Gabriel ficou parado na calçada, observando Lara até ela desaparecer dentro da casa. As luzes da rua piscavam fracas, refletindo na lataria do carro, e o ar noturno parecia pesado demais para respirar.
A cena inteira — o abraço, as lágrimas, a confissão — voltava à mente como um filme sem pausa.
“Eu encontrei alguém do meu passado.”
“Ele me beijou.”
“Eu não consegui fazer ele parar.”
As frases ecoavam, batendo em algum lugar entre o peito e o estômago.
Gabriel respirou fundo, tentando colocar ordem nos próprios pensamentos, mas quanto mais tentava entender, mais o nó apertava.
Entrou no carro e ficou ali, com as mãos apoiadas no volante, encarando o nada.
Um beijo.
Um homem do passado.
Alguém que ela amou — talvez ainda amasse.
A dor vinha em ondas, e ele não sabia se era mais ciúme, raiva ou medo.
Medo de perdê-la antes mesmo de tê-la por inteiro.
Aquela confissão de Lara, dita entre soluços e culpa, o havia atravessado. Ele viu o arrependimento nos olhos dela, o desespero sincero. E, mesmo assim, doía.
Porque por mais que quisesse ser o homem racional, maduro, o que compreende e perdoa, havia uma parte dele que simplesmente sangrava.
Em casa, o silêncio era ensurdecedor.
Gabriel jogou as chaves sobre o balcão e deixou o corpo cair no sofá, a cabeça girando. Tentou não pensar, mas a imagem dela insistia em voltar. Lara chorando nos seus braços. Lara tremendo. Lara dizendo que se sentia h******l.
E ele… consolando.
Mesmo despedaçado por dentro.
Era absurdo como ela conseguia mexer com ele assim.
Tão rápido.
Tão fundo.
“Eu encontrei alguém do meu passado.”
Ele tentava imaginar quem era esse homem, Lara já havia falado dele mas nunca havia revelado o nome.
O pensamento o corroía.
Como competir com uma lembrança?
Como lutar contra alguém que já teve o coração dela antes?
Gabriel passou as mãos pelos cabelos e soltou um suspiro longo.
Sempre foi o tipo de homem que acreditava que amor era construção, não impulso. Mas agora, tudo nele era impulso.
Queria ir até ela. Queria entender.
Mas ela precisava de tempo e ele também.
A insônia fez companhia para Gabriel aquela noite.
Gabriel se revirava na cama, os pensamentos fervendo.
Quem era esse homem?
Por que ele mexia tanto com ela ainda?
O instinto protetor dentro dele se confundia com algo mais primitivo — o desejo de provar que podia ser melhor, que podia curá-la daquilo.
Mas parte dele sabia que não era assim que o amor funcionava.
Você não cura alguém. Só fica ao lado enquanto a pessoa se refaz.
Ele virou de lado, encarando o teto, sentindo um peso que não sabia onde colocar.
A raiva não era só do homem do passado dela. Era de si mesmo. Por se importar tanto, tão cedo.
Por querer alguém que ainda não estava pronta pra ser dele.
No dia seguinte, a cidade parecia cinza.
O café da manhã não tinha gosto, o trabalho parecia distante. Ele respondia e-mails, participava de reuniões, mas a mente estava longe.
Lara. Sempre Lara.
Cada lembrança dos dois — o riso fácil, as conversas longas, os olhares — agora tinha uma sombra atrás.
Um “outro” que ele não conhecia, mas que ainda existia entre eles.
O mais c***l era que ela havia sido honesta.
Ela podia ter mentido, escondido, fingido — mas escolheu contar.
Isso devia bastar.
Mas não bastava.
Porque a sinceridade dela não apagava a imagem que a mente dele insistia em criar — a dela, nos braços de outro.
Na hora do almoço, Gabriel pegou o carro e dirigiu sem destino.
O corpo o levou até a o mirante
Estacionou o carro, ficou para a cidade lá em baixo, o lugar que antes lhe trazia paz, agora, só amplificava o vazio.
O vento soprava frio, o céu nublado refletia o que ele sentia por dentro.
Gabriel fechou os olhos por um instante e pensou em tudo o que havia vivido até ali — as perdas, os desencontros, as tentativas de ser alguém melhor.
Mas agora, diante daquela dor silenciosa, ele percebeu que talvez o amor também fosse isso: um espelho que mostra tudo o que ainda falta curar.
E naquele momento, entre o barulho distante da cidade e o som abafado do próprio coração, ele sussurrou o que não teria coragem de dizer a ninguém:
— Eu só queria que ela viesse a mim... sem sombras.
Lara ainda sentia o gosto dele — amargo e doce, feito de proibição e desejo — mesmo depois que Dam desapareceu da marina naquela tarde.
O vento levava o cheiro do lago, o som distante das velas tremendo nos mastros, mas o que ecoava dentro dela era outra coisa: o som da própria consciência se partindo.
Ela havia prometido a si mesma que seguiria em frente. Que a vida com Gabriel era o novo capítulo, seguro, gentil, sem arestas.
Mas Dam… Dam era o verso que escapava da linha, o erro que dava sentido ao poema.
Durante dias, tentou se convencer de que aquele beijo fora um deslize.
Um erro movido pela saudade do passado, pela curiosidade, pela nostalgia de algo que nunca teve fim.
Dam não mandou mensagem.
Nenhum sinal. Nenhuma tentativa de contato.
E, mesmo assim, ela o sentia por perto. Como se o ar tivesse guardado o formato do corpo dele.
Nos primeiros dias, Lara não conseguia dormir.
Virava de um lado pro outro, ouvindo o som distante dos carros e o tique-taque insistente do relógio.
O arrependimento vinha como uma onda, arrastando tudo o que ela acreditava ter construído com Gabriel.
Mas logo depois, a lembrança do beijo surgia — e, com ela, a confusão.
Era errado.
Mas era real.
O coração não entendia o que a razão tentava impor.
E, no fundo, Lara sabia: quando o coração decide falar, o silêncio nunca mais é o mesmo.
Dam também não dormiu.
Desde aquela tarde, a marina deixara de ser refúgio — tornara-se campo minado.
Toda vez que fechava os olhos, via Lara.
Não o rosto de uma mulher qualquer, mas o rosto dela, como se o destino o tivesse feito para assombrá-lo.
O beijo o perseguia.
Ele podia jurar que ainda sentia o calor dos lábios dela, a pele suave entre seus dedos, o arrepio que correu pela espinha quando ela se aproximou.
E, acima de tudo, a sensação de ter cruzado uma linha que nunca deveria existir.
Ele não sabia por que havia voltado àquele lugar — talvez fosse o lago, talvez o silêncio.
Mas agora entendia: era ela.
Desde o primeiro instante, tudo nele apontava para ela.
E isso o apavorava.
Nos dias seguintes, Dam se manteve distante.
Evitar era mais seguro — para os dois.
Mas o problema de fugir é que, quando o coração reconhece o perigo, ele corre na direção contrária da razão.
E o dele, agora, só sabia correr em direção a Lara.