Capítulo 7 – O Reencontro

688 Words
A mensagem foi enviada há dois dias. Desde então, o tempo parecia não andar dentro do apartamento. Henrique estava inquieto. Isadora, serena por fora, mas tomada por uma coragem que nem ela sabia de onde vinha. Naquela noite, o som da campainha ecoou pela casa como um déjà vu. Henrique olhou para Isadora, que respirou fundo antes de se levantar. Abriu a porta — e lá estava Maya. O cabelo agora mais escuro, o olhar contido, as roupas simples. Mas havia algo novo nela: uma calma quase madura, uma sombra de arrependimento e desejo misturados. — Obrigada por me deixar vir — disse Maya, com a voz baixa. Isadora assentiu. — A gente precisa de um fim... ou de um começo novo. Henrique permaneceu em silêncio. Observava as duas como quem presencia algo sagrado e perigoso ao mesmo tempo. * Sob o Mesmo Teto O jantar foi estranho no início. Palavras medidas, risos tensos, silêncios longos. Mas conforme o vinho fluía, o gelo se derretia — e o passado, que parecia adormecido, começou a respirar de novo. — Eu pensei muito em vocês — disse Maya, olhando para o casal. — Em tudo o que aconteceu. — E o que concluiu? — perguntou Henrique, sem ironia. — Que a gente não errou em sentir. Só se perdeu no medo. Isadora a observava, atenta. Aquela mesma intensidade de antes ainda estava ali, mas agora com um toque de maturidade. Maya não era mais a menina obcecada. Parecia uma mulher que havia entendido o peso do desejo. — E você, Isa? — perguntou Maya. — Por que me chamou de volta? Isadora desviou o olhar por um instante. — Porque fugir de você não apagou nada. Só deixou o que sentimos sem nome. A frase pairou no ar. Henrique fechou os olhos, absorvendo o que ouvia. Era a confissão que ele também não tinha coragem de fazer. * O Fogo Que Esperava Mais tarde, já sem o peso das palavras, ficaram os três na sala. A luz baixa, o som distante da chuva. Maya estava sentada perto da janela; Isadora, encostada no sofá; Henrique, no meio, cercado por memórias. — Eu sonhei com esse momento — confessou Maya. — Mas não imaginei que fosse tão... calmo. Isadora sorriu de leve. — Talvez porque dessa vez não tem segredo. Henrique olhou para as duas, o coração acelerando. A tensão era quase palpável, mas não havia pressa. Apenas respirações sincronizadas, olhares que diziam o que as bocas não precisavam pronunciar. Maya se aproximou devagar, como quem teme quebrar o ar ao redor. Parou diante de Isadora e estendeu a mão. — Posso? Isadora hesitou — e então segurou os dedos dela. O toque foi breve, mas carregado de história. Henrique observava, sentindo o peito apertar. Não era ciúme. Era algo mais complexo: o medo de desejar o mesmo que temia. Aos poucos, as fronteiras entre raiva e saudade começaram a se dissolver. As palavras se perderam, e o que restou foi o silêncio — aquele tipo de silêncio que grita tudo que ficou preso. * Entre o Passado e o Futuro Horas depois, Maya se levantou. — Eu devia ir — disse, com um tom que misturava arrependimento e ternura. Henrique a acompanhou até a porta, mas foi Isadora quem respondeu: — A gente ainda não decidiu o que fazer. Maya sorriu, triste e esperançosa ao mesmo tempo. — Então me deixem ser lembrança até vocês decidirem. Ela saiu. E o que ficou no ar foi uma mistura perigosa de paz e promessa. Henrique olhou para Isadora. — Você acha que fizemos certo? — Eu acho que a gente ainda não terminou essa história — ela respondeu. — E talvez seja isso que mais me assusta. Ele a abraçou, com a força de quem sabe que o amor resiste, mas também entende que nem sempre ele é suficiente para domar o desejo. Do lado de fora, a chuva caía forte — e lá, no meio da noite, Maya olhava para o prédio iluminado e sussurrava para si mesma: “Eles acham que estão me reencontrando... mas eu nunca fui embora.”
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