Capítulo 9 – As Primeiras Fendas

721 Words
As novas regras pareciam simples. Reuniões combinadas, nada de segredos, nada de mensagens privadas. Mas o que parecia um acordo, na verdade, era apenas uma trégua frágil — uma linha fina entre confiança e provocação. Maya voltou à rotina deles como quem nunca tivesse ido embora. Chegava sempre com um sorriso tranquilo, presenteava Isadora com pequenas gentilezas — flores, chocolates, elogios sutis — e, ao mesmo tempo, lançava olhares demorados para Henrique, como quem testava a força das palavras ditas. No início, Isadora fingiu não perceber. Mas o incômodo crescia silencioso, como uma rachadura invisível. * O Charme e o Controle Henrique tentava manter tudo dentro do limite. Era educado, atencioso, mas evitava qualquer gesto que pudesse ser interpretado como i********e. Mesmo assim, sua natureza galanteadora escapava — um comentário aqui, um sorriso acolá. Maya sabia disso. Sabia onde mirar, o que dizer, quando recuar. A cada encontro, ela se tornava mais confiante, mais ousada. E Isadora, observando, via o perigo se aproximar com o mesmo fascínio de quem assiste a uma chama crescer demais. — Você parece mais leve ultimamente — disse Maya, certa noite, enquanto os três jantavam juntos. Henrique sorriu de forma breve. — Talvez porque agora tudo está mais claro. — Ou porque você se sente no controle — respondeu ela, deixando a frase cair entre os dois. Isadora franziu o cenho. Não era o que ela disse, era o como disse. Aquela mistura de desafio e doçura, tão natural em Maya, começava a ganhar força demais. * O Jogo Silencioso Com o passar das semanas, o grupo de mensagens virou o novo campo de batalha. Entre conversas triviais e piadas inofensivas, Maya aprendia a provocar de forma quase imperceptível. Maya: “Henrique, aquele projeto novo terminou? Você parecia exausto.” Isadora: “Ele terminou sim. E dormiu o dia inteiro no sábado.” Maya: “Ah... devia ter deixado eu cuidar dele.” Isadora leu aquilo três vezes. Não havia insulto, mas havia algo escondido. Um e se insinuante, um convite disfarçado de brincadeira. Naquela noite, Isadora fechou o aplicativo e foi dormir com o peito apertado. Não era ciúme — era o medo de que o jogo estivesse fugindo de suas mãos novamente. * As Primeiras Faíscas O desequilíbrio veio de forma sutil. Numa tarde, enquanto Isadora terminava uma ligação de trabalho, Maya e Henrique conversavam na varanda. Ela o elogiava por algo banal — a voz, a paciência, o jeito com que falava das coisas que amava. Henrique riu, desconfortável, mas não interrompeu. Quando Isadora entrou na sala, os dois se calaram. Nada aconteceu. Mas o silêncio falava por eles. Durante o jantar, Isadora manteve a compostura. Falava pouco, observava muito. Até que Maya soltou, com naturalidade: — Sabe, Isa, eu admiro o quanto vocês se completam. Henrique tem uma energia protetora... e você tem um poder calmo que o equilibra. — E onde você se encaixa nisso? — perguntou Isadora, sem piscar. Maya sorriu. — Talvez eu seja só o vento que lembra o fogo de que ele ainda pode queimar. A resposta foi um golpe suave — e Henrique, sem saber o que dizer, desviou o olhar. * O Espelho Mais tarde, quando Maya foi embora, Isadora ficou olhando pela janela, tentando organizar o turbilhão dentro de si. Henrique se aproximou, preocupado. — Você está bem? — Estou. Só... tentando entender o que ela quer. — Talvez ela só queira fazer parte. — Ou talvez queira provar que pode ser mais do que isso. Ele suspirou, encostando a testa na dela. — Eu não vou cruzar nenhuma linha, Isa. — Às vezes, Henrique... é a linha que vem até você. Ele ficou em silêncio, porque sabia que ela tinha razão. Maya era como uma maré — recuava, mas sempre voltava com mais força. * O Pressentimento Naquela noite, Isadora sonhou com uma casa em chamas. Ela tentava apagar o fogo com as próprias mãos, mas quanto mais corria, mais o calor crescia. Quando acordou, suada, percebeu que Henrique dormia tranquilo ao seu lado. Pegou o celular, ainda tonta, e viu uma nova mensagem no grupo: Maya: “Boa noite, meus dois preferidos. Sonhem comigo.” Isadora apagou a tela sem responder. Mas o frio na espinha denunciava o que ela já sabia: Maya não estava apenas testando limites. Estava os redefinindo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD