Capítulo 4 – O Ingrediente Inesperado

1160 Words
"Vegas é o playground perfeito: mais barulhenta que meus pensamentos e mais artificial que minhas promessas. Eu era o mestre da mesa — elegante, ácido e intocável. Mas a cidade não perdoa o excesso de confiança. O destino reservou um ingrediente que eu não previ, capaz de incendiar toda a minha cozinha." — Enzo Romano Vegas é uma miragem construída sobre o pecado e o excesso. Para mim, sempre foi o refúgio ideal. É o lugar onde a superficialidade é a regra e ninguém espera que você entregue nada além de prazer e dinheiro. Os anos em Nova York foram implacáveis, e eu fui ainda mais. O meu império, o La Tavola di Enzo, era a minha prova de vida. Eu não precisava do sobrenome Romano. Eu era o rei de Manhattan, comandando cozinhas com o rigor de um general de ferro. Minha rotina era uma sinfonia de precisão: treino pesado ao amanhecer, disciplina militar ao anoitecer. Eu era o homem que alimentava os desejos da elite, mas mantinha o meu próprio coração trancado em um cofre de titânio. O pacto do "Trio de Ferro" era claro: o prazer era livre, o sexo era uma transação, mas o sentimento era proibido. Por isso, quando Chris me ligou para a inauguração da Empire Nights, eu aceitei sem hesitar. Eu precisava do brilho cafona de Vegas para me lembrar de que a vida é apenas um show de luzes passageiro. — Se você não vier, Enzo, mando o Alex hackear suas reservas e cancelar todos os seus jantares — Chris brincou. Eu sentia a empolgação dele. Era a sua maior aposta, o monumento ao excesso que ele construiu com sangue e suor. E lá estávamos nós. A Empire Nights era um labirinto de ouro, veludo e luzes neon que cortavam a escuridão da alma. Chris estava no centro de tudo, mas havia algo diferente nele. O magnetismo habitual agora tinha um novo foco: Victoria. Eu o observava do bar, segurando um copo de cristal com um uísque que custava mais do que o aluguel de muita gente. — Você está analisando o custo-benefício do gelo de novo, Enzo? — Chris apareceu ao meu lado, rindo com Victoria. — O gelo é bom, Chris. O que me preocupa é a quantidade de açúcar no ar — respondi com meu habitual humor ácido. — Relaxe, fratello. Hoje a noite é nossa — ele insistiu, irradiando uma felicidade que eu quase não reconhecia mais. Falamos sobre a expansão para Miami e sobre os algoritmos de Alex. Éramos os mesmos garotos da Toscana, mas em ternos caros. Até que o mundo decidiu sair do eixo. O ar na boate pareceu rarefeito, e a música tornou-se um ruído de fundo. Chris se afastou e voltou momentos depois, trazendo consigo alguém que parecia ter sido esculpido em um material proibido. — Enzo, este é Luccas Ashford, irmão da Victoria — Chris apresentou, com um sorriso casual e inconsciente do desastre. Eu já lidei com modelos, atores e herdeiros em Manhattan. Eu conhecia a beleza, ou achava que conhecia. Mas Luccas... Luccas era um insulto a qualquer tentativa de indiferença. Ele era um convite aberto ao caos absoluto. Ele tinha uns vinte e quatro anos, uma beleza arrebatadora e um sorriso que parecia brilhar sob o neon de forma predatória. — Prazer, Enzo Romano. Chris fala muito de você. O mestre das panelas, certo? — Luccas estendeu a mão. Sua voz era um veludo perigoso, carregada de uma autoconfiança que me irritou e me paralisou no mesmo segundo. — Chef de cozinha, Luccas. "Mestre das panelas" soa como televendas — respondi, tentando manter minha aura de gelo. Apertar a mão dele foi o meu maior erro. O toque foi como encostar em um fio desencapado de alta voltagem. Uma corrente elétrica percorreu meu braço, atingindo meu peito com uma violência que me deixou sem fôlego. Eu, o homem estritamente hétero, o mestre do controle, senti o chão tremer sob meus sapatos de grife. — Ácido — Luccas riu, e seus olhos fixaram nos meus de uma forma que ninguém jamais ousara fazer. Ele não tinha medo da minha frieza. Pelo contrário, ele parecia querer usá-la como combustível para o seu próprio fogo. — Gosto de temperos fortes, Chef — completou ele, e o tom de sua voz sugeria muito mais do que culinária. Eu não conseguia desviar o olhar. Era magnético, era errado, era absolutamente aterrorizante para a minha mente lógica. Luccas exalava uma sensualidade que não pedia licença. Ele se movia como um predador que já havia escolhido sua presa. Pela primeira vez em décadas, eu não tinha uma resposta pronta. Meu humor ácido evaporou, deixando apenas o choque. O que era aquilo? Eu nunca tinha sentido atração por um homem. Eu gostava de curvas, de mulheres, do jogo que eu dominava. Mas Luccas não era apenas "um homem". Ele era uma força da natureza derrubando as barreiras que levei anos para construir. — Você está bem, Enzo? — Victoria perguntou, percebendo que o "Chef de Ferro" estava subitamente mudo. — Só o jet lag, Victoria. Vegas sempre me deixa um pouco... desorientado — menti, virando o uísque de uma vez. Mas eu sabia que a desorientação tinha nome e sobrenome. E ele estava bem na minha frente, sorrindo de soslaio. Tentei focar nas outras pessoas, nas mulheres deslumbrantes da VIP, mas meus olhos sempre voltavam para ele como um ímã. Luccas era o ingrediente que eu nunca incluí na minha receita de vida. Perigoso, exótico e capaz de estragar meu cardápio. — Vou pegar outro drink — anunciei, precisando desesperadamente de oxigênio e de distância daquele magnetismo. — Eu vou com você, Chef — Luccas disse prontamente, antes que eu pudesse escapar para as sombras da boate. — Quero que me conte o segredo para ser tão sério aqui. Ou está apenas esperando o momento certo para me atacar? Ele piscou. Um gesto simples e atrevido que me fez sentir como se eu tivesse vinte e um anos novamente, vendo meu mundo ruir. Caminhei até o bar, sentindo a presença dele logo atrás de mim, como uma sombra que eu não conseguia despistar. A barreira que eu jurava ser impenetrável estava sofrendo sua primeira rachadura real sob o calor daquele olhar. Eu não sabia ainda, mas aquela noite em Vegas seria o prólogo da minha maior derrota. Ou da minha libertação. Luccas Ashford não era apenas o irmão da namorada do meu amigo. Ele era o início do fim do homem que eu fingia ser. E o pior de tudo? Eu m*l podia esperar para sentir o gosto desse desastre, mesmo que ele me consumisse por inteiro. Olhei para ele pelo reflexo das garrafas de cristal no bar. O jogo tinha mudado. E eu não era mais o dono das regras. Vegas tinha me dado um novo ingrediente. E eu estava prestes a descobrir se ele seria minha cura ou meu veneno final.
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