PRÓLOGO
Lucca Narrando.
A casa estava silenciosa quando entrei.
O Dom havia viajado naquela manhã e, enquanto estivesse fora, eu ficaria responsável por manter tudo sob controle.
Inclusive o filho dele.
Não é exatamente o tipo de tarefa que eu costumo assumir.
Eu sou o consigliere da família.
Minha função é cuidar dos negócios, antecipar ameaças e garantir que ninguém colocasse a família em risco.
Ajudar a cuidar de uma criança, ou melhor, um bebê, não estava exatamente na minha lista de prioridades.
Entrei na mansão e tudo estava em silêncio.
Deixei o paletó sobre o braço e caminhei até a sala, observando o ambiente.
Foi quando ouvi passos pequenos.
Rápidos.
Olhei para o corredor.
Um garotinho apareceu correndo.
Ele parou por alguns segundos quando me viu.
Eu também parei.
Ficamos nos encarando.
Ele inclinou a cabeça, curioso.
Eu não disse nada.
Ele também não.
Até que, de repente, ele abriu um sorriso e correu na minha direção.
Franzi a testa.
— Ei... — falei.
Não deu tempo.
O pequeno bateu contra minhas pernas e segurou minha calça com as duas mãos.
Olhei para baixo, completamente imóvel.
Eu não fazia ideia do que fazer.
— Você está perdido? — perguntei.
Ele levantou o rosto para mim.
E sorriu novamente.
Foi quando uma voz feminina veio do corredor.
— Liam! — ela chamou, desesperada.
A mulher apareceu quase correndo.
Assim que viu o filho agarrado às minhas pernas, ficou pálida.
— Meu Deus! Me desculpa! — ela falou, aproximando-se rapidamente.
Ela se abaixou à minha frente e tentou pegar o menino.
— Liam, vem aqui. Agora — ela falou.
Mas ele não soltou.
Olhei para a mulher pela primeira vez.
Ela parecia nervosa.
Não comigo.
Com a situação.
— Eu sinto muito. Ele nunca faz isso — ela falou, sem graça.
— Tudo bem — eu falei.
— Liam, para com isso. Vem — ela falou, soltando as mãos dele da minha calça.
E finalmente conseguiu tirar Liam de perto de mim e o colocou no colo.
— Desculpa, não sei por que ele fez isso. Ele nem conhece você — ela falou.
— Eu também não conheço ele — eu falei.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois soltou uma pequena risada.
— Justo — ela falou.
Olhei para o menino.
Ele ainda me encarava com a cabeça no ombro dela.
Como se estivesse tentando descobrir quem eu era.
— Liam, dá tchau — ela falou baixinho.
Liam simplesmente escondeu o rosto no pescoço dela.
Pela primeira vez, quase sorri.
Quase.
— Ele não parece muito convencido em ir — eu falei.
Ela sorriu.
— Daqui a pouco ele volta, ele adora fugir de mim — ela falou e riu.
E aquele som me fez olhar para ela novamente.
Eu ainda não sabia o nome dela.
Mas, naquele instante, alguma coisa chamou minha atenção.
Talvez fosse o jeito como ela segurava o filho.
Talvez fosse aquele sorriso que parecia não combinar com o ambiente onde estávamos.
Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, depois de tantos anos acostumado a não sentir absolutamente nada, eu tivesse ficado curioso.
E eu odiava ficar curioso.
Principalmente sobre pessoas.
Principalmente sobre uma mulher que eu acabei de conhecer.
Ela me olhou por mais alguns segundos.
— Eu sou Amanda, trabalho na casa — ela falou.
— Lucca, o consigliere — eu falei.
Ela assentiu.
— Eu sei. O Marcos comentou que você viria — ela falou.
Apenas assenti.
— Então você vai cuidar da segurança enquanto ele estiver fora? — ela perguntou.
— Sim — respondi.
— Vai ficar aqui? — ela perguntou.
— Sim — respondi.
Ela olhou para Liam, que ainda estava em seu colo.
— Ele não costuma fazer isso com as pessoas — ela falou.
Olhei para o menino.
— Percebi — falei.
Ela sorriu.
— Acho que ele gostou de você — ela falou.
— Ele não me conhece — falei.
— Criança não liga muito para isso — ela falou.
Apenas assenti.
Ela me observou por alguns segundos.
— Você sempre fala pouco? — perguntou.
— Sim — respondi.
Ela soltou uma pequena risada.
— Pelo menos é sincero — falou.
Não respondi.
— Você é sempre sério assim também? — perguntou.
— Quase sempre — respondi.
— Quase? — perguntou novamente.
— Às vezes — falei.
Ela sorriu.
— Então existe um pouco de humor aí dentro — ela falou.
Olhei para ela.
— Talvez — falei.
Ela riu novamente.
— Está vendo? Consegui mais de uma palavra — ela falou.
Fiquei em silêncio.
Ela parecia se divertir com isso.
— Você não gosta muito de conversar, não é? — ela perguntou.
— Não — respondi.
— Eu já falo demais — ela falou.
— Percebi — falei.
Ela abriu um sorriso.
— E isso não incomoda você? — ela perguntou.
— Ainda não — respondi.
Ela ficou me olhando por alguns segundos.
— Então vou tentar não abusar — ela falou.
Apenas assenti.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Ela parecia não saber se continuava falando ou se me deixava em paz.
— Bom... acho que vou deixar você fazer seu trabalho — ela falou.
Assenti.
Ela deu alguns passos pelo corredor, mas parou.
— Lucca? — me chamou.
Olhei para ela.
— Sim? — falei.
— Seja bem-vindo — ela falou.
Não respondi de imediato.
Assenti.
Olhei para ela.
E depois para Liam.
Ela sorriu e seguiu pelo corredor com Liam nos braços.
Fiquei olhando até ela desaparecer.
Amanda falava bastante.
Muito mais do que eu estava acostumado.
Mas, estranhamente, não tinha sido irritante.
Pelo contrário.
Eu tinha respondido mais do que normalmente responderia para alguém que acabei de conhecer.
E isso, por algum motivo, me chamou a atenção.
Eu tinha chegado naquela casa acreditando que teria apenas mais uma missão.
Proteger o filho do Dom enquanto ele estivesse fora.
Não imaginava que, naquela mesma tarde, conheceria duas pessoas que, de alguma forma, começariam a ocupar um espaço que eu nunca havia permitido que ninguém ocupasse.