"A blindagem rrachou e o veneno das hienas finalmente penetrou. Eu tentei ser o muro de Luccas, mas agi como um covarde. Entre o perfume de outras mulheres e uma gravação forjada, eu o perdi. O Chef Romano, mestre do controle, agora assiste ao seu próprio futuro ser reduzido a cinzas."
— Enzo Romano
Quando a confiança se quebra, não há dinheiro ou tempero que recupere o sabor original de uma alma entregue.
Enzo Romano descobriu, da pior forma, que o preço do silêncio é, às vezes, a perda irremediável da própria essência.
A semana seguinte à noite na casa de massagem foi um borrão de pura adrenalina, trabalho excessivo e negação.
Eu me afundei na a******a de Miami e na Live Kitchen, tentando abafar o grito do meu coração com o barulho da cozinha.
O trio blindado voltou à L’Extase outras vezes. Precisávamos de um escape da pressão sufocante da realidade.
Chris estava se comportando, evitando outras mulheres para não ferir Victória, mas eu estava lutando para voltar ao meu "normal".
Mesmo insistindo em tocar outros corpos femininos, eu não sentia absolutamente nada. Era o deserto em forma de pele.
Eu não sentia a intensidade que sinto com Luccas. Meu corpo já havia escolhido o seu vício e rejeitava o antídoto.
Estava chegando de uma dessas sessões de massagem quando dei de cara com ele, parado em frente ao meu prédio.
Luccas me esperava, parecendo ansioso, abatido e tão vulnerável que meu estômago deu um nó instantâneo.
Caminhei até ele, sentindo o desejo de protegê-lo lutar contra a culpa corrosiva de saber exatamente de onde eu vinha.
— Enzo... — ele disse ao me ver, as mãos nervosas escondidas nos bolsos do casaco, os ombros encolhidos.
— Luccas! Aconteceu alguma coisa? Você está bem? — perguntei, tentando esconder a minha própria instabilidade.
— Desculpa vir assim, sem avisar — ele parecia angustiado, os olhos brilhando com lágrimas que ele lutava para não soltar.
— Vamos subir, Luccas. Você está tremendo sob esse frio — segurei seu braço, sentindo a tensão elétrica que emanava dele.
Subimos no elevador em um silêncio sepulcral. Assim que entramos no meu apartamento, ele simplesmente desabou.
Luccas começou a andar pela sala, gesticulando com as mãos trêmulas enquanto as palavras saíam como navalhas.
Ele me contou que Margaret e Bella invadiram a Empire hoje, humilhando-o na frente de todos os funcionários.
— Aquelas loucas nos chamaram de ingratos na frente de todos! — ele gritou, a voz quebrada pelo peso da vergonha.
— Disseram que somos o "problema" da família. Já não bastou nos expulsar de casa e nos excluir de tudo? — questionou.
— Elas são cruéis, Luccas. Eu já te avisei sobre o veneno delas — tentei me aproximar, mas a lembrança da visita pesava.
— A minha mãe riu de mim. Disse que encontrei um lugar compatível com meu "estilo", como se trabalhar no clube fosse lixo.
Luccas contou como Chris teve que intervir como dono do lugar para protegê-los daquelas mulheres venenosas e vis.
— Eu me senti pequeno, Enzo. Senti que, não importa o quanto eu lute, elas sempre vão me puxar para o esgoto — desabafou.
— Você não é pequeno. Elas são as únicas medíocres nessa história — falei, puxando-o para um abraço apertado e possessivo.
Eu o envolvi, sentindo o soluçar dele contra o meu peito. Naquele momento, me odiei por ter escondido a visita delas.
O silêncio do meu apartamento foi preenchido pela dor dele, e minha preocupação com as consequências dessa relação explodiu.
A vulnerabilidade dele despertou em mim uma necessidade urgente de afeto, um desejo de curar suas feridas com a minha boca.
Comecei a beijar seu rosto, secando as lágrimas, e o clima mudou da tristeza para uma luxúria desesperada.
O beijo se tornou profundo, necessitado. Eu queria apagar o dia dele com o meu toque, fazê-lo esquecer que o mundo existia.
Nós nos movíamos para o sofá, mas no momento em que me inclinei sobre ele, Luccas parou bruscamente, como se levasse um choque.
Seus olhos se arregalaram e ele franziu o nariz, afastando-me com uma força que me fez perder o equilíbrio por um segundo.
Seu olhar mudou de tristeza para uma desconfiança afiada e cortante que gelou o meu sangue até a medula.
— Que cheiro é esse, Enzo? — ele perguntou, a voz agora carregada de uma frieza que me deu calafrios reais.
— Cheiro de quê? Luccas, eu estava no restaurante até agora, deve ser tempero, fumaça... — tentei a mentira mais óbvia.
— Não minta para mim! — ele gritou. — Eu conheço o cheiro de comida. Isso aqui é perfume de mulher. Doce. Barato.
Senti o sangue fugir do meu rosto. Ele recuou, como se o meu toque agora fosse algo asqueroso e contaminado.
— Você estava com outra pessoa? Com alguma mulher? — ele perguntou, e as lágrimas agora eram de puro ódio e decepção.
— Luccas, escute. Eu sou um homem de hábitos. Precisava de um escape, a pressão de Miami... eu gosto de mulheres... foi só massagem.
— Uma massagem? — ele riu, uma risada histérica. — Você saiu de cima de outra e veio direto para cá me abraçar?
— Não é assim! Você sabe o que eu sinto, mas eu não estou pronto para ser o que você quer no mundo real! — explodi.
— No mundo real? Onde as pessoas veriam que o grande Enzo Romano sente algo por um homem? — ele cuspiu cada letra.
— Minha reputação está em jogo! Eu construí um império! O que queria? Que eu fosse alvo daquelas loucas com você?
— Eu queria que você fosse homem! — Luccas gritou, pegando o casaco. — Achei que era meu muro, mas é só um covarde.
— Você se esconde atrás das mãos de massagistas para não encarar quem você realmente é! — ele finalizou, c***l.
Tentei segurá-lo, mas ele se desvencilhou com uma fúria selvagem. — Não me toca! Você me enoja, Enzo. Você é o que elas dizem.
Ele saiu batendo a porta com um estrondo que ecoou pelo meu vazio, deixando para trás o cheiro do meu pecado.
Passei a noite em claro, bebendo uísque e amaldiçoando a minha necessidade patológica de controle e reputação.
No dia seguinte, tentei ligar mil vezes. Todas caíram na caixa postal. O desespero começava a me consumir por inteiro.
Eu estava prestes a ir até a Empire quando uma notificação no meu celular me parou como um tiro no peito.
Luccas acabara de receber uma mensagem de Bella. Não era texto; era um arquivo de áudio gravado escondido no meu escritório.
Ao dar o play, ele ouviu a voz de Margaret exigindo dinheiro, seguida pela minha própria voz, editada e distorcida por Bella.
"Quanto vocês querem? Eu pago o que for preciso para vocês sumirem da vida dele", dizia a gravação forjada.
A edição fazia parecer que eu estava tentando subornar a família dele para esconder o nosso envolvimento como um erro.
Bella escreveu embaixo: "Viu? Ele nos procurou para oferecer dinheiro. Ele só quer que a gente suma para não passar vergonha."
Luccas, já ferido pela noite anterior, sentiu o golpe de misericórdia. Para ele, o perfume e o suborno eram provas reais.
Ele se sentiu uma mercadoria. Um segredo sujo que Enzo Romano estava tentando enterrar com notas de cem dólares.
Recebi um envelope no restaurante horas depois. Lá dentro estava o crachá de funcionário dele e um bilhete curto.
"Você não pode me comprar, Enzo. E eu não sou um segredo. Fica com o seu dinheiro e sua vida falsa. Acabou."
Senti o chão sumir. A fúria que senti por Bella foi superada apenas pelo ódio que senti de mim mesmo no espelho.
Eu tentei ser o mestre de cerimônias de um banquete de vingança, mas servi minha própria cabeça em uma bandeja para as hienas.
Luccas desapareceu. Bloqueou meu número, saiu do radar de todos, sumindo na vastidão impiedosa de Nova York.
O Chef Romano, que sempre tinha o ponto perfeito da carne, deixou o seu próprio futuro queimar até virar cinzas pretas.
Eu precisava encontrá-lo. Explicar a farsa. Mas como ele acreditaria em mim se eu ainda cheirava a outras mulheres?
A guerra estava declarada, mas eu não tinha aliados. Luccas estava quebrado, e eu era o arquiteto da sua ruína total.
Olhei para o envelope vazio. O silêncio da cozinha nunca foi tão ensurdecedor. O banquete agora tinha o sabor da solidão.
Se fosse necessário queimar minha reputação para tê-lo de volta, eu queimaria. Mas será que eu teria coragem de verdade?
Luccas não queria mais a minha proteção de papel. Ele queria a verdade. E a verdade era algo que eu nunca soube servir.