Capítulo 29 – O Isolamento

1146 Words
"Nova York nunca pareceu tão cinza e hostil. Eu achava que o amor era a solução, mas descobri que, no mundo em que nos metemos, ele é apenas o alvo mais fácil para os nossos inimigos. O gelo de fora é suportável; o que me apavora é o frio que começou a crescer aqui dentro." — Luccas Ashford Meu retorno a Nova York iria causar questionamentos inevitáveis. Eu sabia disso. Não poderia deixar que ninguém desconfiasse que minha fuga tinha a ver com Enzo Romano e o rastro de destruição que ele provocou em Miami. Saí do aeroporto sentindo o frio congelante da cidade cortar meu rosto, um contraste brutal com o fogo de decepção que ainda ardia em meu peito. Caminhei pelas ruas familiares tentando ensaiar uma máscara de normalidade que eu sabia ser frágil demais. — Luccas, que bom que você está aqui! — Victoria exclamou, correndo para me abraçar assim que entrei no apartamento. Retribui o abraço, mas senti o corpo dela tenso, os dedos cravando-se levemente nos meus ombros. — O que houve, Vic? — perguntei, afastando-me para olhar em seus olhos. Ela estava visivelmente nervosa. — Precisamos conversar. Por que voltou tão cedo? Pensei que ficaria com o Enzo até a inauguração em Miami — ela questionou. — Conseguimos adiantar muita coisa. O Romano consegue dar conta do resto sem mim — respondi, tentando soar natural. Engoli o seco, esperando que ela não percebesse a amargura que o nome dele deixava em minha boca. — Tenho muitas coisas atrasadas da faculdade, Vic. Preciso colocar tudo em dia e decidi aproveitar o tempo — menti. — Luccas... estamos com problemas. Problemas graves — ela disparou, sentando-se no sofá com as mãos trêmulas. O tom de voz dela me fez esquecer minha própria dor por um momento. A urgência na sua postura era real. — Meu irmão, precisamos pensar em como lidar com os ataques da Bella e as consequências disso tudo — ela começou. — Não me diga que aquela garota fez merda novamente — bufei, sentindo uma dor de cabeça começar a latejar. — Não ela, exatamente. Mas as postagens dela abriram caminho para outra pessoa nos ameaçar. Alguém muito pior. — Quem está nos ameaçando, Victoria? Fala logo! — minha voz subiu um tom, o nervosismo finalmente transbordando. Ela respirou fundo, os olhos marejados de medo e indignação enquanto buscava forças para continuar. — O Senador Richard Davis. O pai do Chris — ela revelou, e o nome dele soou como uma sentença de morte no silêncio da sala. Senti um calafrio percorrer minha espinha. Sabíamos que a família de Chris era poderosa, mas não imaginávamos esse nível de hostilidade. — Ele entrou em contato comigo, Luccas. Ofereceu uma quantia obscena de dinheiro para sumirmos de Manhattan. — O quê? Ele quer nos subornar para deixarmos o filho dele em paz? — perguntei, incrédulo com tamanha audácia. — Sim. Ele disse que se não aceitarmos, teremos grandes problemas. E ele não estava brincando, eu vi nos olhos dele. Victoria começou a soluçar, a pressão de ser o alvo de um homem tão influente finalmente a quebrando. — Ele citou as postagens da Bella sobre você, Luccas. Ele sabe sobre sua orientação s****l e pretende usar isso para nos destruir. — Ele quer causar um escândalo? No meio de uma campanha política? — questionei, sentindo a raiva substituir o medo. — Ele quer nos humilhar. Ele acha que somos "oportunistas de baixo nível" manchando o sobrenome dos Davis. Andei de um lado para o outro no apartamento, sentindo as paredes se fecharem ao meu redor como uma armadilha. Mantive minha orientação s****l em segredo até que eu me sentisse seguro em revelar. Agora vejo minha vida sendo exposta sem o menor pudor. Como se eu fosse um criminoso. — Conviver com esse grupo agitou demais nossas vidas, Vic. Nós nos vimos em perigo por causa de amizades que não podemos recusar. “Eles estiveram conosco quando mais precisamos. Ao contrário da nossa família.” — Eu concordo — ela disse, limpando as lágrimas com firmeza. — Eu vou me manter distante do Chris a partir de agora. “Pra evitar mais exposição e não provocar esse homem” — Não quero confrontos com o Senador. Não posso arriscar nosso futuro por um relacionamento que ele nunca vai aceitar. Olhei para minha irmã e vi o sacrifício que ela estava disposta a fazer. E eu, no fundo, senti um alívio egoísta. Aquela era a desculpa perfeita que eu precisava para me afastar de Enzo sem ter que explicar a humilhação que vivi em Miami. — Você tem razão, Victoria. Precisamos nos proteger. Eu também vou me afastar do Romano — declarei, minha voz soando oca. — Vou conviver com ele apenas o estritamente necessário para o trabalho. Victoria assentiu, sem saber que o meu motivo era tão doloroso quanto o dela. Estávamos ambos fugindo de homens que amávamos. Fui para o meu quarto e joguei o celular sobre a cama. O aparelho vibrou quase instantaneamente, iluminando o quarto escuro. O nome de Enzo brilhava na tela. Ignorei. Ele ligou novamente, uma, duas, três vezes. O som parecia um martelo batendo em pregos. Depois vieram as mensagens. "Luccas, atenda.", "Precisamos conversar sobre o que você viu.", "Não tire conclusões precipitadas." Ri com amargura. "Conclusões precipitadas"? Eu vi a Sofia abalada enquanto conversavam. Eu vi a história se repetindo. Minha dor agora tinha que ser engolida. As ameaças do Senador Davis eram reais e imediatas, exigindo minha atenção total. Eu não tinha tempo para lidar com a inconstância de um homem frustrado e quebrado como Enzo Romano. Eu tinha que salvar o que restava da minha dignidade e a segurança da minha irmã, custasse o que custasse. O celular vibrou uma última vez antes de eu desligá-lo completamente, mergulhando o quarto no silêncio da noite. Enzo podia gritar pelo meu nome o quanto quisesse; eu tinha me tornado o gelo que ele tanto se orgulhava de ser. Mas enquanto eu fechava os olhos, a imagem de Richard Davis e suas ameaças me faziam temer pelo que viria a seguir. Nós estávamos mexendo com monstros, e eu temia que, ao fugir de um coração partido, eu estivesse correndo para um abismo sem volta. O Senador não pararia no suborno. Homens como ele só param quando eliminam completamente a "ameaça". E em Nova York, o silêncio custa caro. Mas o preço de bater de frente com o poder pode ser a nossa própria vida. Olhei para a janela, onde as luzes da cidade pareciam olhos vigilantes, e soube que a guerra estava apenas começando. Enzo Romano queria o meu perdão, mas agora ele teria que lidar com algo muito mais letal do que o meu desprezo. Ele teria que lidar com o fato de que, para me proteger, eu estava disposto a nunca mais deixá-lo entrar.
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