Dante não me deu um quarto. Deu uma cela de vidro.
— Você dorme aqui — disse Marta, abrindo a porta de um cômodo luxuoso, mas com janelas blindadas e travas eletrônicas. — O senhor Vane quer que você esteja perto de Sofia. Mas longe o suficiente para não ser uma ameaça.
Não respondi. Só olhei para o corredor escuro. Sabia que, em algum lugar, ele estava me observando.
Na manhã seguinte, encontrei Sofia no quarto dela — um espaço perfeito demais, como vitrine de museu. Nada fora do lugar. Nenhum brinquedo jogado. Nenhuma mancha de giz nas paredes. Era o quarto de uma criança que aprendera a não ocupar espaço.
Ela estava sentada num balanço de veludo, perto da janela, os olhos fixos no vazio.
— Oi, Sofia — eu disse, a voz soando alta demais naquele silêncio. — Eu sou a Elena.
Nenhuma resposta. Nem um piscar. Só uma estátua de porcelana viva.
Aproximei-me devagar. Sentia o tapete grosso sob os pés, o peso do olhar de Dante nas minhas costas — mesmo sem vê-lo.
— Eu trouxe uma coisa — menti, no meu bolso do uniforme cinza. Só tinha a fita de cetim vermelha que prendia meu cabelo. Desfiz o coque e comecei a fazer um nó em forma de coelho. — Meu pai me ensinou isso quando eu estava triste. Dizia que o coelho guardava todos os nossos segredos.
Pela primeira vez, os olhos dela se moveram. Fixaram-se na fita. Não houve sorriso, mas houve reconhecimento.
Sentei no chão, ao nível dela. Não era autoridade ali. Era só outra alma perdida.
— Você não precisa falar comigo agora — sussurrei. — Nem amanhã. Eu posso ser o seu silêncio, se você quiser.
Foi então que a porta se abriu sem aviso.
Dante entrou como se possuísse o ar. Camisa escura, cheiro de uísque e sândalo, olhos azuis cortando o cômodo como lâminas.
— Ela comeu? — perguntou, frio, direto.
— Ainda não, senhor Vane. Estávamos nos conhecendo.
Ele caminhou até o centro do quarto, ignorando minha presença no chão. Olhou para Sofia com uma mistura de dor e impaciência que me apertou o peito.
— Ela precisa comer. Sofia é fraca demais. O mundo lá fora não perdoa a fraqueza.
— Ela não é fraca — rebati, as palavras saindo antes que eu pudesse contê-las. — Ela está de luto. Existe uma diferença.
O olhar que ele me lançou poderia ter congelado o inferno. Deu um passo na minha direção. Levantei rápido, o coração batendo na garganta.
Cale a boca, Elena. Você vai ser demitida ou morta antes do jantar.
— Você acha que sabe algo sobre esta família? — perguntou, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. Parou tão perto que vi a cicatriz fina na mandíbula dele. — Você é uma babá, Santos. Está aqui para seguir ordens, não para fazer diagnósticos.
— Eu sou a pessoa que vai passar vinte e quatro horas com ela — respondi, tentando manter a voz firme. — Se o senhor quer uma babá que só obedece, deveria ter contratado um robô. Se quer que ela volte a ser criança, precisa deixar que ela sinta a dor primeiro.
O silêncio que se seguiu foi insuportável. Eu esperava ser expulsa.
Mas Dante só me estudou, os olhos percorrendo meu rosto como se procurassem uma falha. Depois, estendeu a mão e tocou meu queixo, forçando-me a olhar para ele.
A pele dele era quente. Áspera. O contato enviou um choque pelo meu pescoço.
— Você tem coragem — murmurou. — Ou é muito corajosa, ou é apenas estúpida. Espero, para o seu bem, que seja a primeira opção.
Soltou meu rosto abruptamente e virou-se para Sofia.
— Coma, Sofia. É uma ordem.
Saiu sem olhar para trás.
Respirei fundo, sentindo o oxigênio voltar aos pulmões. Olhei para Sofia — e vi algo novo nos olhos dela.
Admiração.
Talvez ninguém nunca tivesse enfrentado Dante na frente dela.
Naquela noite, fiquei acordada, ouvindo o vento bater nas janelas blindadas. Liguei para o hospital. A enfermeira atendeu.
— Lúcia dormiu bem. Perguntou por você.
— Diga que volto em breve.
Desliguei. Sabia que “breve” era relativo. Nesta casa, tempo era sangue.
De repente, um som no corredor. Soluços baixos, quase inaudíveis.
Abri a porta devagar. Sofia estava encolhida contra a parede, tremendo, os olhos cheios de terror.
— Pesadelo? — sussurrei.
Ela assentiu, jogando-se nos meus braços. O corpinho gelado me fez apertá-la com força.
Levei-a para dentro, embalei-a até os soluços diminuírem.
— Ele vem, Sofia — murmurei no ouvido dela. — Seu pai destrói qualquer um que tocar em você. Você sabe disso.
Ela escondeu o rosto no meu pescoço. E pela primeira vez, sussurrou:
— Lena…
Meu coração parou.
Mais tarde, ouvi vozes alteradas vindo do escritório de Dante. Gritos. Vidro quebrando. Depois, um silêncio pior que o barulho.
Algo mudara. A paz frágil da mansão estava prestes a estourar.
Dante Vane estava em guerra.
E eu, sem saber, tinha me tornado o alvo mais fácil para os seus inimigos.
Na manhã seguinte, encontrei Dante na varanda, tomando café. Ele não me olhou, mas falou:
— Ela falou.
— Sim. Disse “Lena”.
— Primeira palavra em meses. — Fez uma pausa. — Por que você?
— Porque eu não a vejo como herdeira. Vejo como criança.
Ele finalmente me encarou.
— Cuidado, Elena. Neste mundo, quem se apega às crianças… sofre mais.
— Já sofri o suficiente. Agora, eu protejo.
Dante estudou meu rosto por um longo momento. Depois, empurrou uma xícara de café na minha direção.
— Beba. Você vai precisar.
— Moretti sabe que você existe. Sabe que salvou Sofia no ataque. E sabe que tem uma irmã no hospital.
Meu sangue gelou.
— O que ele quer?
— Você. Vivo ou morto, ele não se importa. Mas sabe que, se te machucar, me enfraquece.
— E o que vamos fazer?
— Vamos deixá-lo pensar que tem vantagem. — Os olhos dele brilharam com algo sombrio. — Até que ele perceba: tocar em você é o mesmo que assinar sua própria sentença de morte.
Mais tarde, encontrei um envelope sob minha porta. Dentro, uma foto de Lúcia saindo do hospital.
E um bilhete:
“Ela está segura. Mas não por muito tempo. — D.”
Sabia que não era ameaça.
Era promessa.
Na varanda, olhei para a cidade lá embaixo. Chicago brilhava, cheia de sombras e perigo.
Mas ali, naquela mansão de mármore e sangue, algo novo estava nascendo.
Não era amor. Ainda não.
Era lealdade.
Era confiança.
Era o começo de uma guerra que não seria travada com balas, mas com escolhas.
Eu bebi o café, amargo e quente, e soube:
não havia mais volta.
Eu era deles.
E eles… eram meus.