O barulho do motor ecoava na mente de Dam quando o carro começou a se afastar.
Ele conseguiu ver a imagem parada na calçada, imóvel, os braços cruzados como se tentasse se proteger do vento pelo retrovisor.
Mas dentro do carro, Dam não conseguia seguir adiante.
O rosto dela presa em sua mente, o olhar ferido, o jeito como os lábios dela tremiam quando ele disse cuida de você.
Cada palavra parecia socá-lo no peito.
“m***a,” murmurou, apertando o volante com força.
O som do motor aumentava, mas o coração dele acelerava mais ainda.
A imagem dela sozinha, parada no mesmo lugar não saía da cabeça.
Ele bateu com força no volante.
“Eu não consigo deixar você assim.”
Pisou no freio com força, o carro derrapou levemente e, num impulso que ele sabia que o destruiria, engatou a marcha à ré.
O motor rugiu, e em segundos ele estava de volta à frente da casa dela.
Lara ainda estava lá, parada, sozinha.
Os faróis a iluminaram, e por um instante, o tempo parou.
Dam saiu do carro e respirou fundo, o rosto tenso, o olhar em chamas e foi de encontro a ela, segurou pela cintura, puxando-a com força. O beijo veio como uma confissão sufocada, um grito calado há tempo demais.
Foi urgente, intenso, cheio de tudo o que os dois evitaram sentir até ali.
Lara se agarrou a ele, o corpo respondendo antes mesmo do pensamento.
O mundo parecia desaparecer ao redor.
Só havia o toque dele, o gosto dele, a respiração entrecortada, o calor da pele.
Mas, quando o beijo ameaçou se tornar algo mais, Dam se afastou abriu a porta do carona, não disse nada, mas o silêncio dele dizia tudo.
Ela entendeu.
Sem hesitar, entrou no carro, a porta bateu, e o som seco foi o selo de um destino que nenhum dos dois conseguiria evitar.
Dam deu a volta entrou e o carro arrancou, e o vento entrou pela janela, misturando o perfume dela ao cheiro do asfalto.
Ninguém falava.
Mas havia algo quase elétrico no ar, uma tensão que os prendia e os empurrava ao mesmo tempo.
Lara olhou para ele.
A expressão era a de um homem lutando contra o próprio coração.
As mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada, o maxilar travado.
O silêncio dele gritava, havia algo de feroz neles, uma luta entre o querer e o dever.
— Eu não devia ter voltado — disse, a voz rouca.
— Mas voltou — respondeu ela.
Ele riu baixo, um riso sem alegria. — Não dá pra deixar você, Lara. Eu tentei… Deus sabe que eu tentei, mas eu não consigo passar mais uma noite fingindo que consigo viver sem você.
Ela respirou fundo, tentando conter o tremor.
O coração batia tão alto que parecia querer escapar do peito.
O carro seguiu até a Marina o mesmo lugar onde tudo começou.
As luzes refletiam na água calma, e o som distante das águas o mesmo do dia que se conheceram.
Dam estacionou e desligou o motor.
Por alguns segundos, ficou apenas ali, as mãos ainda no volante, respirando fundo.
— Eu tentei, Lara — disse, sem olhá-la. — Tentei fazer o que era certo. Mas não existe certo quando se trata de você.
Ela o observava em silêncio, o olhar marejado.
— Então por que você vai embora?
Ele se virou devagar, os olhos cinzentos brilhando na penumbra.
— Porque eu preciso consertar minha vida. Porque eu preciso resolver o passado pra merecer o futuro com você.
— E vai conseguir? — perguntou, com a voz embargada.
Dam balançou a cabeça, rindo sem humor. — O passado quer me punir por seguir em frente, e isso pode me fazer perder tudo.
O silêncio entre eles foi denso.
O vento balançava o cabelo dela, e o som da respiração dos dois se misturava.
Ela virou o rosto para ele, e naquele instante, os olhos se encontraram e o mundo pareceu se curvar à volta deles.
Dam estendeu a mão e segurou o rosto dela.
O toque foi firme, mas delicado, como se tivesse medo de que ela desaparecesse.
— Eu não devia ter voltado — murmurou novamente
— Mas voltou — respondeu ela, com um sorriso triste. — E agora?
— Agora… eu não sei se vou conseguir ir.
A distância entre eles se dissolveu.
Dam inclinou-se e a beijou.
Foi um beijo diferente de todos os outros, urgente, denso, cheio de raiva e ternura ao mesmo tempo.
Era um beijo de despedida e reencontro, de tudo o que foi e o que não podia mais ser.
Lara correspondeu, os dedos se enroscando na nuca dele, puxando-o para mais perto.
O mundo sumiu.
Apenas o som da respiração, o calor, o toque.
Quando se separaram, ofegantes, Dam encostou a testa na dela.
— Eu quero você comigo, Lara. Mas não assim. Não agora.— disse, ofegante, encostando a testa na dela. — Eu não posso te tomar pra mim e depois te deixar aqui sozinha.
— Você não precisa me deixar — respondeu ela com lágrimas escapando dos olhos. - Isso não precisa ser um adeus, pode ser um até logo.
— E se não conseguir voltar?- Ele sorriu, um sorriso cansado, e passou o polegar pelas lágrimas dela.
— A escolha sempre será sua — A Voz dela saiu firme, mas baixa.
Lara o encarou por longos segundos.
Nos olhos dele havia uma promessa e um medo imenso de quebrá-la.
Ele abriu a porta e saiu do carro.
Estendeu a mão, e ela, sem pensar, a segurou.
Caminharam até o deque, o som das madeiras rangendo sob os pés.
A lua refletia na água, e o vento soprava o perfume dela.
Dam parou diante dela, as mãos em seu rosto.
— Você não sabe o que é ter que escolher entre o que precisa fazer e o que o seu coração quer.
— Eu sei. — Ela o interrompeu, a voz firme. — Porque estou fazendo isso agora.
Ele sorriu, tocando o cabelo dela.
— Você é a coisa mais bonita e mais difícil que já me aconteceu.
Os olhos dela brilharam. — E ainda assim, vai embora.
Dam respirou fundo, aproximando-se até que os corpos se encostassem.
— Eu não estou indo pra te deixar. Estou indo pra conseguir voltar inteiro pra você.
Lara passou as mãos pelo peito dele, sentindo o coração batendo rápido.
— E se eu não estiver aqui quando voltar?
Ele segurou o rosto dela com força.
— Eu te encontraria. Nem que tivesse que atravessar o mundo.
Ela fechou os olhos, e ele a beijou novamente.
Dessa vez, o beijo foi mais lento, mais profundo uma confissão sem palavras.
O corpo dele a envolveu, e o tempo pareceu parar.
As mãos dele deslizaram por seus braços, por sua cintura, e ela se entregou completamente ao toque que conhecia tão bem.
A noite os envolveu.
O vento, o cheiro da água, o som da respiração misturada.
Mas quando as mãos dele começaram a buscar mais, quando o corpo pediu o que a razão ainda negava, Dam parou.
Ficou ali, respirando pesado, o rosto colado ao dela.
— Eu não quero que essa noite seja o fim — disse. — Quero que seja o motivo pra eu voltar.
Ela encostou o rosto no peito dele, ouvindo o coração dele bater rápido.
E naquele instante, entendeu: ele estava indo não porque não a amava, mas porque a amava demais pra arrastá-la pro caos.
Ficaram ali por horas, deitados no capô do carro, olhando o céu, mãos entrelaçadas.
Nenhum dos dois falou mais sobre o amanhã.
Porque sabiam que o amanhã seria c***l.
Quando o primeiro sinal do amanhecer surgiu no horizonte, Dam se levantou.
Lara também.
Ele a abraçou com força, respirando fundo, como se quisesse guardar o cheiro dela pra sempre.
— Eu vou voltar pra você, Lara. — As palavras saíram firmes, mas havia um tremor nelas. — E quando eu voltar, você vai ser minha por inteiro.
Ela assentiu, sem conseguir responder.
O caminho de volta para casa foi silencioso. Elas desceu, não havia mais nada a ser dito.
Antes de partir, olhou pra ela mais uma vez.
O sol começava a nascer, dourando o rosto dela e, por um instante, ele quase voltou.
Mas acelerou.
E foi.
Lara ficou ali, vendo o carro sumir na estrada.
O vento batia no rosto dela, e o coração, agora quebrado e cheio de promessas batia em silêncio, repetindo o que ele dissera:
“Eu vou voltar pra você.”
Mas o eco que o vento devolvia parecia outro:
“E se não voltar?”
Nos dias seguintes, ela esperou.
Mensagens, ligações, qualquer sinal.
Mas nada veio. Suas ligações não eram atendidas, suas mensagens não eram respondidas.
Lara esperava todos os dias o telefone na mão, o coração apertado, tentando não se deixar consumir pela ausência.
Os amigos diziam que ela precisava seguir. Que talvez ele tivesse ido para sempre.
Mas ela conhecia Dam.
Sabia que ele não era covarde
Mesmo assim, o tempo passou.
Uma semana. Duas. Três.
As semanas viraram meses o silêncio dele foi ensurdecedor.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Nenhuma resposta.
E, mesmo sem explicação, o cheiro dele aquele perfume amadeirado misturado ao vento ainda estava preso na pele dela, como uma promessa que o tempo não tinha conseguido apagar.
E quando finalmente o celular vibrou, ela quase deixou o aparelho cair das mãos.
Era uma mensagem curta.
Sem explicação.
Sem emoção.
“Segue em frente, Lara, não me espere, eu não volto.”
Ela ficou olhando aquelas palavras por longos minutos, os olhos marejados, o corpo imóvel.
Sabia que aquele era o fim mas, no fundo, algo nela ainda se recusava a acreditar.