"Estar perto de Luccas Ashford era segurar brasas com as mãos nuas. Como especialista em anatomia, nada me preparou para aquela curiosidade predatória. Eu gosto de curvas, de mulheres; então por que meu sangue fervia por ele? Luccas não era apenas um homem; era o início do meu naufrágio."
— Enzo Romano
Estar a centímetros de Luccas Ashford era um convite ao desastre, e eu sempre fui um homem que apreciou o perigo.
Eu me considerava um especialista em anatomia — ou pelo menos na parte que me interessava nas mulheres que passavam pela minha cama.
Mas nada no meu histórico de conquistas em Manhattan me preparou para a descarga elétrica que aquele garoto provocava.
Era uma mistura de repulsa por mim mesmo e uma curiosidade predatória que eu simplesmente não conseguia aplacar.
Eu sou hétero. Eu gosto de curvas que se moldam às minhas mãos, do cheiro de perfume doce e feminino.
Então, por que diabos eu estava parado naquele bar de mármore n***o, sentindo o meu sangue ferver por causa dele?
— Você ainda não respondeu à minha pergunta, Chef — Luccas disse, apoiando os cotovelos no balcão de mármore.
Ele tinha uma aparência que misturava fragilidade e uma força inquebrável, um contraste que me deixava em alerta máximo.
Victoria mencionara que eles haviam sido expulsos de casa, descartados pelos próprios pais como se fossem lixo.
Olhando para Luccas agora, eu via a mesma sombra que Christopher carregava: a marca de quem foi traído por quem deveria proteger.
— O segredo para ser sério, Luccas, é que a vida não é uma festa de inauguração constante — respondi, tentando manter meu escudo.
— Alguém tem que manter os pés no chão enquanto o resto do mundo flutua em espumante barato — completei, com a voz firme.
Eu precisava do meu tom ácido. Ele era a única coisa que impedia meus olhos de devorarem cada detalhe do rosto dele.
— E você escolheu ser esse alguém? — Ele deu um sorriso de lado, mas seus olhos não brilharam. Havia uma solidão ali.
Aquela tristeza atravessou minha couraça com a precisão de uma lâmina de cerâmica, atingindo direto o que restava do meu coração.
— Parece um trabalho solitário — ele sussurrou, e o som da sua voz me atingiu como uma carícia proibida.
— A solidão é silenciosa, Luccas. Eu prefiro o silêncio ao ruído de mentiras que as pessoas trocam em lugares como este.
Pedi um Negroni duplo. Precisava do amargor do gim para equilibrar a doçura hipnótica que aquele garoto emanava.
Observei Luccas pelo canto do olho.
Ele segurava o copo de água tônica com uma rigidez que denunciava seu pânico interno.
Eu já tinha visto aquele olhar antes: era o olhar de quem está em território inimigo, esperando pelo golpe fatal.
Eu não sabia que Luccas nunca tinha se envolvido com ninguém.
Não sabia que ele era um diamante bruto, intocado.
Para mim, naquele momento, ele era apenas um desafio insolente à minha própria identidade e às minhas certezas.
— Por que você está me olhando assim? — ele perguntou, voltando o rosto para mim.
A proximidade era um erro geográfico.
— Assim como? — devolvi, sentindo o calor que emanava da pele dele queimar o ar entre nós.
— Como se eu fosse um ingrediente que você não sabe se coloca na panela ou se joga no lixo — ele disparou.
A analogia culinária me pegou desprevenido.
Soltei um riso curto, sentindo o impacto daquela percepção tão aguçada.
— Você é um Ashford, Luccas. É irmão da mulher que está mudando o meu melhor amigo. Você é um problema em potencial.
— É só isso? — Ele se inclinou mais um pouco, desafiando a distância de segurança que eu tentava manter a todo custo.
O perfume dele não era doce; era algo cítrico, fresco, como as manhãs na Toscana antes de a minha vida apodrecer.
— Porque o jeito que você me olhou na mesa não dizia que eu era um problema. Dizia que você estava... assustado.
Aquelas palavras foram um soco no meu estômago.
Ninguém me chamava de assustado. Eu era o homem que causava medo.
Eu comandava cozinhas estreladas com o rigor de um carrasco.
Eu dominava Manhattan. Eu não sentia medo de nada.
— Você é muito presunçoso para alguém que m*l saiu das fraldas, garoto — rosnei, tentando retomar o controle da situação.
— E você é muito defensivo para alguém que diz ter tudo sob controle — ele rebateu, a voz baixando para um sussurro vibrante.
Ficamos em silêncio enquanto a música eletrônica da Empire Nights criava uma bolha de isolamento ao nosso redor.
Eu deveria me levantar agora.
Deveria procurar a modelo mais deslumbrante da VIP e provar que eu ainda era o mesmo Enzo.
Mas meus pés pareciam fundidos ao chão do cassino.
Eu estava fascinado pela vulnerabilidade crua que ele exibia.
Luccas parecia estar se segurando por um fio de seda, e eu sentia uma vontade sombria de ser o homem a cortar esse fio.
Senti um instinto estranho de proteção, mas ele estava perigosamente misturado a um desejo sombrio e proibido.
Eu queria quebrar aquele verniz de inocência.
Queria ver o que aconteceria se eu o pressionasse contra a parede.
— Você nunca fez isso, não é? — as palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse contê-las.
Luccas empalideceu levemente sob as luzes de neon.
— Fez o quê, exatamente, Chef? — ele perguntou, incerto.
— Este jogo. A sedução, o bar, o luxo. Você parece um cervo diante dos faróis de um caminhão, Luccas.
Ele desviou o olhar, e o tremor nas suas mãos brancas ficou evidente.
Ali, a minha ficha finalmente caiu.
Ele não era um conquistador barato de Vegas. Ele era um fugitivo.
Estava escondendo algo tão profundo quanto os meus segredos.
— Meus pais acham que eu sou uma aberração — ele disse, tão baixo que o som quase se perdeu no ruído da festa.
— Eles me expulsaram porque "desconfiavam". Nem esperaram eu dizer nada. Simplesmente me descartaram — revelou ele.
O peso daquelas palavras me atingiu com a força de um trem de carga.
Eu sabia exatamente como era ser descartado.
A raiva que eu sentia pela minha própria confusão s****l se transformou em uma empatia dolorosa e violenta.
— Eles são idiotas — sentenciei, minha voz perdendo o tom ácido e ganhando uma gravidade perigosa.
— Pessoas que descartam o próprio sangue por regras imbecis não merecem o ar que respiram, Luccas — afirmei, olhando-o fixamente.
Luccas voltou a me encarar, e o brilho nos seus olhos agora era de pura e absoluta surpresa diante da minha defesa.
— O grande Chef Romano tem coração, afinal? — ele provocou, mas havia uma carência implícita na sua voz.
— Não abuse da sorte, Ashford — respondi, mas não recuei.
Pelo contrário, minha mão se moveu milímetros em sua direção.
Eu estava lutando contra cada fibra do meu ser que gritava que aquilo era loucura, que eu era hétero, que deveria parar.
Mas a conexão era magnética.
Eu via nele o reflexo da minha própria dor, e ele via em mim um porto seguro improvável.
— Enzo... — ele chamou meu nome, e a forma como as sílabas saíram de seus lábios causou um incêndio no meu baixo ventre.
— Vá para perto da sua irmã, Luccas — ordenei, embora quisesse arrastá-lo para a suíte mais luxuosa deste hotel.
— Este lugar está cheio de lobos. E eu garanto a você: eu sou o pior de todos eles — completei, com a voz rouca.
— Talvez eu não queira ficar perto da Victoria a noite toda — ele disse, com uma coragem renovada que me desarmou.
— E talvez eu não tenha medo de lobos, especialmente de um que late tanto quanto você — desafiou ele, inclinando o corpo.
Ele se levantou, mas antes de sair, fez questão de roçar o ombro no meu em um toque que pareceu uma marcação de ferro.
Fiquei ali, olhando para o meu copo vazio, sentindo o meu coração martelar contra as costelas como um animal enjaulado.
Eu estava em apuros. Grandes e profundos apuros que poderiam colocar todo o meu império em risco.
Eu vim para Vegas para celebrar a liberdade, mas em uma hora, Luccas Ashford me transformou em um prisioneiro.
Eu era hétero, eu tinha certeza... até aquele maldito segundo.
Eu só conseguia pensar no gosto daquela boca.
O jogo tinha mudado. E, pela primeira vez na vida, eu não estava jogando para ganhar.
Eu estava apenas tentando não queimar.
Mas enquanto o via sumir na multidão, eu soube: o incêndio já tinha começado, e eu não queria que ninguém o apagasse.