As Dívidas

1551 Words
Ívyna Laurent A primeira coisa que me atingiu quando entrei no bar com Ravena foi o som. A mudança de temperatura também era perceptível, aqui fora o frio da neve na noite quase madrugada, e aqui dentro o calor humano... Um belo contraste. Era ensurdecedor, não pelo volume em si, mas pela vida, pelas risadas altas, o barulho de copos se chocando, música pulsando nos alto-falantes com uma batida eletrônica que vibrava até o chão. Era o completo oposto da mansão em que eu vivia, com seus corredores gelados, cheios de porcelanas caras e regras idi.otas e ecravatórias. — Finalmente, hein! — Ravena agarrou minha mão e me puxou mais para dentro do lugar, o cabelo loiro dela balançando como uma bandeira em meio à multidão. — Você precisava disso, Ívy. Olha só pra você, já tá respirando como se tivesse saído de uma prisão de segurança máxima! Não estava errada, e por isso euu sorri, nervosa, mas também animada, sentindo algo despertar dentro de mim. Ali, ninguém me conhecia como a filha perfeita ou a bailarina filha da Élodie Laurent, que por obrigação tinha que ser perfeita igual a ela. Eu era só uma garota comum em Paris, buscando esquecer o peso que carregava nas costas enquanto dançava e bebia alguma coisa. Nos sentamos em uma mesa pequena no canto, de onde víamos tanto a pista de dança quanto o balcão, a luz era baixa, colorida, refletindo nos copos e nas risadas. Ravena não perdeu tempo, acenou para o garçom e pediu duas doses de tequila, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Não sei se… — comecei, hesitando. Ela arqueou a sobrancelha, zombeteira. — Não sei se? Ah, não, Ívy! Hoje você não vai dar desculpas, vai beber comigo, vai dançar comigo, e vai esquecer que sua mãe existe por pelo menos algumas horas. Euen! Não sei se... não sei se... — meneou a cabeça em negação. Mordi o lábio. Ela tinha esse poder sobre mim, me arrastar para fora da minha bolha dourada, me fazer sentir viva por algumas horas. O garçom trouxe as doses, e Ravena levantou o copo. — À liberdade! — brindou. — À liberdade — repeti, sentindo o gosto forte, queimando minha garganta quando virei de uma só vez. Tossi, mas logo gargalhei junto com ela. As horas seguintes passaram como um borrão de música e cores. Ravena me arrastou para a pista, e eu dancei como não fazia a muito e muito e muito tempo, não como bailarina ensaiada e profissional, mas como uma garota qualquer, perdida no ritmo da batida, rindo, rodopiando. Era uma dança imperfeita, mas era minha, dentro do meu momento de viver alguma coisa minimamente estimulante. Em algum momento, voltamos à mesa, suadas e rindo, mesmo estando frio e nevando lá fora, e Ravena pediu cervejas logo depois. Eu nunca tinha bebido tanto, e a sensação era estranha: uma mistura de leveza e coragem, como se por uma noite nada pudesse me atingir e eu pudesse fazer qualquer coisa. — Sabe, você tem que parar de viver com medo da sua mãe, quer dizer, não basicamente medo, mas devoção! O que ela diz você leva como uma lei... Na sua casa vocês vivem de baixo de uma Monarquia? — disse Ravena, já com as bochechas rosadas pela bebida. — Você é incrível, Ívy. Você dança, você canta, você toca… E ela? Só sabe te podar querendo te prender só ao ballet... Isso é injusto demais! As palavras dela me atingiram fundo. Não porque fossem novidade, mas porque ali, com a música, a bebida, a liberdade, eu realmente acreditava que ela tinha razão, e talvez tivesse mesmo! Suspirei, apoiando o queixo nas mãos, precisava de algo pra segurar minha cabeça no lugar, de forma não figurativa falando, pois minha cabeça poderia tombar de tanto que estava tonta. — Eu queria poder… ser eu mesma, sabe? Sem esse peso todo. Só… ser livre. Ravena me olhou como quem sentisse uma empatia imensa, e eu queria que isso fosse o suficiente para me libertar. — E você vai ser. Eu tenho certeza que essas coisas não serão pra sempre. Ficamos ali mais um tempo, entre goles e risadas, até que percebi que já era muito tarde. O relógio marcava quase três da manhã. Um pânico leve tomou conta de mim. — Eu tenho que ir. — Minha voz tremeu. — Se minha mãe descobrir… Ravena revirou os olhos. — Então vamos, amiga! Não quero que arrume grandes problemas por ter topado minha ideia louca. Me despedi dela com um beijo na bochecha e saí às pressas, o frio da madrugada parisiense batendo no rosto, tentando clarear minha mente embriagada e evitar que eu caísse no chão e dormisse por ali mesmo. A rua estava silenciosa, em contraste com o barulho do bar. Peguei um táxi, pedindo que me deixasse a duas ruas da mansão, não podia arriscar ser vista chegando de madrugada por algum funcionário da mansão. Caminhei apressada até o portão lateral, as mãos tremendo tanto pelo frio quanto pelo medo de ser pega. Abri ouvindo um estalo baixo, mas que ecoou o bastante pra silenciar os insetos noturnos. Entrei. Os corredores estavam escuros, a mansão parecia vazia naquele momento, ou todos já estavam na cama. Respirei fundo, tentando não fazer barulho com os saltos, me encostei na parede gelada e retirei os saltos, sentino o alívio quando pisei no chão descalça. Eu só queria chegar ao meu quarto, me deitar e fingir que nada tinha acontecido. Mas então ouvi algo que me chamou muita a atenção. A voz do meu pai. Baixa, cortante, cheia de uma tensão que nunca ouvi nele antes. Vinha do escritório, cuja porta estava apenas entreaberta. Instintivamente, me aproximei, na ponta dos pés, prendendo a respiração, fazendo o menor barulho possível. — Eu já disse que vou pagar! Não precisamos de um acordo desse nível! Isso é insano! É inaceitável! — a voz dele era firme, mas havia um desespero que o traía. — Só preciso de mais tempo, logo logo consigo o que vocês querem. Queria poder ouvir o que diziam do outro lado, pois papai esfregava o rosto e os cabelos com um desespero assustador. — Eu sei das consequências, mas quando fizemos o acordo disseram que seria flexível! Não é como se eu estivesse em dívida por anos. Meu coração parou. — Vocês… vocês não me dão espaço para negociar… — meu pai murmurou, quase para si mesmo. — Mas eu não posso… não tenho como… O que seu chefe está exigindo é errado em vários níveis! Temos outras formas. Vejo quando arregala os olhos, aperta o maxilar marcado com força, e eu só queria entender os motivos daquilo me amedrontar. —Não, por favor... Ela é minha maior preciosidade! Não posso aceitar esse acordo. Meu pai soltou um suspiro carregado, e de repente ouvi o barulho seco de vidro se estilhaçando. Ele tinha atirado contra a parede o copo de cristal onde bebia conhaque francês, aquele que ele guardava para ocasiões especiais. O líquido âmbar escorreu pelo mármore, como se fosse sangue derramado, e isso deixou tudo ainda mais sinistro. Afastei-me rápido, o coração martelando. Senti o gosto metálico do medo na boca, e algo me avisando que tudo aquilo teria muito haver comigo, mais do que eu imaginava. Não sabia o que estava acontecendo, quem cobrava meu pai, ou quanto perigo realmente havia. Mas sabia de uma coisa, aquela dívida não era comum. E, de algum jeito, ela já estava prestes a engolir a mim também, algo me avisava! Eu não estava louca, ao menos não ainda. Voltei para o quarto correndo, fechei a porta e deslizei até o chão, as mãos no rosto, o corpo inteiro tremendo. A liberdade que senti no bar parecia uma lembrança distante, quase irreal. O contraste me esmagava, em poucas horas, passei da leveza das risadas com Ravena ao peso insuportável de uma ameaça invisível. Na qual eu nem fazia ideia de como me tocaria... Mas dizem que a aflição de não saber o que esperar, é sempre maior do que a que se espera. Me deitei depois de um banho rápido, mas o sono não veio, fiquei encarando o teto, tentando pensar em algo que não fosse a conversa que eu não deveria ter ouvido, e foi assim que lembrei de algo... O homem lindo e charmoso de mais cedo... Dmitri, um Russo, provavelmente... Lembrar o jeito que ele me olhava, e o jeito firme que segurou meu pulso e que disse aquelas palavras, conseguiram afastar um pouco da minha mente a turbulência de antes... Seria pedir muito para ver ele outra vez? Ou talvez só em meus sonhos mais lindos? Espero ter a chance de o ver outra vez, desta, sem a infelicidade de chocar contra ele e derramar o café quente... Lembrar disso me fez rir um pouco, por muito pouco mesmo isso viraria uma comédia romântica, se não fosse o horário e as regras idiotas impostas pela minha mãe. Suspiro e encaro o teto sentindo os olhos pesarem, enfim, o sono estava chegando... Que não seja muito pedir pra ver Dmitri em meus sonhos mais lindos, que fosse melhor ser hoje! Que a vida fosse um pouco melhor e linda quando acordar, era tudo o que eu pedia...
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