O dia amanheceu diferente. Não porque fosse ensolarado demais ou carregado de presságios — mas porque nada naquele dia era provisório. Isadora acordou com a sensação estranha de quem está prestes a atravessar uma fronteira invisível. A casa antiga ainda estava ali, silenciosa, com caixas empilhadas pelos cantos, como se o lugar também soubesse que aquele era um dia de despedida. Henrique já estava acordado. Sentado no chão da sala, cercado por livros, com a camiseta velha manchada de poeira e café frio esquecido ao lado. — Você não dormiu — ela comentou, encostando na porta. — Dormi o suficiente — ele respondeu. — Fiquei pensando se esqueci alguma coisa. Isadora sorriu. — Sempre fica faltando algo. — E sempre se descobre que não era essencial — ele completou. O caos necessário

