O som da campainha quebrou o silêncio da manhã.
Henrique ainda se vestia para o trabalho quando Isadora, descalça e de camisola, foi até a porta.
Ela esperava uma entrega.
Mas quando abriu... o mundo parou por um segundo.
Era Maya.
Em pé no corredor, cabelo solto, olhar firme — e um sorriso que misturava inocência e atrevimento.
— Oi, Isa — disse, com uma calma desconcertante. — Precisamos conversar.
O coração de Isadora bateu forte.
Parte de si quis fechar a porta.
A outra parte... queria entender.
Henrique apareceu logo atrás, paralisando quando a viu.
— Maya... o que está fazendo aqui?
Ela inclinou a cabeça.
— Só vim me despedir.
* As Palavras Queimadas
Os três ficaram na sala.
A tensão era quase visível — densa, elétrica.
Maya olhava para Isadora como quem desafia, e para Henrique como quem deseja.
— Eu só queria dizer — começou Maya — que eu nunca quis atrapalhar vocês.
— Então por que está aqui? — Isadora cortou, fria.
— Porque às vezes a gente precisa olhar no olho de quem fez a gente sentir algo real.
Henrique respirou fundo.
— Maya, o que aconteceu foi um erro.
Ela sorriu.
— Erro? É isso que você chama de algo que te fez tremer daquele jeito?
O silêncio que seguiu foi sufocante.
Isadora apertou os dedos, tentando não demonstrar o abalo.
Maya se levantou devagar, aproximando-se de Henrique.
— Eu não vim pra implorar. Só pra lembrar o que ficou entre nós.
Ela estendeu a mão e encostou levemente no peito dele.
Henrique recuou, mas tarde demais — o toque já tinha despertado algo.
* O Desejo Que Não Morre
Isadora assistia à cena sem conseguir se mover.
Parte dela odiava aquilo.
Parte... se lembrava de como tudo começou.
A química, a ousadia, a liberdade.
O que eles viveram com Maya tinha despertado algo nos dois que nunca mais conseguiram reproduzir sozinhos.
E quando Maya olhou para ela — aquele olhar intenso, profundo, quase hipnótico — Isadora sentiu um arrepio.
Um convite. Um perigo.
— Eu sinto falta dos dois — confessou Maya, num sussurro. — Do que a gente era.
Henrique fechou os olhos.
— A gente precisa seguir em frente.
— Então por que ainda sonha comigo? — ela provocou, quase encostando os lábios no ouvido dele.
Isadora deu um passo à frente, o sangue fervendo.
— Chega, Maya. Isso acabou.
— Pra você, talvez — respondeu, com um sorriso triste. — Mas nem tudo que acaba morre.
Maya caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou para trás.
— Cuidado, Isa. Às vezes, o perigo não é o que entra... é o que vocês despertam um no outro.
E foi embora, deixando o perfume e o caos.
* Depois do Impacto
O apartamento parecia pequeno demais depois disso.
Henrique andava em círculos, inquieto.
Isadora o observava em silêncio, com o peito apertado.
— Você ainda sente algo por ela? — perguntou, finalmente.
Ele negou, rápido demais.
— Não. Eu sinto vergonha.
— Vergonha... ou falta?
Ele a encarou, e por um instante, ela viu nos olhos dele a verdade que ele tentava esconder.
Não era amor por Maya. Era o vício do perigo.
E o pior: Isadora sentia o mesmo.
Ela se aproximou, lenta, provocante.
— Se é de perigo que você sente falta... talvez eu possa te lembrar como é queima-lo de perto.
Henrique segurou o rosto dela.
O beijo veio com força, raiva, culpa.
Mas quando ele encostou os lábios, ela fechou os olhos — e, por um instante, viu o rosto de Maya em sua mente.
Mensagem Final
Horas depois, Isadora pegou o celular.
Uma nova mensagem anônima piscava na tela:
“Vocês ainda me sentem, não sentem?”
— M 🌙
O arrepio percorreu sua espinha.
E ela entendeu:
A brincadeira ainda não tinha terminado.
Ela só estava começando a ficar perigosa de verdade.