando a noite.
Quando ele estacionou em frente à casa dela, o relógio marcava quase meia-noite.
Lara desceu devagar, sem saber se devia se despedir ou pedir pra ele ficar.
Dam ficou no carro, o rosto meio escondido pela sombra.
— Cuida de você — disse, finalmente.
Ela assentiu, sem conseguir responder.
Por um instante, achou que ele fosse sair, abraçá-la, dizer algo que fizesse sentido.
Mas ele só ficou ali, com as mãos firmes no volante e o olhar distante.
Lara deu um passo para trás, depois outro, e o carro começou a se mover.
Ela ficou parada por um longo tempo, o som do motor se perdendo no silêncio.
A noite cheirava a despedida, e pela primeira vez, o mundo pareceu pequeno demais para conter o vazio que Dam deixava.