O Sangue nas Mãos

1165 Words
Dante não estava em casa. — Reunião de emergência — Marta disse, entregando meu café da manhã. — Ele volta ao amanhecer. Olhei para Sofia, que brincava com o urso de pelúcia no jardim interno. Ela tinha dito “Lena” duas vezes hoje. Era pouco, mas era tudo. — Fique perto dela — Marta sussurrou, os olhos cheios de advertência. — Moretti sabe que você está aqui. Não respondi. Só apertei a xícara quente nas mãos. Sabia que a paz era uma ilusão. A noite caiu como um manto de chumbo. Eu estava quase cochilando na poltrona do quarto de Sofia quando o mundo explodiu. Um estalo seco. Depois, o estilhaçar de vidro lá embaixo. Meu coração saltou para a garganta. Não é pesadelo, Elena. Acorde. Agora. Sofia sentou-se na cama num solavanco, os olhos arregalados, a respiração presa. Ela não gritou — nunca gritava —, mas o terror no rosto era mais alto que qualquer clamor. — Shh... silêncio, pequena. Fica comigo — sussurrei, a voz rouca. Outro estalo. Depois, o som inconfundível de rajadas de metralhadora perfurando a noite. Rat-tat-tat. Rítmico. Implacável. Gritos abafados no corredor. Passos pesados. Ordens em russo. Estávamos sozinhas. — Vem, Sofia! Agora! — Puxei-a da cama. Ela era leve como uma boneca de pano, as mãos frias agarrando meu pijama com força desesperada. Sabia que não podíamos ficar no quarto. As janelas eram blindadas, mas o perigo já estava dentro. O cheiro de pólvora vazava pelas frestas, metálico e ardido. Abri a porta só um milímetro. O corredor era caos. Luzes de emergência piscavam em vermelho sinistro. Fumaça. Sombras rápidas. Vi um dos seguranças de Dante — o mesmo que me servira café horas antes — cair no chão com um baque surdo. O sangue se espalhou pelo mármore branco como tinta negra Minha visão turvou. O estômago revirou. Vou desmaiar. Vou morrer aqui. — Não. Se você morrer, ela morre. O pensamento me atingiu como um choque. Olhei para Sofia. Ela estava encolhida, os olhos fixos no corpo do segurança. Precisava escondê-la. — Não olha, Sofia. Olha para mim. Só para mim. Lembrei-me do armário de serviço atrás da tapeçaria, perto da lavandeira. Apertado. Escuro. Ninguém pensaria em olhar lá. Corremos. Cada passo parecia durar uma eternidade. Balas batiam nas paredes, arrancando gesso e quadros caros. Um homem mascarado surgiu no final do corredor. Apontou uma arma curta na nossa direção. Deus, por favor. Joguei-me no chão, cobrindo Sofia com o corpo. O tiro passou zunindo por cima de nós, estilhaçando um vaso de porcelana. Poeira branca caiu sobre meus cabelos. Sem pensar, chutei uma mesa lateral, derrubando-a para criar uma barreira. — Corre! — gritei num sussurro. Entramos no armário. Cheirava a produtos de limpeza e mofo. Puxei Sofia para o fundo, atrás de uma prateleira de lençóis, e tranquei a porta com o trinco frágil. Ficamos no escuro total. Só ouvia a respiração errática de Sofia e o meu próprio coração querendo escapar pelo peito. Lá fora, o combate continuava. Gritos. Móveis sendo arrastados. Corpos caindo. Eu a abraçava, sentindo o tremor constante do corpo dela. Queria chorar. Queria implorar para aquilo parar. Mas tinha que ser o muro dela. — Ele vem, Sofia — sussurrei no ouvido dela. — Seu pai destrói qualquer um que tocar em você. Você sabe disso. Não sabia se mentia para ela ou para mim mesma. As horas — ou seriam minutos? — passaram num borrão de terror. O silêncio começou a retornar, mas era pesado, carregado com o cheiro de morte. Ouvi passos lentos no corredor. Alguém estava procurando. Por favor, não abra a porta. A maçaneta girou. Meu sangue congelou. Sofia enterrou o rosto na minha barriga. Peguei um frasco pesado de desinfetante, pronta para golpear. A porta foi chutada. A luz vermelha inundou o armário. — Ora, ora... — A voz era áspera, com sotaque estrangeiro. — Vejam só o que temos aqui. O tesouro do Vane e a sua bonequinha de estimação. Um homem alto, máscara de esqui, olhos cheios de malícia, nos encarava. Estendeu a mão para agarrar Sofia pelo cabelo. — NÃO TOCA NELA! — Gritei, saltando para frente, batendo com o frasco na lateral da cabeça dele. Ele cambaleou, soltou um xingamento, e me acertou um tapa que me fez ver estrelas. Caí contra as prateleiras, o gosto de ferro do sangue inundando minha boca. Levantou a arma. O cano preto apontado para minha testa. É o fim. Fechei os olhos. BUM. O som foi diferente. Mais alto. Autoritário. Respigues quentes no meu rosto. Abri os olhos. O homem mascarado caiu para trás, um buraco perfeito no centro da testa. Dante estava parado na porta. Parecia o anjo da morte. Camisa branca encharcada de sangue, arma fumegante na mão. Os olhos azuis, antes de gelo, agora eram puro fogo líquido. Ele não olhou para o cadáver. Olhou para nós. Sofia soltou-se de mim e correu para ele. Dante a pegou com o braço esquerdo, apertando-a contra o peito, enquanto varria o corredor com a arma na mão direita. Tentei levantar, mas minhas pernas falharam. Escorreguei pela parede, tremendo tanto que os dentes batiam. Dante caminhou até mim. Agachou-se, a sombra me cobrindo por completo. Com a mão livre de sangue, segurou meu pescoço, não para sufocar, mas para me obrigar a olhar para ele. — Você está ferida? — Eu... acho que não. Eles... queriam levá-la, Dante. Ele me estudou por um segundo eterno. Vi quando seus olhos pousaram no sangue no meu rosto — o sangue do homem que ele matara para me salvar. Passou o polegar pelo meu lábio cortado, um gesto rápido, quase imperceptível. — Você protegeu a minha filha — disse, e pela primeira vez, não havia sarcasmo. Havia um respeito sombrio. — Ninguém nunca fez isso sem ser pago para morrer por ela. Levantou-se e me estendeu a mão. Peguei-a. Era enorme, firme, terrivelmente quente. Quando me puxou para cima, nossos corpos se tocaram por um instante. O cheiro de pólvora e suor nele era inebriante, perigoso. — A guerra começou, Elena — murmurou, guiando-me para fora do armário, passando pelos corpos no chão. — E agora que você derramou sangue por esta família, não há mais volta. Você é nossa. Olhei para o rastro de destruição na mansão. Eu era uma babá comum que precisava de dinheiro. Agora, era cúmplice num m******e. Sentia o peso do olhar de Dante em mim. E, no fundo da alma, sabia: o medo que eu sentia dos inimigos dele não era nada comparado ao medo do que eu estava começando a sentir por ele. Naquela noite, fiquei acordada, ouvindo Sofia respirar em paz no quarto ao lado. Dante vigiava da varanda, silhueta recortada contra a lua. Mais tarde, ele entrou no meu quarto. Não disse nada. Só deixou uma pistola sobre a mesa. — Para a próxima vez — murmurou. — Você vai estar pronta. Assenti. Porque sabia: não haveria escapatória. Só sobrevivência. E talvez… algo mais.
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