Capítulo 18

1941 Words
O relógio marcava onze da manhã quando o som seco da porta se abrindo interrompeu o silêncio do escritório. Lara levantou os olhos do computador, o coração acelerando antes mesmo de ver quem era. Dam. Ele atravessou a porta sem ser anunciado, sem bater, com o olhar escuro e um ar contido de fúria. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele fechou a porta, girou a chave, e o estalo ecoou como um aviso. Em seguida, puxou as cortinas, bloqueando a luz do dia — e o mundo inteiro lá fora. — O que está fazendo, Daniel? — a voz dela tremeu, misto de incredulidade e medo. — Isso aqui é o meu trabalho! Ele não respondeu de imediato. Respirava fundo, como quem luta pra não explodir, e por fim falou, num tom rouco, cheio de amargura: — Sério, Lara? Dentre todos os homens do mundo… você tinha que escolger o meu irmão? Ela piscou, atordoada. — O quê? — Isso foi o seu jeito de me punir, é isso? — ele deu um passo à frente, o olhar ardendo. — Você quis se vingar de mim? Por eu ter te deixado? Por ter tentado consertar a minha vida? Lara se levantou, o sangue fervendo. — Está louco? — ela o acusou — Como você acha que eu poderia saber que o Gabriel era seu irmão? Você nunca me contou nada, Daniel! Nada! Nem sobre sua família, nem sobre onde morava, ate o seu maldito nome você escondia de mim! — Eu tinha meus motivos! — ele retrucou, aproximando-se mais. — Eu tinha planos para nós, e nenhum deles incluía ver você com ele! — Planos? — Ela cruzou os braços, tentando conter o tremor das mãos. — Você sumiu, Daniel! Você não tem o direito de sumir, sem explicações, sem respostas e continuar fazendo planos sobre mim. Você não tem o direito bem de pensar em mim, quanto mais fazer planos. O olhar dele vacilou por um instante, e ela percebeu o conflito. Mas logo ele endureceu o rosto outra vez. — Isso foi golpe baixo — disse ele, a voz fria, mas os olhos tremendo. — Você se envolveu com a única pessoa no mundo que poderia realmente me ferir. O único homem com quem eu jamais poderia lutar pelo que quero. Lara sentiu o ar escapar dos pulmões. — Nem tudo é sobre você, eu não fiz nada pra te ferir — disse, baixo. — Você se feriu sozinho. Dam se aproximou mais, as mãos fechadas em punhos. — Não me provoca, Lara. Você sabe o que isso faz comigo. — Eu sei o que o seu silêncio fez comigo! — retrucou, a voz quebrando. — Você me partiu ao meio, Daniel. E agora vem aqui, invadindo meu espaço, como se ainda tivesse o direito de me cobrar alguma coisa? Ele respirou fundo, mas a raiva já estava tomando conta. — Eu não consigo olhar pra você e saber que está com ele — disse entre dentes. — Não consigo imaginar as mãos dele onde as minhas já estiveram. Você entende isso? Lara desviou o olhar, engolindo as lágrimas que insistiam em vir. — Então não me olhe mais — sussurrou. — Cumpra a sua promessa e não volte a me procurar, me deixe seguir. Não tente me prender a você por orgulho. Dam riu, amargo, o som soando quase como um lamento. — Orgulho? Você acha que isso é orgulho, Lara? — Ele passou as mãos pelos cabelos, desesperado. — Isso é desespero. É raiva de saber que o único amor que eu não consegui proteger, o único que me manteve vivo nesses anos todos, agora está nos braços do meu próprio irmão. As palavras ficaram no ar, cruas, pesadas. Ela o olhou, com os olhos marejados, mas sem ceder. — Eu não escolhi isso, Daniel. — Você escolheu — Ele deu um passo mais perto, o olhar ardendo. — Você escolheu ele, justo com ele. Ela recuou um pouco, sentindo o ar rarefeito. — Eu não sabia — repetiu, num fio de voz. — Se soubesse, teria evitado pois mais cedo ou mais tarde eu teria que te encontrar de novo estando com ele e essa era a última coisa que eu desejava na vida. Ele riu, mas o som veio sem humor, só dor. O silêncio que se seguiu foi devastador. Dam respirou fundo e, pela primeira vez, o olhar dele se suavizou — mas só por um instante. Ele se aproximou até que os dois estivessem a poucos centímetros de distância. — Tão perto e tão longe — ele sussurrou com o olhar cravado nela. — A gente sempre foi impossível. Mas nem por isso eu deixei de te querer. Lara sentiu o coração acelerar, a respiração falhar. Aquela proximidade a desarmava — o cheiro dele, o timbre da voz, a lembrança do que já tinham sido. Mas ela não podia ceder. — Sai daqui, Daniel — disse por fim, com a voz firme, mas trêmula. — Antes que alguém veja e tudo fique ainda pior. Ele ficou parado por um momento, o peito subindo e descendo rápido, o olhar preso no dela. Então respirou fundo, destrancou a porta e ficou parado por um segundo, com a mão na maçaneta. — Você me chamou de louco — disse, sem virar o rosto. — E talvez eu esteja mesmo. Mas, Lara… se eu tiver que enlouquecer, que seja por você. E saiu, batendo a porta com força. Lara ficou ali, apoiada na mesa, o coração em frangalhos. As mãos tremiam. O corpo inteiro tremia. Ela sabia que aquela história estava prestes a explodir — e ninguém sairia ileso. O sol do meio-dia refletia no para-brisa do carro de Gabriel, lançando uma luz quente sobre o painel. Ele olhou o relógio pela terceira vez. Lara sempre era pontual. Sempre. Mas naquela manhã, alguma coisa parecia diferente — ele sentia. Desde de o dia anterior, desde o almoço na casa de seus pais, o ar entre eles havia mudado de densidade. Lara parecia distraída, inquieta, como se algo a atormentasse. E Dam… Dam estava estranho também. Mais calado que o normal. Mais sombrio. Gabriel respirou fundo, tentando afastar os pensamentos. Talvez fosse só coincidência, o cansaço da semana, anos últimos acontecimentos. Mas não conseguia tirar da cabeça a expressão de Dam ao olhar para Lara durante o almoço — uma mistura de raiva, incredulidade e algo mais, algo que ele não quis nomear. Ele estacionou o carro em frente ao prédio onde ela trabalhava e mandou uma mensagem curta: “Cheguei, estou te esperando ” Minutos se passaram. Nenhuma resposta. Ele estranhou. Lara raramente deixava de responder. Decidiu esperar um pouco mais, mexendo no celular, qualquer coisa para não pensar demais, foi quando um movimento rápido chamou sua atenção no retrovisor. Um carro preto, modelo esportivo, passou pela esquina com o vidro meio abaixado. O coração de Gabriel falhou por um instante. Era o carro de Dam. Ou parecia ser. Ele franziu o cenho, endireitou-se no banco. Não podia afirmar com certeza — havia outros carros parecidos, e o reflexo do sol dificultava a visão. Mas o detalhe — o adesivo discreto no canto do vidro traseiro — era igual. O que Dan estaria fazendo por ali? Antes que pudesse concluir o pensamento, a porta do prédio se abriu e Lara surgiu, com o semblante tenso, mas forçando um sorriso. — Desculpa a demora — disse, ajeitando a bolsa no ombro. — Tive uma conversa que se estendeu mais do que devia. Gabriel tentou sorrir também, mas algo no tom dela soou… ensaiado. Um sorriso falso, um olhar que desviava rápido demais. Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para ela — um gesto automático, que agora parecia parte de uma encenação. — Tudo bem — respondeu. — Eu estava quase subindo pra te buscar. Ela riu de leve, mas o som saiu fraco. — Ainda bem que não. Ia dar de cara com uma bagunça por lá. Gabriel assentiu, tentando disfarçar o incômodo. Mas enquanto ela colocava o cinto, ele olhou pelo retrovisor novamente e lembrou do carro preto dobrando a esquina. O coração apertou. E se fosse mesmo o carro de Dam? E se ele…? “Não, impossível.” Sacudiu a cabeça, como se pudesse expulsar o pensamento. O silêncio no carro se estendeu. Lara mexia distraidamente no celular, mas ele percebia a tensão no jeito como os dedos dela tremiam. — Você está bem? — perguntou por fim, tentando soar natural. — Desde ontem… parece meio distante. Ela o olhou, surpresa por ele ter notado. — Só cansaço — respondeu rápido demais. — A semana foi puxada. Mas eu tô bem, juro. Gabriel assentiu, mesmo sem acreditar completamente. O tom da voz dela estava estranho. E por mais que tentasse ignorar, a sensação não passava, como se algo invisível estivesse se movendo entre eles, minando a paz que tinham construído. Durante o trajeto até o restaurante, ele tentou conversar sobre assuntos leves: o novo projeto no trabalho, a viagem que planejavam fazer em dezembro, a reforma na casa dos pais. Mas ela estava dispersa, respondendo por monossílabos, com o olhar perdido na janela. Quando chegaram, Gabriel estacionou o carro e ficou em silêncio por um instante antes de desligar o motor. Lara já alcançava a maçaneta quando ele segurou a mão dela. — Lara — disse, com a voz baixa, quase num pedido. — Você tem certeza que está bem? Eu te conheço. Tem alguma coisa acontecendo? Ela o olhou, os olhos marejados por um instante, mas desviou rápido. — Tá tudo bem, Gabriel. De verdade. — Forçou um sorriso e completou: — Eu só preciso de um pouco de tempo pra colocar algumas coisas no lugar, tudo bem? Ele queria insistir. Queria perguntar o que a deixava tão aflita, por que o sorriso dela parecia uma ferida m*l curada. Mas engoliu as perguntas. Amava demais para pressionar. — Tudo bem — murmurou. — Eu tô aqui, tá? Sempre. Ela apenas assentiu e saiu do carro. Por dentro, Gabriel sentia o coração apertar. Aquela sensação de estar perdendo algo que ainda nem sabia o que era. Durante o almoço, a conversa parecia correr normal — risadas ocasionais, comentários amenos — mas Gabriel não conseguia tirar da cabeça a imagem do carro preto. O adesivo. E o olhar que Lara lançou para o celular dele quando ele tocou e o nome “Danil”piscou na tela dele. Ela congelou por meio segundo — o suficiente para ele perceber. Depois, tentou disfarçar, bebendo um gole rápido de água. Gabriel sentiu o estômago se contrair. — Era o Daniel — disse, tentando parecer tranquilo. — Mandou mensagem dizendo que vai pra empresa resolver umas coisas à tarde. - Não sabia que trabalhavam juntos - ela tentou fingir desinteresse. - Não trabalhávamos, mas assumi quando ele precisou se ausentar. - Lara apenas assentiu, sem dizer nada - Agora que ele voltou ele quer o seu lugar de volta. O silêncio entre eles pesou como chumbo. Naquela tarde , quando deixou Lara de volta ao escritório Gabriel ficou dentro do carro por alguns minutos antes de ligar o motor novamente. Observou ela caminhar até a porta, destrancar e sumir dentro do prédio. Ele a amava — disso não duvidava. Mas algo dentro dele dizia que estava perdendo o controle da situação, a intuição gritava. Encostou a cabeça no volante, fechando os olhos. Queria estar errado. Queria acreditar que era apenas paranoia, coincidência, confusão. Mas no fundo, sabia: o destino estava armando um jogo perigoso, e ele era o último a entender as regras.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD