Capítulo 31 – A Verdade Que Ele Devia Ter Dito Antes

822 Words
Henrique passou os dias seguintes tentando agir normalmente, mas a consciência não deixava. Cada vez que olhava para Isadora, o peso crescia. Ela parecia tranquila — mas o silêncio dela era o tipo que pensa demais. E ele sabia: cedo ou tarde, a mentira pequena que contara viraria abismo. O arrependimento era físico. Pesava no corpo, no peito, nas mãos. No olhar. E naquela noite, enquanto Isadora recolhia a mesa do jantar, Henrique entendeu que não dava mais pra adiar. Ele precisava falar. Mesmo que custasse tudo. O Começo da Confissão — Isa… — chamou, com a voz rouca. Ela virou-se, sorrindo leve. — O que foi? — Eu preciso te contar uma coisa. O sorriso dela se apagou devagar. — Que tipo de coisa? Henrique respirou fundo, o coração acelerado. — Sobre a Maya. O nome, dito em voz alta, soou como um trovão. Isadora ficou parada, sem piscar. Henrique continuou, mesmo tremendo. — Alguns dias atrás, ela mandou uma mensagem. Silêncio. Isadora apenas o olhava — sem raiva, sem surpresa. Apenas expectativa. — E o que dizia? — perguntou, calma. — Ela só perguntou se eu estava bem. Disse que não precisava responder. Que esperava que eu tivesse encontrado paz. Isadora o observou, imóvel, e perguntou o que mais importava: — E você respondeu? Henrique balançou a cabeça. — Não. Eu não respondi. Ela respirou fundo. — Então por que está me contando agora? A voz dela não tinha dureza, só tristeza. Henrique fechou os olhos por um instante. — Porque eu apaguei. Antes que você visse. A confissão caiu entre eles como algo vivo. A Reação Que Ele Temia Isadora encostou-se na bancada, o olhar perdido por um segundo. — Por quê? — Eu quis te proteger. Não queria estragar o que a gente estava reconstruindo. — Ou quis proteger a si mesmo? — ela perguntou, olhando firme. Henrique hesitou, a voz falhando. — Talvez os dois. Isadora assentiu, devagar. — Então você escolheu o silêncio de novo. Ele se aproximou, aflito. — Isa, eu sei que errei. Eu devia ter te contado. Mas foi só isso. Não teve resposta, não teve conversa. Eu só… me assustei. Ela o observava com um olhar que doía mais do que qualquer grito. — Henrique, eu te pedi uma única coisa: verdade. Mesmo que doesse. E você mentiu. Henrique abaixou a cabeça. — Eu sei. E eu estou aqui agora justamente por isso. Porque eu não quero que isso cresça. O Peso da Palavra O silêncio se alongou. O som da chuva do lado de fora preenchia o espaço entre eles. Isadora cruzou os braços. — Quando você apaga algo, não apaga só uma mensagem. Apaga a chance de eu escolher confiar em você. Henrique ergueu o olhar. — Eu não quero que você duvide de mim. — Então me dá motivos pra acreditar — ela respondeu. Ele se aproximou mais um passo. — Eu podia continuar calado. Fingir que nada aconteceu. Mas eu vim porque… eu não aguentava mais carregar isso. Eu prefiro te perder pela verdade do que continuar com você sustentando uma mentira. Isadora respirou fundo, as lágrimas represadas nos olhos. — Você não me perdeu — ela disse, enfim. — Mas me deixou mais distante. Henrique sentiu o peito se apertar. — Eu vou recuperar essa distância, Isa. — Eu sei que vai tentar — ela respondeu, enxugando o canto dos olhos. — Mas agora, cada palavra sua vai precisar de prova. O Perdão Que Não É Perdão Henrique se aproximou um pouco mais. — O que você quer que eu faça? — Me dá tempo. — A voz dela era calma, mas firme. — Eu não quero promessas agora. Quero constância. Ele assentiu, quase num sussurro. — Eu vou ficar. — Então fica — disse Isadora, voltando o olhar para ele. — Mas dessa vez, sem esconder o que é difícil. Henrique segurou a mão dela com cuidado. Ela não afastou — mas também não apertou. Era um toque morno. Um lembrete de que o amor ainda estava ali, mas ferido. O Fim do Silêncio Mais tarde, deitados, Isadora perguntou no escuro: — Por que você me escolheu pra contar agora? Henrique virou-se de lado, encarando o teto. — Porque eu vi o medo nos seus olhos quando perguntou se eu ainda pensava nela. E eu percebi que, se eu continuasse mentindo, esse medo nunca iria embora. Isadora ficou em silêncio. Henrique completou, com a voz embargada: — Eu quero que você volte a se sentir segura comigo. Mesmo que isso demore. Mesmo que eu tenha que provar mil vezes. Ela não respondeu. Apenas virou o rosto em direção a ele e sussurrou: — Então prova dormindo tranquilo, sabendo que eu vou precisar de tempo pra acreditar. E pela primeira vez desde o início do caos, os dois dormiram lado a lado — não em paz, mas em honestidade. E, às vezes, isso já é um começo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD