Capítulo 8 – Regras do Jogo

712 Words
O reencontro mudou tudo. Depois daquela noite silenciosa, Isadora e Henrique decidiram seguir com o que haviam começado — mas, dessa vez, com regras claras, quase frias, como um contrato emocional. Nada seria impulsivo. Nada seria segredo. E acima de tudo: Isadora vinha em primeiro lugar. Maya concordou. Ou, pelo menos, fingiu concordar. O primeiro encontro dos três depois da reconciliação foi tenso e bonito ao mesmo tempo. Havia sorrisos contidos, olhares que ainda buscavam perdão, e uma atmosfera diferente — mais madura, mais consciente. Henrique foi quem mais mudou. Cauteloso, protetor, mas ainda com aquele jeito irresistivelmente atencioso. Ele não sabia amar pela metade — nem mesmo quando tentava. * Os Presentes Com o tempo, as visitas de Maya se tornaram frequentes. E com elas, vieram os gestos de Henrique. Um perfume novo. Um colar delicado. Um jantar caro no restaurante que ela disse gostar. — Você não precisava disso — disse Maya, ao ganhar um livro raro de design que ele havia encomendado. Henrique sorriu, educado, encantador. — Eu gosto de cuidar de quem me faz bem. Isadora observava tudo com atenção. Não havia raiva, mas um tipo de desconforto silencioso — o medo de que o equilíbrio do trio pendesse para um lado só. Henrique parecia não notar. Tratava Maya como uma dama, sempre com respeito e galanteria, mas às vezes esquecia que Isadora estava ali. Não por desprezo — e sim porque o charme era parte dele, natural, involuntário. Isadora sabia disso. Mas nem sempre bastava saber. * As Regras Para evitar novos m*l-entendidos, criaram um grupo de mensagens — um espaço compartilhado onde tudo era dito, combinado e vivido juntos. Nenhum contato fora dali. Nenhum segredo. Henrique foi o primeiro a reforçar: — A gente precisa de transparência. É o único jeito de não nos perdermos. Maya respondeu com um emoji simples: Mas nas entrelinhas, algo pulsava. Ela queria mais. Mais atenção. Mais espaço. Mais dele. Mesmo sabendo das regras, Maya começava a testar os limites. Mensagens inocentes em horários improváveis. Um elogio discreto direcionado só a ele. Pequenas faíscas tentando reacender algo que o casal lutava para controlar. Henrique, sempre gentil, respondia de forma neutra — mas o gesto, o tom, o cuidado dele com Maya eram impossíveis de disfarçar. * O Desequilíbrio Numa das noites, enquanto conversavam no grupo, Isadora percebeu que os dois riam de algo que ela não tinha entendido. Uma piada, um código entre eles. E pela primeira vez desde que tudo começou, sentiu-se como uma espectadora dentro da própria história. — Vocês parecem se entender bem — disse ela, tentando soar leve. Henrique olhou pra ela, surpreso. — Amor, é só conversa. Maya, por outro lado, desviou o olhar. O silêncio que seguiu foi mais revelador do que qualquer palavra. * Entre Limites e Desejos Dias depois, Henrique preparou um jantar especial para os três. A mesa arrumada, o vinho escolhido, a música baixa. Tudo perfeito — ou quase. Durante a conversa, Maya comentou sobre um trabalho novo e mencionou, rindo: — Acho que não teria conseguido sem a sua ajuda, Henrique. Ele sorriu, com o mesmo jeito galanteador de sempre. — Você conseguiu porque é talentosa. Eu só a incentivei. Isadora fingiu sorrir. Por dentro, o ciúme ardia — não pelo gesto, mas pela naturalidade com que tudo acontecia. Maya estava se tornando parte da rotina deles. E isso era perigoso. Quando ela foi embora, Isadora ficou em silêncio por longos minutos. Henrique se aproximou, preocupado. — O que foi? — Nada... só estou tentando lembrar onde termina a brincadeira e onde começa o risco. Ele segurou o rosto dela. — Você é o meu norte, Isa. Nunca vou me esquecer disso. Mas no fundo, ela sabia: até os nortes podem se perder quando o desejo muda de direção. * A Sombra da Confiança Mais tarde, já sozinha, Isadora olhou o grupo de mensagens. As conversas estavam ali — leves, banais. Mas algo na forma como ele escrevia o nome “Maya” a incomodava. Havia doçura demais. Cuidado demais. E quando ela apagou a tela, uma sensação gelada percorreu sua espinha. Ela percebeu que o amor e o perigo não estavam mais em lados opostos. Estavam caminhando de mãos dadas. E o pior: ela também começava a gostar disso.
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