Capítulo 17

1740 Words
O dia seguinte amanheceu ensolarado, com um daqueles ventos que parecem anunciar novos começos. Lara vestiu um vestido leve, o coração acelerado. Enquanto se olhava no espelho, percebeu algo novo em si: não era a roupa, nem o batom. Era o olhar — mais firme, mais sereno. Lara escolheu um vestido simples, branco com pequenas flores, e prendeu o cabelo em um coque leve. O espelho refletia uma imagem de serenidade,que a muito tempo não via. Quando Gabriel chegou para buscá-la, o sorriso dele bastou para confirmar o que ela já sabia: eles tinham atravessado a tempestade. E, juntos, aprenderiam a reconstruir. Porque o amor deles, imperfeito e real, não prometia um “felizes para sempre”. Mas prometia algo mais raro: a verdade, a coragem e o desejo sincero de não desistir. E, às vezes, isso era tudo o que o amor precisava ser. — Está linda - disse Gabriel encantado. O caminho até a casa dos pais dele foi cheio de risadas. Ele falava sobre a volta do irmão mais velhoque passou uma temporada complicada nos Estados Unidos e o quanto ele dez falta nesse tempo de distanciamento. Contou sobre como eles eram unidos na infância e ainda mais na juventude. sobre as traquinagens quando eram moleques. Lara ouvia, divertida Ele falava com orgulho do irmãos, com saudade, como quem recorda o herói da própria vida. — Ele sempre foi minha referência — disse, sorrindo com nostalgia. — Sabe, a gente era inseparável. Você vai gostar dele, mas não deixe Dam te intimidar, ele tem um humor meio ácido as vezes, mas é numa boa pessoa. O nome caiu sobre ela como um raio. O ar faltou por um instante. Mas ela disfarçou. — Dam? — repetiu, com a voz suave. — Sim — explicou ele, sem perceber o tremor na voz dela. —Daniel, meu irmão. Você vai conhecê-lo. O mundo parou. O sangue gelou. O nome ecoou por inteiro dentro dela: Daniel. Dam. Ela virou o rosto para a janela, tentando disfarçar o desespero. O coração batia tão rápido que parecia querer fugir do peito. Tudo fazia sentido agora. A ausência. O mistério. O reencontro. E o destino, c***l e irônico, ria dela mais uma vez. A casa era acolhedora, cercada por árvores e com cheiro de flores do jardim. Gabriel a guiou até uma área espaçosa no fundo da casa. — Mãe! Chegamos! A mãe dele apareceu sorridente, acolhedora, e a recebeu com carinho. — Então essa é a famosa Lara! — disse, abraçando-a. — Gabriel fala tanto de você que eu já te conhecia antes de conhecer! Lara sorriu, sem conseguir falar. As mãos tremiam. E então, uma voz masculina ecoou vinda de dentro da casa — Temos surpresas de aniversar Ela se virou. E o tempo, mais uma vez, parou. Dam estava ali, encostado no batente da porta, com aquele mesmo olhar intenso e sombrio, o mesmo olhar que um dia a fez se perder — e que agora a despedaçava. O silêncio que se formou foi sufocante. Gabriel, sem perceber nada, sorriu. — Daniel, essa é a Lara. Minha namorada. A palavra namorada soou como um estilhaço, rasgando o ar entre eles. Dam franziu a testa, os olhos dele se fixaram nela, intensos, procurando uma explicação. Lara sentiu o chão sumir. Ela forçou um sorriso, o coração em pedaços. — Pode me chamar de Dam - ele. estendendo a mão com um olhar que parecia atravessá-la. A voz era firme, mas o olhar... o olhar ardia. Ela hesitou por um segundo antes de apertar a mão dele. Gabriel passou o braço pelos ombros dela, sem imaginar o abismo que se abria aos seus pés. Lara engoliu o nó na garganta, sentindo as mãos suarem, tentando disfarçar o tremor. Dam desviou o olhar, respirou fundo e ergueu o copo de whiskey tentando esconder a tempestade. — Muito prazer minha cunhadinha . O toque foi rápido, mas bastou para reacender lembranças que ela queria apagar. Gabriel riu, sem entender o desconforto que se instalava entre eles. — Posso te chamar assim? Parece e agora a gente é família, não é - Insinuou Dan O olhar dele pousou sobre Lara de novo, intenso, provocador, ela sustentou o olhar mesmo a palavra " minha" lhe provocando um arrepio na espinha, mas não se deixando intimidar. E naquele momento, o triângulo se fechou. O passado e o presente colidiram com força silenciosa. E Lara entendeu, finalmente, que não havia fuga possível — o destino havia decidido brincar com todos eles. O almoço transcorreu com a típica conversa de família — lembranças da infância, piadas internas, planos para o fim de semana. Mas a mesa parecia um campo minado. Por trás da aparência de normalidade, havia algo distorcido. Cada palavra parecia ter um segundo significado. Cada olhar, um peso oculto. Dam girava o copo DE whiskey nas mãos, observando Lara como quem observa um segredo prestes a explodir. — É então mano — disse ele em certo momento, girando o copo nas mãos — Como você conheceu essa preciosidade? Gabriel, animado, respondeu sem perceber o tom de ironia na voz do irmão. — Eu a salvei - Ele riu lembrando do encontro - Ela perdeu as chaves do carro no dia do aniversário de vinte e um anos dela, e lá estava ela praguejando sobre a vida adulta. Foi quando eu apareci para salvar a donzela em perigo e ela ficou de devendo uma. Dam fingiu surpresa, inclinando-se levemente. — O destino deve ter uma obcessão por carros - Ele se inclinou para trás encostando na cadeira e olhando fixamente para Lara - Com você foi uma chsve perdida comigo foi meu carro quebrado nas Marina. Lara parou o garfo no ar. O som dos talheres à mesa pareceu desaparecer por um instante. — Na Marina? — perguntou Gabriel confuso - o que voce estava fazendo lá? - Destino meu irmão - continuou Dam, o olhar cravado em Lara - Ele adora pregar peças na gente - ele deu um meio sorriso meio amargo — Conhece a marina Lara? Lugar bonito, calmo. Ideal pra quem gosta de pensar demais — Sério? E o que você fazia nesse lugar então? - perguntou Gabriel rindo sem notar o desconforto da namorada. - Talvez um lugar assim não queira você por perto. — completou ela forçando um sorriso. — Você tem cara de quem gosta de causar o caos. - Dez minutos que conversa e ela já sabe exatamente como você é. - comentou Gabriel gargalhando, alheio à guerra invisível que se travava à sua frente. Dam, porém, não sorriu. Apenas a observou. Longamente. E então disse, baixo, como quem lança um aviso: — Te garanto que não houve caos, mas houve outros sentimentos mais intensos. - provocou Dam Lara sentiu as mãos suarem. As palavras eram neutras, mas o tom — aquele tom carregado de segundas intenções — a atravessava. Ela percebeu que o estava provocando deliberadamente, testando seus limites. — É onde está essa garota agora? — provocou ela - Só vejo um lugar vazio ao seu lado Dam apertou as mãos no copo, mas logo relaxou virando o copo entre os dedos. O silêncio que se formou foi denso. Gabriel, curioso, perguntou com naturalidade: — Você a encontrou de novo? Dam olhou para Lara, demorando mais do que devia. — Encontrei… achei que havia sido a última vez, os planos mudaram. Lara baixou o olhar para o prato, o coração disparado. Era uma ameaça velada. Ele estava deixando claro que não pretendia deixá-la em paz. A mãe dos dois tentou quebrar o clima, comentando algo sobre sobremesa, mas o ar já estava pesado. Cada vez que Gabriel tocava em Lara, os olhos de Dam se tornavam mais sombrios, mais duros. Gabriel alheio a tudo pegou a mão de Lara sobre a mesa e beijou em um gesto automático e esse simples gesto pareceu acender algo nos olhos de Dam Dam apertou o copo com tanta força que o vidro quase estourou. — um lampejo de ciúme, disfarçado por um sorriso irônico. Dam a encarou em silêncio, e por um instante, o sorriso sumiu. Havia algo selvagem, quase ferido, em seu olhar. O resto do almoço transcorreu em um clima estranho. Lara se esforçava para sorrir, responder perguntas triviais, participar da conversa. Mas por dentro, o coração martelava, e a respiração vinha curta. Dan estava ali, diante dela, insinuando, cutucando, jogando palavras como anzóis. E Gabriel, doce e despreocupado, nem imaginava o que se desenrolava entre olhares e silêncios. Quando o almoço terminou, Gabriel se retirou para atender uma ligação. Lara aproveitou para caminhar no jardim. O ar fresco parecia insuficiente. — Fugindo de mim? — a voz dele soou atrás dela. Lara se virou devagar, o olhar firme. — Como se isso fosse realmente possível. - Ela cruzou os braços. — Você prometeu desaparecer. — Prometi, e mantive minha promessa — Ele deu um passo à frente — Foi você quem veio até mim. O som da porta se abrindo os fez recuar. Gabriel apareceu guardansonondekukar no bolso o sorriso sereno de sempre. — Achei vocês. Já estavam conspirando contra mim? Lara engoliu o nó na garganta e forçou um sorriso. — Daniel só estava me entretanto até você chegar Dam sentiu o peso daquelas palavras e sabia que ela não estava querendo se referir apenas a aquele momento. Gabriel se aproximou e a puxou pela cintura, envolvendo ela em em. Seus braços poiando o queixo no ombro dela, tranquilo, alheio à tempestade que ruía a centímetros de si. Lara aceitou, tentando ignorar o olhar que a seguia — o mesmo olhar que, no passado, a atraía e agora apenas a prendia como uma sombra. - Sabe se uma coisa, acabei de me lembrar de um detalhe. Eu salvei você no dia do seu aniversário, está na hora de você pagar sua dívida no dia do meu. Dam observava. Silencioso. E dentro dele, algo se partiu. Pela primeira vez, sentiu raiva do irmão. Raiva verdadeira. Não pela felicidade dele, mas porque aquela felicidade tinha o rosto da mulher que um dia fora dele — e ainda era, em alguma parte sombria e escondida. Gabriel alheio aos sentimentos do irmão, se despediu rapidamente e saiu puxando Lara pelas mãos. Lara manteve o sorriso, mas por dentro, estava em ruínas. O olhar de Dam a seguia, queimando. E ela sabia — o destino ainda não tinha terminado com eles.
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