Capítulo 22 — Confissões no Sal e no Vinho

1280 Words
"A blindagem do Trio de Ferro não resistiu à verdade. Jasmine arrancou minha máscara e o que sobrou foi um homem quebrado, implorando por uma redenção que talvez não mereça. O sal e o vinho não curam a alma; eles apenas revelam o sabor amargo da minha própria covardia." Enzo Romano Quando as máscaras de ferro começam a derreter, o único refúgio é a verdade nua compartilhada com quem nos conhece antes da fama. Se já não bastasse lidar com meus conflitos internos e admitir que não sou o hétero que imaginei, agora enfrento a chantagem daquelas loucas. Preciso evitar que elas destruam o Luccas e nos exponham ao ridículo. O peso da reputação é uma âncora que me puxa para o fundo. Os últimos dias foram um verdadeiro inferno. Luccas manteve-se distante, dificultando até os preparativos para Miami. Ele tentou pedir demissão, mas Jasmine o convenceu a ficar, embora sua frieza agora corte mais que as minhas facas de aço japonês. Estou no meu apartamento após uma noite agitada no Aurora, sentado na minha poltrona predileta, tomando uísque puro. Tento relaxar, mas o silêncio do loft parece amplificar o caos na minha cabeça. Meu celular toca e o nome de Jasmine brilha na tela. — Oi, Jazz... aconteceu alguma coisa? — pergunto, em alerta. Chris também está sob pressão e o clima no nosso grupo nunca esteve tão denso. O Trio de Ferro parece prestes a empenar. — Relaxa, cozinheiro. Só liguei para avisar que estou chegando no seu loft — ela diz, direta como sempre. — Faz tempo que não jogamos conversa fora. Estou sem sono e sei que você também está no limite. — Tudo bem, pittbuzinha. Vou preparar alguma coisa para comermos — respondo, sentindo um alívio genuíno. Jazz é o eixo que mantém as nossas rodas girando sem que o Trio de Ferro desmonte. Sem ela, minha vida seria apenas ego e receitas. Fui até a despensa e selecionei os ingredientes para um Spaghetti Cacio e Pepe. Um clássico italiano: simples, mas que exige técnica perfeita. Piquei os grãos de pimenta-do-reino preta, sentindo o aroma pungente subir. Separei um vinho Pecorino na adega e o coloquei para resfriar. A campainha tocou exatamente vinte minutos depois. Abri a porta e Jasmine entrou como um furacão controlado. Ela jogou a bolsa no sofá e chutou os saltos para longe, sentando-se na bancada alta da cozinha. — O cheiro está incrível, Enzo. Como sempre — ela disse, observando meus movimentos precisos. — É só o básico, Jazz. Vinho? — perguntei, servindo uma taça generosa. Seus olhos astutos me analisavam por cima do cristal, captando cada sinal de cansaço e derrota no meu rosto. — Você está péssimo, sabia? — ela deu um gole no vinho, suspirando. — Parece que não dorme desde que o Império Romano caiu pela primeira vez. — Muito trabalho, Jazz. Miami está me consumindo — menti, focando na água que começava a ferver na panela de inox. — Não minta para mim, Enzo Romano. Eu conheço você e o Chris antes de vocês terem esse verniz de milionários. — Miami vai bem. O problema é interno — ela rebateu, girando a taça com um sorriso de quem sabe de tudo. Continuei mexendo a massa, evitando o contato visual. O vapor subia, embaçando meus pensamentos e minha compostura. — Eu conversei com o Luccas hoje — ela soltou, e o nome dele me atingiu como uma estocada no peito. — Ele parece um fantasma andando pelos corredores da Empire. Está despedaçado. Eu travei por um segundo, a pinça de massa parando no ar. Tentei recompor a postura, mas Jasmine já tinha visto o estrago. — Ele vem insistindo em sair do projeto. Eu sei que o motivo tem nome, sobrenome e uma estrela Michelin — ela continuou. — Jazz, o garoto está passando por problemas familiares. A mãe e a irmã dele são hienas — tentei desviar o foco. — Mas o Luccas não está chorando por causa delas. Ele está abalado por algo que o magoou profundamente — ela se inclinou na bancada. — Enzo, olhe para mim — Jazz ordenou com a voz que faz o Trio de Ferro obedecer sem questionar. Soltei a tigela e a encarei, sentindo minha última blindagem rachar diante da minha melhor amiga. — O que está acontecendo entre vocês? Eu vejo como você olha para ele. Vocês cruzaram a linha, não foi? — Cruzamos, Jazz. Eu me perdi completamente — confessei, sentindo o peso do segredo finalmente escorregar. — Eu nunca imaginei que um garoto pudesse me desarmar assim. Que ele pudesse me fazer sentir tão... vulnerável. Jasmine não pareceu surpresa. Ela apenas acenou, provando a massa com uma calma que me desesperava. — E por que ele está agindo como se você fosse o vilão? O que você aprontou, cozinheiro? — Eu fiz merda, Jazz. Eu tive medo. Medo da exposição, da minha reputação — desabafei, a voz embargada. — Fui para uma casa de massagem com o Alex só para provar que eu ainda era o mesmo Enzo. O pegador invicto. Jasmine largou o garfo. Seus olhos se estreitaram em uma mistura de decepção e incredulidade. — Você foi o quê? Enzo, você é um i****a completo. O garoto está sendo caçado e você vai buscar alívio com profissionais? — Eu sei! Eu me sinto um lixo. Mas não foi só isso. A Bella gravou e editou uma conversa nossa. Contei tudo. O áudio forjado, a visita das Ashford, o cheiro de perfume que ele sentiu e o desprezo no olhar dele. — Ele acha que eu o vejo como uma mercadoria. Um segredo sujo que eu quero abafar com dinheiro — terminei, exausto. Jasmine ficou em silêncio por um longo tempo, limpando os lábios e tomando o resto do vinho. — Você está apaixonado por ele, Enzo? — ela perguntou, sem sarcasmo. — Responda como homem, não como Chef. — Eu nunca senti nada parecido. Ele me faz querer ser alguém melhor, Jazz. Mas eu só consigo estragar tudo. — Então você vai ter que lutar. O Luccas é um sobrevivente, mas ninguém sobrevive sozinho para sempre. — Ele me odeia agora, Jazz. Ele não quer mais me ver — murmurei, sentindo um vazio insuportável. — Ele não te odeia. Ele está ferido. E homem ferido a gente cura com atitude, não com desculpas. Ela se levantou e segurou meu rosto com as duas mãos, transmitindo uma força que eu já não tinha. — Você vai para Miami amanhã. Ele vai com você. — Você vai usar esse tempo para provar que a única coisa que você quer comprar é o perdão dele. Entendeu? — Eu aprendi a lição, Jazz. Da pior forma possível — respondi, vendo-a pegar a bolsa. — Vou deixar você com seus pensamentos. E Enzo? Sem mais casas de massagem — ela avisou, séria. — Obrigado por vir, Jazz. Eu precisava disso. E... vamos deixar esse assunto só entre nós por enquanto. — Tudo bem, meu irmão. Só seja honesto com você. Sempre — ela sorriu e saiu, deixando o loft em silêncio. Voltei para a poltrona e olhei para o celular. Miami seria o palco do nosso acerto de contas. Ou do nosso fim. Eu não era mais o "blindado". Eu era apenas um homem possessivo com medo de perder a única luz que iluminava sua alma. Amanhã, no céu de Miami, eu teria que decidir: manter minha reputação ou queimar o mundo para ter o Luccas de volta. Mas o que eu não sabia é que Bella Ashford já tinha dado o próximo passo, e o avião para Miami seria o início de um novo pesadelo.
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