Capítulo 5 – Entre o Amor e o Abismo

601 Words
A tarde caía quando Henrique chegou em casa. O céu, cinza, parecia refletir o turbilhão que ele carregava dentro. Nos últimos dias, algo o consumia — uma lembrança, um perfume, um olhar. O olhar de Maya. Desde o reencontro entre ela e Isadora, Henrique fingia tranquilidade. Mas cada vez que ouvia o nome dela, algo reacendia. O desejo misturado com culpa, o fogo travestido de arrependimento. Ele encontrou Isadora na cozinha, distraída. A mesma mulher que ele amava, que o conhecia melhor do que ninguém. E, ainda assim, o coração dele batia por outra também. — Isa... a gente precisa conversar — disse, a voz rouca. Ela se virou, apreensiva. — O que foi agora? — Eu encontrei a Maya hoje. O silêncio foi um golpe seco. Isadora deixou o copo cair na pia, a água espirrando entre os dedos. — O que você disse? — Ela foi até o meu escritório. Disse que queria encerrar tudo, colocar um ponto final. Isadora cerrou o punho. — E você acreditou? — Eu tentei. Mas quando olhei pra ela... eu percebi que ainda sinto algo. A frase cortou o ar. Henrique continuou, a voz embargada: — Eu amo você, Isa. Mas parte de mim ficou presa naquele jogo. Eu preciso entender o que aconteceu comigo... antes que isso destrua a gente de vez. * O Confronto Horas antes, naquele mesmo dia, Maya havia aparecido no escritório de Henrique. Com um sorriso contido e um olhar cheio de lembranças. — Eu não vim provocar — disse ela. — Só precisava te ver sem medo. Henrique tentou manter distância, mas Maya se aproximou. O cheiro dela, a voz, a lembrança do corpo... tudo voltava como uma onda que ele não conseguia conter. — Eu pensei em você todos os dias — ela sussurrou. — Maya, para. Eu sou casado. — Mas está feliz? — ela perguntou, simples, direta. Ele não respondeu. E naquele silêncio, Maya encostou a testa na dele. Foi só um toque — mas foi o suficiente para destruir qualquer certeza. Henrique recuou, assustado consigo mesmo. — Eu não posso. — Então não mente — disse ela, saindo, deixando o perfume e a dúvida para trás. * A Decisão De volta em casa, Isadora ouvia tudo sem respirar. O rosto dela não mostrava raiva, mas algo pior: tristeza. — Você quer um tempo, Henrique? É isso? — Uma semana. Só pra pensar, pra entender o que eu sinto. Isadora riu, um riso quebrado. — Entender? Depois de tudo o que vivemos, você ainda precisa entender? Ele se aproximou, tentando tocá-la. — Eu não quero te perder. — Então por que está indo? Henrique baixou os olhos. — Porque se eu ficar, eu minto. E se eu mentir, te mato aos poucos. Ele arrumou uma mala pequena, sem olhar para trás. Quando a porta se fechou, Isadora desabou no chão, o coração em pedaços. * O Silêncio Entre Dois Mundos A semana começou com o apartamento vazio. Isadora evitava o espelho — tinha medo do que veria. Entre o orgulho e a dor, o que mais a assustava era perceber que também sentia falta de Maya. Da energia dela, da forma como via o mundo, da intensidade que fazia tudo parecer vivo. Enquanto isso, Henrique estava em um hotel. Sozinho, mas não em paz. O corpo queria Maya, a alma gritava por Isadora. E o vazio entre as duas o deixava à beira do abismo. À noite, o celular vibrou. Uma mensagem nova. Maya: “Sente minha falta?” Henrique fechou os olhos. A mente dizia não. O corpo... já tinha respondido.
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