Nos dias que se seguiram, Lara tentou fingir que nada tinha mudado.
Acordava cedo, tomava café olhando pela janela, seguia para o escritório, do escritório direto para a faculdade e voltava para casa, lia algumas páginas de um livro qualquer e dormia tarde demais.
Tudo como antes.
Mas havia um ruído novo entre os pensamentos, uma lembrança persistente — o som da voz dele, o olhar que parecia atravessar até o que ela mesma escondia.
Dam.
Ela repetia o nome em silêncio, como quem experimenta uma palavra que não devia dizer em voz alta.
Não sabia se aquele era mesmo o nome dele.
Mas era o que ele deixara, e bastava.
Nos primeiros dias, prometeu a si mesma que não voltaria à marina.
O lugar era seu refúgio — o espaço onde pensava, escrevia, respirava.
Agora, no entanto, estava contaminado por uma presença.
Voltar seria admitir que sentia falta.
E sentir falta de alguém que m*l conhecia parecia uma fraqueza.
Mesmo assim, nas noites em que o sono se tornava impossível, ela se via olhando para o relógio e calculando quanto tempo levaria até lá.
Vinte e cinco minutos.
Vinte e cinco minutos até o mesmo pôr do sol, o mesmo vento, talvez o mesmo homem.
Mas ela não ia.
Pelo menos não nos primeiros dias.
Dam, por outro lado, também tentava se manter distante.
Desde o primeiro encontro, algo nele havia desajustado.
Não era o tipo de homem que se deixava afetar facilmente.
Tinha o hábito de controlar tudo, palavras, emoções, horários, distâncias.
Mas Lara tinha entrado em sua vida como o vento que muda o rumo das águas: leve, inesperado e impossível de conter.
Nos dias que seguiram, evitou a marina.
Cada vez que pensava em voltar, lembrava do olhar dela, aquele olhar curioso, quase inocente, que o fazia sentir culpa e desejo ao mesmo tempo.
Era perigoso.
Ele sabia.
Tentou ocupar a mente com o trabalho, com os problemas pendentes, com o irmão que adorava se meter em encrenca.
Mas nada preenchia.
À noite, a lembrança dela voltava, insistente.
O som da risada, o jeito como o cabelo dela caía sobre o ombro, a forma como ela o observava como quem tenta decifrar um enigma.
Uma noite, encostado na janela do apartamento, olhou o reflexo do próprio rosto no vidro e pensou:
“Ela é o tipo de pessoa que não devia cruzar o meu caminho. E é justamente por isso que cruzou.”
No quinto dia, Lara cedeu.
Não admitiria, nem para si mesma, que esperava encontrá-lo.
Saiu mais cedo do trabalho, dirigiu até a marina e estacionou longe, como se a distância pudesse mascarar a intenção.
O céu estava tingido de dourado e rosa, o vento trazia o cheiro de água e grama.
Ficou alguns minutos dentro do carro, olhando o reflexo do lago, tentando se convencer de que só precisava respirar.
Mas o coração batia rápido demais para ser apenas isso.
Quando finalmente desceu, o barulho dos próprios passos sobre a madeira pareceu alto demais.
O lugar estava vazio.
Ela sorriu, sem saber se por alívio ou decepção.
Parte dela esperava vê-lo, mesmo que tivesse prometido o contrário.
E parte se sentia tola por isso.
Sentou-se na beira do deque e deixou as pernas balançarem sobre a água.
O reflexo do sol fazia o lago parecer líquido de ouro.
E, pela primeira vez, ela se deu conta de que não se lembrava direito do rosto dele — apenas dos olhos.
Os olhos eram o que mais a perturbava.
Ficou ali até o sol sumir por completo, tentando convencer o coração de que o acaso já havia cumprido seu papel.
Mas, enquanto voltava para o carro viu o carro dele estacionado no mesmo ponto em que havia quebrado antes. Dam estava encostado no capô, de braços cruzados, usando jeans escuro, camiseta simples, o cabelo bagunçado pelo vento.
O coração de Lara falhou uma batida.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
O tempo pareceu segurar a respiração.
Lara parou a alguns metros, surpresa e, ao mesmo tempo, estranhamente calma.
- Vim tentar devolver o silêncio que tirei de você da última vez - Dam disse em fim sorrindo de leve erguendo o olhar e encontrando os dela.
— E vai conseguir ? — perguntou ela, cruzando os braços.
— Acredito que não. — Ele deu um passo à frente. — O silêncio já foi quebrado novamente.
O vento soprou forte, bagunçando o cabelo dela e levantando o cheiro doce do seu shampoo
Dam observou cada gesto, a forma como ela desviava o olhar, o jeito inquieto das mãos.
Ela era jovem demais, e ele sabia disso. Mas havia uma força nela que o desarmava, algo entre curiosidade e coragem.
— Achei que não voltaria — ela começou, mas a voz falhou. —
— Eu também achei. — Ele deu um meio sorriso. — Mas parece que fiquei - péssimo em manter distância. - ele deu um sorriso irônico — Você não devia estar aqui sozinha — disse ele, por fim.
— E você não devia voltar pra um lugar que não é seu. — rebateu ela.
Dam riu baixo. — Toque justo - Ele se aproximou, devagar. — Talvez eu tenha pego o caminho errado novamente
— E o que você vai fazer a respeito disso? - perguntou ela provocando
— Nesse momento estou inclinado a fingir que não percebi o caminho errado.
O silêncio voltou, mas era outro tipo de silêncio. Um que carregava algo invisível, uma tensão que nem o vento conseguia dissipar.
— Então... Dam é seu nome mesmo? -perguntou ela para quebrar o silêncio cheio de tensão entre os dois.
Ele deu um meio sorriso. — É o suficiente por enquanto.
Lara retribuiu o sorriso, mas dentro dela algo se embaralhava. Não era apenas curiosidade. Era como se o desconhecido nele a atraísse mais do que o que ela já sabia sobre o mundo.
O sol começou a se pôr, tingindo o céu de cobre e violeta.
Dam olhou o relógio, suspirou.
— Tenho que ir.
— Tao rápido — ela murmurou, quase sem querer.
Ele a olhou por um instante longo demais, como se quisesse responder, mas não pudesse.
— Às vezes é mais seguro assim — disse, antes de entrar no carro.
Quando o motor ligou e o carro começou a se afastar, Lara sentiu o coração apertar.
Sabia que ele não era o tipo de homem que aparecia por acaso.
E, ainda assim, desejava que voltasse.
Enquanto o som do motor se perdia na estrada, ela percebeu que a marina o seu santuário já não era mais um refúgio. Era o ponto de partida de algo que ela não sabia nomear, mas que, de alguma forma, já a tinha tomado por completo.