Capítulo 6 – O Peso do Desejo

683 Words
Henrique passou a primeira noite longe de casa sem conseguir dormir. O quarto de hotel era silencioso, impessoal, frio. Nenhum som, nenhum cheiro, nenhum traço de Isadora. E ainda assim, cada pensamento dele a procurava. Tentou se convencer de que precisava daquilo — do tempo, da distância, da clareza. Mas quanto mais tentava fugir da confusão dentro de si, mais se lembrava do olhar dela. Do jeito como Isadora o amava sem exigir, e ainda assim o conhecia até nas sombras. Na quarta noite, ele recebeu uma mensagem. Maya: “Podemos conversar? Só conversar.” Ele hesitou. O coração acelerou, o corpo reagiu — mas a mente o manteve no lugar. Respirou fundo, apagou a tela e jogou o celular longe. A tentação era um veneno doce, e ele sabia: se provasse mais uma vez, talvez não voltasse. * Ecos de Amor No sétimo dia, Henrique voltou para casa. A mala nas mãos, o coração nas cordas. Isadora estava na varanda, olhando o pôr do sol, com os olhos marejados, mas serenos. Quando o viu, não disse nada. Apenas o olhou — e ele entendeu que não havia nada a explicar. Henrique se aproximou e ajoelhou diante dela. — Eu pensei nela, sim — confessou, sem rodeios. — Mas cada vez que imaginei estar com ela... era você que eu via. Isadora o encarou, o queixo trêmulo. — Por que você voltou? — Porque o que eu sinto por você não é desejo. É casa. É raiz. É o que me segura quando tudo o resto me puxa pra baixo. Ela respirou fundo, as lágrimas escorrendo. — Então fica. Mas se for pra ficar... que seja inteiro. Ele a abraçou. Foi um abraço de rendição, de recomeço, de quem entende que o amor verdadeiro não é o que nunca vacila — é o que sobrevive depois do caos. * A Proposta Nos dias seguintes, a paz parecia quase real. Quase. Henrique tentava sorrir, mas o olhar dele ainda carregava algo distante — um tipo de melancolia silenciosa. E Isadora, que sempre percebeu o que ele escondia, sentia o peso do vazio. Certa noite, ela o observou deitado, encarando o teto. — Você sente falta dela, não sente? — perguntou, sem raiva. Henrique ficou em silêncio. — Não dela — respondeu, enfim. — Do que a gente era quando ela estava por perto. Do perigo, da adrenalina, da liberdade. Isadora o olhou por longos segundos. Depois se sentou na cama, decidida. — Então talvez seja hora de parar de fingir que a gente não sente. Ele franziu o cenho. — Do que você está falando, Isa? — E se... a gente fizesse as pazes com Maya? Henrique se levantou, incrédulo. — Você enlouqueceu? — Não. Eu só entendi que fugir dela não apagou nada. Só nos deixou presos. Ela o encarou, firme, com uma calma quase perigosa. — Se o que você sente é confusão, então vamos enfrentar juntos. Mas dessa vez... do nosso jeito. Henrique se aproximou, tentando entender. — Você está dizendo que quer voltar àquela... brincadeira? — Quero que a gente tenha o controle. Que não seja mais uma fuga, mas uma escolha. O silêncio que seguiu era tão intenso que o som da chuva do lado de fora parecia ecoar dentro deles. Henrique segurou o rosto dela. — E se eu me perder de novo? — Então eu te trago de volta. * A Decisão Isadora pegou o celular, o coração batendo forte. Abriu o número que jurou nunca mais digitar. Os dedos tremiam, mas não pararam. Isa: “Podemos conversar?” Maya: “Achei que nunca mais fosse ouvir isso.” Isa: “Talvez seja hora de ouvir o que ficou preso.” Henrique observava em silêncio, dividido entre o medo e a curiosidade. Quando ela desligou o aparelho, os dois se olharam — e, por um instante, o desejo voltou a brilhar nos olhos dele. Mas, no fundo, Isadora sabia: o que estavam prestes a reabrir não era apenas uma ferida. Era um portal. E do outro lado, esperava o mesmo fogo que os destruiu da primeira vez.
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