Capítulo 34 – O Som do Silêncio

690 Words
A manhã amanheceu cinza, pesada. A chuva batia leve nas janelas, e o som do vento parecia sussurrar o que nenhum dos dois tinha coragem de dizer em voz alta. Henrique acordou cedo, mas Isadora já estava de pé. A casa cheirava a café — e a distância. Ela se movia pela cozinha de forma metódica, mecânica. Xícara, açúcar, colher, silêncio. Nem olhou pra ele quando ele entrou. — Bom dia — disse Henrique, tentando sorrir. — Bom dia — respondeu ela, sem emoção. Ele se aproximou devagar, sentando à mesa. O coração acelerava, a garganta seca. Precisava falar. Precisava tentar consertar o que tinha dito — o que tinha feito. O Pedido — Isa… sobre o que eu falei ontem… — Não precisa explicar — ela interrompeu, ainda de costas. — Mas eu quero. — E eu não quero ouvir, Henrique. O tom dela não era agressivo. Era calmo. E essa calma doía mais do que qualquer grito. Henrique respirou fundo. — Eu falei sem pensar. Eu não quis te ferir. Eu só… quis lembrar de quando a gente parecia se entender mais. Isadora virou-se, finalmente. O olhar cansado, o rosto sereno, mas o coração claramente quebrado. — Você quis lembrar de quando a gente se perdia fingindo estar se encontrando — disse ela, firme. — E eu não tenho mais força pra fingir. Henrique abaixou os olhos. — Eu sei. E é por isso que eu quero te pedir desculpas. De verdade. — Você sempre pede desculpas. — Porque eu sempre erro. — E continua errando do mesmo jeito. A voz dela soava exausta. Sem raiva, sem rancor. Só cansaço. O Silêncio Que Machuca Henrique tentou se aproximar, mas Isadora recuou um passo. — Eu não estou brava — ela disse. — Só estou cansada de tentar entender um homem que não se entende. — Eu te amo, Isa — ele murmurou, quase num sussurro. Ela respirou fundo, os olhos marejando. — Eu sei. Mas o amor não basta quando o outro não aprende. Henrique ficou parado, sem saber o que fazer com as mãos, com o corpo, com a culpa. Ela voltou a mexer no café, em silêncio. E esse silêncio era pior do que qualquer discussão. O Pedido de Espaço — O que eu posso fazer pra você acreditar em mim? — ele perguntou, desesperado. Isadora o olhou, séria. — Nada. Ele arregalou os olhos. — Nada? — Não agora — ela disse, sem hesitar. — Porque agora eu não quero acreditar. Eu quero descansar. Henrique sentiu o chão sumir. — Descansar… de mim? — De tudo. Da dor. Das tentativas. Da esperança. Ela se encostou na bancada, cruzando os braços. — Eu fiquei tentando ser paciente, compreensiva, adulta… mas o amor virou um trabalho. E eu cansei de trabalhar sozinha. Henrique engoliu seco. — Você quer ir embora de novo? — Eu quero ficar em paz. — Ela fez uma pausa. — E, no momento, você não me traz isso. O ar pareceu sair do ambiente. Henrique apenas assentiu, derrotado. O Que Ele Não Entende Mais tarde, ele a viu no jardim, regando as plantas, o olhar distante. Ela parecia serena — e isso o assustou. Porque a serenidade dela era um tipo de desistência. Ele se aproximou devagar. — Eu posso ajudar? — Pode — respondeu ela, sem olhá-lo. — Pode parar de me prometer o que não sabe cumprir. Henrique ficou em silêncio. E, pela primeira vez, entendeu que talvez o amor não morra num grito, mas num suspiro cansado. A Última Tentativa À noite, ele deixou um bilhete sobre o travesseiro dela: “Eu sei que não sei mais te fazer feliz. Mas quero aprender, se você ainda deixar.” Quando Isadora leu, respirou fundo. Guardou o papel dentro de um livro. E, antes de apagar a luz, disse baixinho pra si mesma: — Amar alguém que não te escuta é como gritar no fundo de um poço. Você ouve sua própria voz voltando… e começa a confundir eco com resposta. Henrique dormiu no sofá, sozinho. E, pela primeira vez, o silêncio entre eles não era uma pausa — era um aviso.
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