Henrique passou a primeira noite longe de casa sem conseguir dormir.
O quarto de hotel era silencioso, impessoal, frio.
Nenhum som, nenhum cheiro, nenhum traço de Isadora.
E ainda assim, cada pensamento dele a procurava.
Tentou se convencer de que precisava daquilo — do tempo, da distância, da clareza.
Mas quanto mais tentava fugir da confusão dentro de si, mais se lembrava do olhar dela.
Do jeito como Isadora o amava sem exigir, e ainda assim o conhecia até nas sombras.
Na quarta noite, ele recebeu uma mensagem.
Maya: “Podemos conversar? Só conversar.”
Ele hesitou.
O coração acelerou, o corpo reagiu — mas a mente o manteve no lugar.
Respirou fundo, apagou a tela e jogou o celular longe.
A tentação era um veneno doce, e ele sabia: se provasse mais uma vez, talvez não voltasse.
* Ecos de Amor
No sétimo dia, Henrique voltou para casa.
A mala nas mãos, o coração nas cordas.
Isadora estava na varanda, olhando o pôr do sol, com os olhos marejados, mas serenos.
Quando o viu, não disse nada.
Apenas o olhou — e ele entendeu que não havia nada a explicar.
Henrique se aproximou e ajoelhou diante dela.
— Eu pensei nela, sim — confessou, sem rodeios. — Mas cada vez que imaginei estar com ela... era você que eu via.
Isadora o encarou, o queixo trêmulo.
— Por que você voltou?
— Porque o que eu sinto por você não é desejo. É casa. É raiz. É o que me segura quando tudo o resto me puxa pra baixo.
Ela respirou fundo, as lágrimas escorrendo.
— Então fica. Mas se for pra ficar... que seja inteiro.
Ele a abraçou.
Foi um abraço de rendição, de recomeço, de quem entende que o amor verdadeiro não é o que nunca vacila — é o que sobrevive depois do caos.
* A Proposta
Nos dias seguintes, a paz parecia quase real.
Quase.
Henrique tentava sorrir, mas o olhar dele ainda carregava algo distante — um tipo de melancolia silenciosa.
E Isadora, que sempre percebeu o que ele escondia, sentia o peso do vazio.
Certa noite, ela o observou deitado, encarando o teto.
— Você sente falta dela, não sente? — perguntou, sem raiva.
Henrique ficou em silêncio.
— Não dela — respondeu, enfim. — Do que a gente era quando ela estava por perto. Do perigo, da adrenalina, da liberdade.
Isadora o olhou por longos segundos.
Depois se sentou na cama, decidida.
— Então talvez seja hora de parar de fingir que a gente não sente.
Ele franziu o cenho.
— Do que você está falando, Isa?
— E se... a gente fizesse as pazes com Maya?
Henrique se levantou, incrédulo.
— Você enlouqueceu?
— Não. Eu só entendi que fugir dela não apagou nada. Só nos deixou presos.
Ela o encarou, firme, com uma calma quase perigosa.
— Se o que você sente é confusão, então vamos enfrentar juntos. Mas dessa vez... do nosso jeito.
Henrique se aproximou, tentando entender.
— Você está dizendo que quer voltar àquela... brincadeira?
— Quero que a gente tenha o controle. Que não seja mais uma fuga, mas uma escolha.
O silêncio que seguiu era tão intenso que o som da chuva do lado de fora parecia ecoar dentro deles.
Henrique segurou o rosto dela.
— E se eu me perder de novo?
— Então eu te trago de volta.
* A Decisão
Isadora pegou o celular, o coração batendo forte.
Abriu o número que jurou nunca mais digitar.
Os dedos tremiam, mas não pararam.
Isa: “Podemos conversar?”
Maya: “Achei que nunca mais fosse ouvir isso.”
Isa: “Talvez seja hora de ouvir o que ficou preso.”
Henrique observava em silêncio, dividido entre o medo e a curiosidade.
Quando ela desligou o aparelho, os dois se olharam — e, por um instante, o desejo voltou a brilhar nos olhos dele.
Mas, no fundo, Isadora sabia: o que estavam prestes a reabrir não era apenas uma ferida.
Era um portal.
E do outro lado, esperava o mesmo fogo que os destruiu da primeira vez.