Capítulo 32 – O Peso do Lar

809 Words
A estrada de volta parecia mais longa do que a ida. O carro cortava o silêncio, e o vento que entrava pela janela carregava o cheiro da serra — o mesmo cheiro que, semanas antes, havia testemunhado o fim. Agora, talvez, seria o começo de algo novo. Henrique dirigia com as mãos firmes no volante, mas a mente longe. Isadora olhava pela janela, perdida nas árvores que desciam pelo vale. Nenhum dos dois falava. E, ainda assim, havia algo diferente naquele silêncio — não o incômodo de antes, mas uma trégua. — Está tudo bem? — ele perguntou, quebrando a quietude. — Está. — A voz dela era calma. — Só estou tentando lembrar como é voltar pra casa com você. Henrique olhou de relance, tentando entender se havia ironia nas palavras. Mas não. Era apenas sinceridade. O Retorno Quando o portão da casa se abriu, Isadora sentiu o coração acelerar. Tudo estava igual — a fachada branca, o jardim meio esquecido, a cortina azul da sala. Mas, de alguma forma, tudo parecia diferente. Talvez porque agora ela enxergasse os fantasmas. O sofá onde os três riram juntos. A cozinha onde o silêncio entre ela e Henrique começou. O corredor onde as primeiras brigas nasceram. Henrique parou na porta, hesitante. — Quer que eu entre primeiro? — perguntou. — Não. — Ela respirou fundo. — A gente entra junto. E entraram. O som das chaves, o leve estalar da madeira sob os pés… Tudo tinha o peso de um recomeço. Ou de um julgamento. O Impacto do Cotidiano Os primeiros dias foram estranhos. Dormiam na mesma cama, mas ainda distantes. Jantavam juntos, mas sem saber o que dizer. A rotina parecia nova e velha ao mesmo tempo — familiar demais para ser reconfortante, e diferente demais para ser simples. Isadora reorganizava as coisas, como quem tentava limpar também a alma. Henrique observava, ajudava em silêncio, sem forçar nada. Ele sabia: reconstruir não era reconquistar. Era respeitar o espaço. Numa tarde, enquanto ele arrumava o escritório, encontrou algo que o fez parar. Um porta-retrato esquecido na gaveta. A foto dos dois no aniversário de cinco anos de casamento. Isadora com as mãos sobre as dele, rindo sem reservas. Henrique ficou olhando a foto por longos minutos, até ouvir a voz dela atrás: — Eu quase joguei fora. Ele se virou, surpreso. Ela estava encostada na porta, observando. — Mas não consegui. — completou. — Acho que uma parte de mim ainda queria acreditar que aquele riso podia voltar. Henrique colocou a foto de volta sobre a mesa. — Eu quero que volte, Isa. — Então faz diferente. — A voz dela era firme. — Não me promete mais nada. Só mostra. Ele assentiu, e, por um instante, o ar entre eles pareceu menos pesado. O Espelho do Passado Naquela noite, sentados na varanda, Isadora olhou para o jardim. — É estranho — disse. — Estar de volta a um lugar que parece nosso, mas também parece de estranhos. Henrique a observou. — Talvez a gente precise reaprender a morar aqui. — Talvez. — Ela fez uma pausa. — Ou talvez precise descobrir se ainda quer. Henrique ficou em silêncio. E, por um momento, ela achou que ele não responderia. Mas então, ele disse: — Eu quero, Isa. Mesmo que doa. Mesmo que leve tempo. Eu quero. Ela o olhou por um instante, sem sorrir, sem se afastar. Depois, apenas assentiu. Um Passo de Cada Vez Nos dias seguintes, começaram a reconstruir o cotidiano: fazer compras juntos, cozinhar, conversar sobre o trabalho, assistir a algo antes de dormir. Pequenos gestos, frágeis, mas cheios de intenção. O amor ainda estava ali — não o mesmo, não tão fácil, não tão inocente. Mas vivo. Henrique percebeu que, pela primeira vez, o silêncio entre eles não doía. Era o tipo de silêncio que existe entre duas pessoas que ainda se escolhem, mesmo depois de se perderem. E Isadora, apesar da desconfiança que ainda a acompanhava, sentiu algo se movimentar dentro do peito. Talvez esperança. Talvez medo. Ou talvez os dois — porque amar de novo é sempre os dois. A Nova Promessa Numa noite chuvosa, antes de apagar as luzes, Isadora se virou na cama. — Henrique? — Hm? — Você ainda pensa nela? Henrique hesitou, apenas por um segundo. Mas respondeu com calma. — Penso… às vezes. Mas agora é diferente. Isadora ficou em silêncio, absorvendo. Ele continuou: — Penso não porque quero voltar. Mas porque preciso lembrar o que fiz de errado pra não repetir. Ela se virou de lado, olhando pra ele no escuro. — Isso é um começo — disse baixinho. Henrique estendeu a mão, procurando a dela. Isadora hesitou… e depois segurou. E naquele toque simples, no meio da escuridão da casa que um dia foi palco de tantos erros, havia algo que não existia há muito tempo: verdade.
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