Capítulo 4 – A Amiga Inesperada

643 Words
As semanas seguintes foram estranhamente silenciosas. Nenhuma mensagem, nenhum sinal de Maya. Era como se ela tivesse desaparecido — e, ainda assim, Isadora sentia a presença dela em cada canto do apartamento. Um eco invisível de tudo o que viveram. Henrique parecia aliviado. Isadora, nem tanto. Havia algo na ausência que incomodava mais do que a presença. Um vazio que latejava, lembrando o perigo que ela fingia não querer sentir. Naquela manhã, ao sair da cafeteria que frequentava, Isadora ouviu uma voz familiar atrás de si: — Isa? Virou-se — e o coração parou por um instante. Era Maya, de cabelos mais curtos, um vestido leve e um sorriso doce que escondia tudo o que já tinham vivido. — Eu não quero problemas — disse Isadora, automática. Maya levantou as mãos, num gesto de rendição. — Calma. Eu só queria conversar... sem máscaras. O tom era diferente. Mais calmo. Mais... humano. * O Reencontro As duas sentaram em uma mesa afastada. Maya falava baixo, os olhos marejados. — Eu sei que exagerei. Fiquei confusa, obcecada. Mas eu tô tentando mudar. — E por que veio até mim? — Isadora perguntou, desconfiada. — Porque, de todos nós, você foi a única que realmente me enxergou. Aquela frase a desmontou. Isadora tentou resistir, mas havia algo na vulnerabilidade de Maya que a prendia. Uma mistura perigosa de empatia e atração. — Eu só quero paz, Isa. E talvez... amizade. Isadora hesitou. Mas contra toda a razão, aceitou. Nos dias seguintes, as duas começaram a se falar de novo — agora sob um novo disfarce: amizade. Cafés, risadas, confidências. Maya parecia sincera, transformada. E Isadora começou a acreditar nisso. * As Fronteiras Que se Apagam Henrique não fazia ideia. Achava que Maya tinha sumido de vez. Mas, de certa forma, ela nunca esteve tão presente. Maya sabia o que dizer, o que lembrar, o que provocar. Falava sobre arte, sobre desejos, sobre liberdade. E Isadora sentia uma conexão que não sabia explicar. Era diferente. Era... perigosa. Certa tarde, enquanto chovia, Maya apareceu na porta de Isadora, encharcada. — A chuva me pegou no caminho — disse, rindo. Isadora a deixou entrar, oferecendo uma toalha. As mãos se tocaram. Foi rápido. Mas o toque carregava toda a história que fingiam esquecer. — Às vezes eu ainda sonho com aquela noite — confessou Maya, num sussurro. Isadora tentou não reagir, mas o corpo não mentia. — Não devia dizer isso. — Eu sei. Mas você também sonha, não sonha? O olhar delas se encontrou. Um segundo longo, proibido, inevitável. E quando Maya deu um passo à frente, Isadora sentiu a respiração se perder. — Maya... — murmurou, sem saber se era um aviso ou um convite. — Eu só quero entender — ela respondeu, com a voz trêmula. — Se o que eu senti... foi só da minha cabeça. Isadora deu um passo para trás, mas o coração já tinha se rendido. A tensão era tanta que o ar parecia vibrar. O desejo, o medo, a culpa — tudo misturado em uma única presença. * Ecos de Culpa Maya saiu antes que algo acontecesse. Mas o estrago já estava feito. Isadora passou a noite em claro, o corpo em chamas, a mente em colapso. Quando Henrique a abraçou na cama, ela fechou os olhos — e, de novo, viu Maya. A amizade se tornara um espelho distorcido. E dentro dela, Isadora começava a questionar se ainda sabia onde terminava a curiosidade... e começava o desejo. * Mensagem De madrugada, o celular vibrou. Era Maya. “Você pode mentir pra ele, Isa. Mas não pra mim. Eu vi nos seus olhos hoje.” Isadora respirou fundo, o coração em chamas. Apagou a mensagem — mas o que sentia, não dava mais pra apagar. E ela sabia: Maya não estava apenas de volta. Ela estava dentro.
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