A tarde caía quando Henrique chegou em casa.
O céu, cinza, parecia refletir o turbilhão que ele carregava dentro.
Nos últimos dias, algo o consumia — uma lembrança, um perfume, um olhar.
O olhar de Maya.
Desde o reencontro entre ela e Isadora, Henrique fingia tranquilidade.
Mas cada vez que ouvia o nome dela, algo reacendia.
O desejo misturado com culpa, o fogo travestido de arrependimento.
Ele encontrou Isadora na cozinha, distraída.
A mesma mulher que ele amava, que o conhecia melhor do que ninguém.
E, ainda assim, o coração dele batia por outra também.
— Isa... a gente precisa conversar — disse, a voz rouca.
Ela se virou, apreensiva. — O que foi agora?
— Eu encontrei a Maya hoje.
O silêncio foi um golpe seco.
Isadora deixou o copo cair na pia, a água espirrando entre os dedos.
— O que você disse?
— Ela foi até o meu escritório. Disse que queria encerrar tudo, colocar um ponto final.
Isadora cerrou o punho. — E você acreditou?
— Eu tentei. Mas quando olhei pra ela... eu percebi que ainda sinto algo.
A frase cortou o ar.
Henrique continuou, a voz embargada:
— Eu amo você, Isa. Mas parte de mim ficou presa naquele jogo. Eu preciso entender o que aconteceu comigo... antes que isso destrua a gente de vez.
* O Confronto
Horas antes, naquele mesmo dia, Maya havia aparecido no escritório de Henrique.
Com um sorriso contido e um olhar cheio de lembranças.
— Eu não vim provocar — disse ela. — Só precisava te ver sem medo.
Henrique tentou manter distância, mas Maya se aproximou.
O cheiro dela, a voz, a lembrança do corpo... tudo voltava como uma onda que ele não conseguia conter.
— Eu pensei em você todos os dias — ela sussurrou.
— Maya, para. Eu sou casado.
— Mas está feliz? — ela perguntou, simples, direta.
Ele não respondeu.
E naquele silêncio, Maya encostou a testa na dele.
Foi só um toque — mas foi o suficiente para destruir qualquer certeza.
Henrique recuou, assustado consigo mesmo.
— Eu não posso.
— Então não mente — disse ela, saindo, deixando o perfume e a dúvida para trás.
* A Decisão
De volta em casa, Isadora ouvia tudo sem respirar.
O rosto dela não mostrava raiva, mas algo pior: tristeza.
— Você quer um tempo, Henrique? É isso?
— Uma semana. Só pra pensar, pra entender o que eu sinto.
Isadora riu, um riso quebrado.
— Entender? Depois de tudo o que vivemos, você ainda precisa entender?
Ele se aproximou, tentando tocá-la.
— Eu não quero te perder.
— Então por que está indo?
Henrique baixou os olhos.
— Porque se eu ficar, eu minto. E se eu mentir, te mato aos poucos.
Ele arrumou uma mala pequena, sem olhar para trás.
Quando a porta se fechou, Isadora desabou no chão, o coração em pedaços.
* O Silêncio Entre Dois Mundos
A semana começou com o apartamento vazio.
Isadora evitava o espelho — tinha medo do que veria.
Entre o orgulho e a dor, o que mais a assustava era perceber que também sentia falta de Maya.
Da energia dela, da forma como via o mundo, da intensidade que fazia tudo parecer vivo.
Enquanto isso, Henrique estava em um hotel.
Sozinho, mas não em paz.
O corpo queria Maya, a alma gritava por Isadora.
E o vazio entre as duas o deixava à beira do abismo.
À noite, o celular vibrou.
Uma mensagem nova.
Maya: “Sente minha falta?”
Henrique fechou os olhos.
A mente dizia não.
O corpo... já tinha respondido.